{"id":3328,"date":"2026-02-09T12:15:03","date_gmt":"2026-02-09T15:15:03","guid":{"rendered":"https:\/\/blogdojoaocosta.com.br\/?p=3328"},"modified":"2026-02-09T12:15:03","modified_gmt":"2026-02-09T15:15:03","slug":"quem-vai-salvar-a-ponte-vermelha-de-pombal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogdojoaocosta.com.br\/?p=3328","title":{"rendered":"Quem vai salvar a ponte Vermelha de Pombal?"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Por Jerdivan Nobrega de Araujo<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A poeira das estradas que cortavam o sert\u00e3o ainda tremulava no ar, misturada ao aroma seco da caatinga. Tropas de mulas e raros autom\u00f3veis desafiavam aqueles caminhos prec\u00e1rios de terra batida, carregando o algod\u00e3o, a farinha e a rapadura produzidos naqueles rinc\u00f5es. A dificuldade de escoamento por vias t\u00e3o provis\u00f3rias encarecia a produ\u00e7\u00e3o e inflacionava o custo de vida do sertanejo. Somava-se a isso o penoso deslocamento das pessoas, amontoadas em velhos \u00f4nibus que mais pareciam dilig\u00eancias do Velho Oeste.<\/p>\n<p>A estrada de ferro prometia mudar aquela realidade. E a ponte que a se sustentaria sobre o rio Pianc\u00f3 carregava, em seus pilares, o s\u00edmbolo dessa transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Era domingo, 18 de janeiro de 1942. Enquanto o Di\u00e1rio de Pernambuco noticiava uma guerra distante em mares e desertos alheios, \u00e0s margens do Pianc\u00f3, em Pombal, travava-se outra batalha, secular e silenciosa: a guerra contra a dist\u00e2ncia e o isolamento. A nova ponte se impunha no horizonte, um gigante de ferro, cimento e alvenaria. Cento e setenta metros de comprimento, seis de largura \u00fatil.<\/p>\n<p>Para os olhos da capital, representava um custo de 800 contos de r\u00e9is. Para o povo que se aglomerava para v\u00ea-la, era um sonho antigo materializado. A promessa de que as riquezas do hinterland nordestino seguiriam seu curso, rompendo a \u201cprejudicial solu\u00e7\u00e3o de continuidade\u201d imposta pela terra. Pombal entrava nos trilhos da modernidade, ao ritmo da Maria Fuma\u00e7a.<\/p>\n<p>Estiveram presentes na entrega da majestosa ponte o chefe do governo interino, Samuel Duarte, representando o governador Ruy Carneiro, o engenheiro diretor do (I.F.O.C.S.), Dr.\u00a0 Luz Vieira, o engenheiro projetistas Leonardo Arcoverde, o prefeito coronel El\u00edsio Sobreira, o promotor p\u00fablico Dr. Nelson N\u00f3brega e uma grande massa popular. Os discursos cumpriram o ritual.<\/p>\n<p>O engenheiro Leonardo Arcoverde falou de alicerces e c\u00e1lculos e lembrou do trabalho dos seus assistentes Figueredo e Lins e do mestre-de-obras Abelardo Lobo. Lembrou do \u201cpatri\u00f3tico governo do presidente Get\u00falio Vargas\u201d, dizendo que aquela obra n\u00e3o era feita apenas de concreto, pedra e ferro; era tamb\u00e9m de ideologia, um monumento ao esfor\u00e7o nacional.<\/p>\n<p>O chefe do governo interino, Samuel Duarte, discursou sobre a \u201ccircula\u00e7\u00e3o das riquezas\u201d, um \u201cfen\u00f4meno intimamente articulado\u201d. A ferrovia era, para ele, a linguagem nova do progresso tentando fincar ra\u00edzes no solo rachado do sert\u00e3o. Louvou a Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (I.F.O.C.S.) e seu l\u00edder, o engenheiro Luiz Vieira. Falou em \u201cvencer pessimismos\u201d e \u201ccampanhas derrotistas\u201d. A ponte, assim, erguia-se como resposta aos que duvidavam do sert\u00e3o e de sua gente.<\/p>\n<p>Em nome dos pombalenses, falou o promotor p\u00fablico Dr. Nelson N\u00f3brega, que externou o agradecimento das popula\u00e7\u00f5es circunvizinhas.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s dos discursos oficiais, era poss\u00edvel sentir o murm\u00fario da plateia. Os mais velhos recordavam as cargas levadas no lombo de mulas at\u00e9 as capitais distantes e vislumbravam agora a era dos trilhos. Os jovens viam naquela estrutura s\u00f3lida um convite para encontros, passeios e lazer \u00e0s margens do rio. Os comerciantes recalculavam, mentalmente, o tempo e o dinheiro que poupariam.<\/p>\n<p>Finalmente, o gesto simb\u00f3lico: o engenheiro Arcoverde solicitou \u201cpermiss\u00e3o para dar como aberto o tr\u00e1fego na ponte ferrovi\u00e1ria de Pombal\u201d. A fita foi rompida n\u00e3o com tesoura, mas com palavras. Os vag\u00f5es poderiam, dali em diante, cruzar o v\u00e3o com seus roncos e buzinas estridentes, ligando Pombal ao mundo, carregando e trazendo o progresso.<\/p>\n<p>A comitiva partiu, a poeira baixou. A guerra l\u00e1 fora seguiu seu curso. Aqui em Pombal, uma nova ponte de ferro repousava sobre o leito do Pianc\u00f3. Sua hist\u00f3ria verdadeira, por\u00e9m, estava apenas come\u00e7ando: a hist\u00f3ria de suportar, dia ap\u00f3s dia, o peso dos vag\u00f5es e das esperan\u00e7as de um povo. Ela foi, naquele janeiro de 1942, mais do que uma obra de arte da engenharia do Dr. Arcoverde: foi uma linha no mapa, um risco de futuro ligando Pombal ao mundo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-3330\" src=\"https:\/\/blogdojoaocosta.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/ponte-2-300x183.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"183\" srcset=\"https:\/\/blogdojoaocosta.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/ponte-2-300x183.jpeg 300w, https:\/\/blogdojoaocosta.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/ponte-2.jpeg 450w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><em>Um lugar de mem\u00f3ria afeteiva<\/em><\/p>\n<p>Hoje, 82 anos depois, a Ponte Vermelha de Pombal pede socorro. Testemunha silenciosa de d\u00e9cadas de abandono, ela permanece como um marco de engenharia em nossa terra. \u00a0Sua estrutura, outrora s\u00edmbolo de conquista, agora mostra as marcas do tempo e do descaso. Preserv\u00e1-la n\u00e3o \u00e9 um ato de saudosismo, mas de reconhecimento. \u00c9 resgatar a narrativa de uma cidade que se construiu \u00e0 sombra de seus pilares e trilhos.<\/p>\n<p>A ponte n\u00e3o \u00e9 apenas ferro e concreto. \u00c9 paisagem, hist\u00f3ria da nossa identidade. Cuidar dela \u00e9 honrar a luta dos que a idealizaram e a ergueram, e \u00e9 legar \u00e0s futuras gera\u00e7\u00f5es um marco tang\u00edvel de seu pr\u00f3prio passado.<\/p>\n<p>A pergunta que ecoa sobre o rio Pianc\u00f3, \u00e9: quem vai, enfim, responder ao chamado da Ponte Vermelha? (fonte <a href=\"http:\/\/memoria.bn.br\/docreader\/DocReader.aspx?bib=029033_12&amp;Pesq=%22Nelson%20da%20Nobrega%22&amp;pagfis=7917\">Di\u00e1rio\u00a0de Pernambuco (PE) &#8211; 1940 a 1949 &#8211;\u00a0DocReader\u00a0Web (bn.br)<\/a>\u00a0Ffoto colorido de by\u00a0 Junior Telmo<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jerdivan Nobrega de Araujo A poeira das estradas que cortavam o sert\u00e3o ainda tremulava no ar, misturada ao aroma seco da caatinga. Tropas de mulas e raros autom\u00f3veis desafiavam aqueles caminhos prec\u00e1rios de terra batida, carregando o algod\u00e3o, a farinha e a rapadura produzidos naqueles rinc\u00f5es. 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