{"id":3342,"date":"2026-02-13T12:14:32","date_gmt":"2026-02-13T15:14:32","guid":{"rendered":"https:\/\/blogdojoaocosta.com.br\/?p=3342"},"modified":"2026-02-13T12:14:32","modified_gmt":"2026-02-13T15:14:32","slug":"fretana-a-revolta-de-princesa-na-narrativa-de-carlos-dias-fernandes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogdojoaocosta.com.br\/?p=3342","title":{"rendered":"Fretana: A Revolta de Princesa na Narrativa de Carlos Dias Fernandes"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Jos\u00e9 Tavares de Ara\u00fajo Neto<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Publicado em 1936, em pleno governo de Get\u00falio Vargas, Fretana, de Carlos Dias Fernandes, constitui o primeiro livro a tratar do movimento armado de Princesa sob a \u00f3tica dos vencidos. A obra apresenta car\u00e1ter biogr\u00e1fico e memorial\u00edstico, mas assume tamb\u00e9m clara dimens\u00e3o pol\u00edtica ao revisitar acontecimentos ainda recentes e sens\u00edveis.<\/p>\n<p>O autor, Carlos Augusto Furtado de Mendon\u00e7a Dias Fernandes, era natural da cidade, assim como Castro Pinto, \u00c1lvaro de Carvalho e Jo\u00e3o Duarte Dantas, futuro autor do atentado que vitimaria Jo\u00e3o Pessoa Esse dado n\u00e3o \u00e9 meramente geogr\u00e1fico. Mamanguape funciona como n\u00facleo formador. \u00c9 ali que se estruturam as primeiras experi\u00eancias do narrador, suas refer\u00eancias culturais e seu contato inicial com as disputas pol\u00edticas locais.<\/p>\n<p>Embora trate de fatos concretos e personagens facilmente identific\u00e1veis, o autor optou pelo uso de nomes fict\u00edcios para representar os protagonistas reais. Ele pr\u00f3prio surge como Frederico Pestana, conhecido por Fretana, expediente liter\u00e1rio que lhe permitiu narrar os epis\u00f3dios sob certa prote\u00e7\u00e3o formal.<\/p>\n<p>Apesar do disfarce nominal, a correspond\u00eancia entre personagens e figuras hist\u00f3ricas era amplamente reconhec\u00edvel. A recep\u00e7\u00e3o do livro foi marcada por resist\u00eancia. A obra sofreu um boicote silencioso, sendo retirada das vitrines ou relegada aos fundos das livrarias. O resultado foi circula\u00e7\u00e3o restrita e encalhe editorial, circunst\u00e2ncia que contribuiu para que, com o passar do tempo, Fretana se tornasse obra rara da historiografia paraibana.<\/p>\n<p>No Cap\u00edtulo XX, Carlos Dias Fernandes constr\u00f3i sua narrativa dos acontecimentos de 1928 a 1930 a partir de um ponto decisivo: a posse de Jo\u00e3o Pessoa no governo da Para\u00edba. A mudan\u00e7a administrativa representa, no livro, n\u00e3o apenas a substitui\u00e7\u00e3o de um chefe pol\u00edtico, mas a reconfigura\u00e7\u00e3o profunda do equil\u00edbrio de for\u00e7as no Estado.<\/p>\n<p>O autor relembra que, anos antes, durante o governo de Camilo de Holanda (1916\u20131920), quando exercia a dire\u00e7\u00e3o de A Uni\u00e3o, envolveu-se em desentendimento p\u00fablico com o c\u00f4nego Walfredo Leal e seus sobrinhos, Jos\u00e9 Am\u00e9rico de Almeida e o padre Mathias Freire. O epis\u00f3dio teve origem em mat\u00e9ria de teor agressivo publicada no Di\u00e1rio da Para\u00edba, \u00f3rg\u00e3o vinculado ao grupo oposicionista. Sentindo-se pessoalmente atingido, Carlos Dias procurou o chefe pol\u00edtico para exigir satisfa\u00e7\u00e3o formal.<\/p>\n<p>Desafiado para duelo, Walfredo Leal recusou-se a bater-se. Declarou n\u00e3o escrever no jornal e atribuiu a autoria dos textos a seus sobrinhos, respons\u00e1veis pelo editorial do peri\u00f3dico. Ap\u00f3s a recusa, Carlos Dias respondeu pela imprensa com o artigo sat\u00edrico Tr\u00eas Fur\u00fanculos, no qual atingia o c\u00f4nego e seus dois sobrinhos, utilizando a met\u00e1fora como instrumento de ataque p\u00fablico.<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o de Jo\u00e3o Pessoa ao governo traz consigo o fortalecimento de Jos\u00e9 Am\u00e9rico de Almeida, figura que, segundo a mem\u00f3ria do autor, passaria a exercer papel decisivo na orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da nova administra\u00e7\u00e3o. Antigo integrante do grupo liderado por seu tio, o c\u00f4nego Walfredo Leal, e desafeto hist\u00f3rico dos epitacistas, Jos\u00e9 Am\u00e9rico surge na narrativa como articulador influente da nova fase administrativa.<\/p>\n<p>Carlos Dias registra que, nos primeiros dias do novo governo, as decis\u00f5es assumem ritmo acelerado. Substitui\u00e7\u00f5es em cargos estrat\u00e9gicos, redefini\u00e7\u00f5es administrativas e mudan\u00e7a de postura pol\u00edtica consolidam rapidamente um novo n\u00facleo dirigente. A exonera\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio autor da dire\u00e7\u00e3o de A Uni\u00e3o, formalizada sob a f\u00f3rmula burocr\u00e1tica de \u201ca pedido\u201d, insere-se nesse movimento de reorganiza\u00e7\u00e3o. A iniciativa do afastamento aparece menos como express\u00e3o de vontade pessoal do demission\u00e1rio e mais como resultado da nova orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, associada \u00e0 influ\u00eancia decisiva de Jos\u00e9 Am\u00e9rico de Almeida, seu hist\u00f3rico antagonista.<\/p>\n<p>Em Fretana, a atua\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Am\u00e9rico associa-se \u00e0 linha de firmeza adotada pelo governo Jo\u00e3o Pessoa. Ele figura como conselheiro pol\u00edtico e formulador do discurso p\u00fablico, participando da defini\u00e7\u00e3o das respostas \u00e0s cr\u00edticas e da condu\u00e7\u00e3o do embate com advers\u00e1rios internos.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que se intensifica o conflito com setores das oligarquias do interior, sobretudo com o coronel Jos\u00e9 Pereira Lima, chefe pol\u00edtico de Princesa. O rompimento n\u00e3o se apresenta como fato isolado, mas como consequ\u00eancia de medidas que atingem diretamente o poder regional. A centraliza\u00e7\u00e3o administrativa e o controle mais rigoroso das pr\u00e1ticas pol\u00edticas no interior provocam rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Pereira Lima \u00e9 definido como chefe pol\u00edtico regional cuja atua\u00e7\u00e3o se insere no centro do conflito armado. O autor o apresenta como lideran\u00e7a sertaneja consolidada, detentora de autoridade constru\u00edda ao longo do tempo, sustentada por v\u00ednculos pessoais, familiares e pol\u00edticos no sert\u00e3o da Para\u00edba.<\/p>\n<p>No encadeamento dos acontecimentos, Jos\u00e9 Pereira surge como polo de resist\u00eancia \u00e0s decis\u00f5es do governo estadual ap\u00f3s a posse de Jo\u00e3o Pessoa. Carlos Dias descreve o rompimento como consequ\u00eancia direta da nova orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Estado, marcada por centraliza\u00e7\u00e3o administrativa, interven\u00e7\u00f5es no interior e enfrentamento aberto \u00e0s lideran\u00e7as regionais. Sua rea\u00e7\u00e3o \u00e9 apresentada como resposta a esse processo, n\u00e3o como iniciativa gratuita de rebeldia.<\/p>\n<p>O autor atribui a Jos\u00e9 Pereira a responsabilidade pela organiza\u00e7\u00e3o militar do movimento de Princesa. Ele aparece como comandante pol\u00edtico e pr\u00e1tico da resist\u00eancia armada, respons\u00e1vel por reunir homens, estruturar posi\u00e7\u00f5es defensivas e sustentar o confronto com as for\u00e7as estaduais. Sua atua\u00e7\u00e3o situa-se no plano territorial e militar, distinta da a\u00e7\u00e3o de figuras que operavam nos bastidores da pol\u00edtica e do discurso p\u00fablico.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Pereira n\u00e3o \u00e9 descrito como articulador do assassinato de Jo\u00e3o Pessoa nem como mentor de conspira\u00e7\u00e3o nacional. Sua figura permanece vinculada ao conflito regional. Carlos Dias o apresenta como l\u00edder que, diante do cerco pol\u00edtico e administrativo, opta pelo enfrentamento armado como forma extrema de afirma\u00e7\u00e3o do poder local.<\/p>\n<p>Enquanto o conflito armado se desenvolve no sert\u00e3o, o ambiente pol\u00edtico estadual torna-se cada vez mais tenso. A imprensa amplia as diverg\u00eancias. A publica\u00e7\u00e3o de correspond\u00eancia \u00edntima de Jo\u00e3o Duarte Dantas intensifica o clima de animosidade.<\/p>\n<p>Em 26 de julho de 1930, no Recife, Jo\u00e3o Duarte Dantas dispara contra Jo\u00e3o Pessoa, provocando sua morte. O atentado encerra um ciclo de tens\u00f5es acumuladas ao longo de meses de confrontos pol\u00edticos e militares.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Duarte Dantas \u00e9 apresentado como autor material do crime, mas produzido por ambiente pol\u00edtico e moral previamente degradado. A narrativa n\u00e3o o descreve como conspirador frio nem como instrumento direto de comando pol\u00edtico formal. Ele surge como sujeito movido por ressentimento profundo, humilha\u00e7\u00e3o p\u00fablica e sentimento de honra ferida.<\/p>\n<p>Segundo o autor, a motiva\u00e7\u00e3o imediata do crime encontra-se na exposi\u00e7\u00e3o de sua vida \u00edntima, especialmente na divulga\u00e7\u00e3o de correspond\u00eancia pessoal que o lan\u00e7ou ao descr\u00e9dito p\u00fablico. Esse epis\u00f3dio aparece como fator decisivo para a ruptura psicol\u00f3gica que antecede o atentado.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, Fretana amplia o enquadramento do crime. O assassinato de Jo\u00e3o Pessoa \u00e9 descrito como ato individual inserido em contexto pol\u00edtico radicalizado, marcado por persegui\u00e7\u00f5es, viol\u00eancia simb\u00f3lica e aus\u00eancia de media\u00e7\u00e3o. Jo\u00e3o Dantas n\u00e3o \u00e9 absolvido da responsabilidade, mas tampouco \u00e9 tratado como causa \u00fanica do desfecho.<\/p>\n<p>Na constru\u00e7\u00e3o narrativa de Carlos Dias Fernandes, os acontecimentos encadeiam-se de forma progressiva: a posse de Jo\u00e3o Pessoa, a consolida\u00e7\u00e3o da influ\u00eancia de Jos\u00e9 Am\u00e9rico, o rompimento com Jos\u00e9 Pereira, a organiza\u00e7\u00e3o do movimento armado em Princesa e, por fim, o assassinato.<\/p>\n<p>O autor distribui formalmente as responsabilidades: Jo\u00e3o Pessoa como chefe do Executivo, Jos\u00e9 Pereira como l\u00edder da resist\u00eancia armada e Jo\u00e3o Duarte Dantas como autor material do atentado. Contudo, a presen\u00e7a constante de Jos\u00e9 Am\u00e9rico ao longo do processo \u2014 desde a reorganiza\u00e7\u00e3o administrativa at\u00e9 a sustenta\u00e7\u00e3o da linha pol\u00edtica que agrava os conflitos \u2014 confere-lhe posi\u00e7\u00e3o central na engrenagem narrativa.<\/p>\n<p>Assim, em Fretana, a trag\u00e9dia de 1930 surge como resultado de ambiente pol\u00edtico moldado por decis\u00f5es sucessivas, rupturas regionais e radicaliza\u00e7\u00e3o progressiva, no qual a figura de Jos\u00e9 Am\u00e9rico ocupa papel determinante na mem\u00f3ria constru\u00edda pelo autor.<\/p>\n<p># Jos\u00e9 Tavares \u00e9 escritor e pesquisador<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Tavares de Ara\u00fajo Neto Publicado em 1936, em pleno governo de Get\u00falio Vargas, Fretana, de Carlos Dias Fernandes, constitui o primeiro livro a tratar do movimento armado de Princesa sob a \u00f3tica dos vencidos. 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