{"id":3637,"date":"2026-08-17T13:08:50","date_gmt":"2026-08-17T16:08:50","guid":{"rendered":"https:\/\/blogdojoaocosta.com.br\/?p=3637"},"modified":"2026-08-17T13:08:50","modified_gmt":"2026-08-17T16:08:50","slug":"reflexao-de-um-cabra-sobre-o-livro-que-concluiu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogdojoaocosta.com.br\/?p=3637","title":{"rendered":"Reflex\u00e3o de um &#8220;cabra&#8221; sobre o livro que concluiu"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Jos\u00e9 Tavares de Ara\u00fajo Neto<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Hoje, ao concluir a leitura e a revis\u00e3o de A Marcha da Coluna Prestes pelo Estado da Para\u00edba: Combates, Documentos e Narrativas, sinto que cheguei ao ponto em que precisava chegar.<\/p>\n<p>Foram quase tr\u00eas d\u00e9cadas de muitas leituras e releituras.\u00a0 Tudo come\u00e7ou em 1996, quando descobri que a Coluna Prestes havia passado por Pombal e que o comando-geral da marcha havia pernoitado na cidade. A partir daquele momento, comecei a ler tudo o que encontrava sobre a passagem dos revolucion\u00e1rios pela Para\u00edba.<\/p>\n<p>Li muitos jornais de 1926, os telegramas, as mensagens do governo, os relat\u00f3rios militares, as correspond\u00eancias, os livros de mem\u00f3rias, os depoimentos e os estudos produzidos posteriormente. Com o passar dos anos, novas fontes foram surgindo, sobretudo com a digitaliza\u00e7\u00e3o de acervos. Algumas permitiram confirmar informa\u00e7\u00f5es; outras trouxeram novos dados e, em determinados casos, colocaram em d\u00favida vers\u00f5es que eu j\u00e1 conhecia.<\/p>\n<p>Foi esse trabalho de ler, comparar e confrontar fontes que orientou a constru\u00e7\u00e3o deste livro.<\/p>\n<p>N\u00e3o quis simplesmente repetir aquilo que j\u00e1 havia sido escrito sobre a Coluna Prestes. Procurei acompanhar sua passagem pela Para\u00edba em ordem cronol\u00f3gica, percorrendo os lugares por onde passou, identificando os personagens envolvidos e recuperando documentos e testemunhos que ajudam a compreender os acontecimentos.<\/p>\n<h2>Forma\u00e7\u00e3o da Coluna Miguel Costa-Prestes<\/h2>\n<p>Comecei pela forma\u00e7\u00e3o da Coluna Miguel Costa-Prestes e pelo movimento tenentista, porque entendi que n\u00e3o seria poss\u00edvel compreender sua chegada \u00e0 Para\u00edba sem conhecer o processo pol\u00edtico e militar que a antecedeu. A partir da\u00ed, acompanhei a entrada da Coluna no Estado e sua marcha pelo sert\u00e3o.<\/p>\n<p>Pombal ocupa naturalmente um espa\u00e7o especial neste trabalho. Foi aqui que nasceu minha inquieta\u00e7\u00e3o sobre o tema e foi tamb\u00e9m aqui que encontrei documentos e epis\u00f3dios que me fizeram perceber que a passagem da Coluna pelo sert\u00e3o paraibano merecia uma investiga\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>A partir de Pombal, a pesquisa ganhou novos caminhos. Passei a acompanhar os deslocamentos dos diferentes destacamentos, as provid\u00eancias tomadas pelas autoridades e os epis\u00f3dios ocorridos nas localidades alcan\u00e7adas pela marcha.<\/p>\n<p>O livro acompanha a passagem da Coluna por S\u00e3o Jo\u00e3o do Rio do Peixe, Sousa, Pombal e Curema, at\u00e9 chegar a Pianc\u00f3. Em cada etapa, procurei olhar n\u00e3o apenas para os movimentos dos revolucion\u00e1rios, mas tamb\u00e9m para as for\u00e7as legalistas e para a popula\u00e7\u00e3o que viveu aqueles acontecimentos.<\/p>\n<p>A documenta\u00e7\u00e3o oficial mostra que o governo paraibano acompanhava com apreens\u00e3o o avan\u00e7o da Coluna. Telegramas e correspond\u00eancias registram o deslocamento das tropas, a organiza\u00e7\u00e3o da defesa e as dificuldades encontradas para enfrentar uma for\u00e7a militar experiente e em constante movimento.<\/p>\n<p>Em Pombal, essa movimenta\u00e7\u00e3o adquiriu caracter\u00edsticas pr\u00f3prias. A Coluna dividiu-se em diferentes eixos para contornar a resist\u00eancia organizada na cidade. O destacamento comandado por Jo\u00e3o Alberto tomou uma dire\u00e7\u00e3o distinta do grosso da tropa, passando pela regi\u00e3o de Malta e Patos. Essa estrat\u00e9gia permitiu preservar a mobilidade da Coluna e evitar uma concentra\u00e7\u00e3o diante das posi\u00e7\u00f5es defensivas pombalenses.<\/p>\n<p>Um dos epis\u00f3dios que mais chamaram minha aten\u00e7\u00e3o foi a pris\u00e3o do fazendeiro Manuel Queiroga. Capturado pelos revolucion\u00e1rios, ele passou a acompanhar a marcha como ref\u00e9m. Sua pris\u00e3o interferiu diretamente na estrat\u00e9gia das for\u00e7as legalistas, que ficaram limitadas pelo receio de que uma ofensiva pudesse colocar sua vida em risco. O pr\u00f3prio Jo\u00e3o Suassuna atribuiu posteriormente \u00e0 captura um papel importante no fracasso da estrat\u00e9gia de hostiliza\u00e7\u00e3o da Coluna.<\/p>\n<p>Curema me permitiu olhar a marcha por outro \u00e2ngulo.<\/p>\n<p>Ali, procurei reconstruir a hist\u00f3ria de Esa\u00fa Rodrigues dos Santos, de sua esposa Em\u00edlia, prima de minha av\u00f3, e dos filhos que estavam com a fam\u00edlia quando a vanguarda da Coluna chegou ao povoado, em 8 de fevereiro de 1926.<\/p>\n<p>A narrativa familiar me permitiu olhar para aquele epis\u00f3dio por uma perspectiva mais pr\u00f3xima, mostrando a dimens\u00e3o humana de uma campanha que muitas vezes aparece na historiografia concentrada nos comandantes, nos deslocamentos militares e nos combates.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Curema tamb\u00e9m me levou a um encontro entre mem\u00f3ria e documenta\u00e7\u00e3o. D\u00e9cadas depois dos acontecimentos, Ag\u00fa Rodrigues dos Santos entrevistou Lu\u00eds Carlos Prestes e procurou confrontar as lembran\u00e7as preservadas pela fam\u00edlia com o depoimento de um dos principais comandantes da Coluna. Esse encontro acrescentou outra perspectiva \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o do epis\u00f3dio.<\/p>\n<p>Pianc\u00f3 \u00e9, naturalmente, o ponto de maior concentra\u00e7\u00e3o da narrativa.<\/p>\n<p>Antes de chegar ao combate, procurei reconstruir o ambiente pol\u00edtico da cidade e a trajet\u00f3ria do padre Aristides Ferreira da Cruz. A resist\u00eancia organizada em fevereiro de 1926 n\u00e3o surgiu de maneira repentina. Pianc\u00f3 vivia um ambiente de forte polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, constru\u00eddo ao longo de anos de disputas locais.<\/p>\n<p>Depois, reconstru\u00ed o combate de 9 de fevereiro, a organiza\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia, a chegada da Coluna, o confronto, a derrota dos defensores e os acontecimentos posteriores \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o da vila.<\/p>\n<p>Os documentos utilizados registram tamb\u00e9m os preju\u00edzos materiais provocados pela passagem da Coluna. Em Pianc\u00f3, estabelecimentos comerciais foram saqueados, pr\u00e9dios p\u00fablicos foram incendiados e diversas resid\u00eancias sofreram danos. As perdas humanas foram ainda mais profundas.<\/p>\n<p>Mas, ao estudar Pianc\u00f3, percebi que o combate de 1926 era apenas uma parte da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A outra parte estava naquilo que aconteceu depois: a constru\u00e7\u00e3o das narrativas sobre a trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>A publica\u00e7\u00e3o de Os M\u00e1rtires de Pianc\u00f3 (1955), de Padre Manuel Otaviano de Moura Lima, abriu uma nova etapa na historiografia do epis\u00f3dio. A obra reuniu documentos e testemunhos e tornou-se uma refer\u00eancia para os estudos posteriores sobre a trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, antigos participantes e testemunhas passaram a responder \u00e0s vers\u00f5es apresentadas. Manuel Arruda, Jo\u00e3o C\u00e2ndido C\u00e2ncio, militares, jornalistas e outros personagens entraram no debate.<\/p>\n<p>Foi assim que uma nova batalha come\u00e7ou, desta vez no campo da mem\u00f3ria e da interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No cap\u00edtulo dedicado \u00e0s diferentes narrativas da Trag\u00e9dia de Pianc\u00f3, procurei colocar lado a lado os relatos de Tavares Cavalcanti, Jo\u00e3o Suassuna, Padre Manuel Otaviano, Manuel Arruda, Lu\u00eds Carlos Prestes, Jo\u00e3o Alberto, Louren\u00e7o Moreira Lima, Cordeiro de Farias e do historiador Evandro da N\u00f3brega.<\/p>\n<p>Esse talvez seja o ponto em que mais procurei exercer o papel de pesquisador, e n\u00e3o simplesmente de narrador.<\/p>\n<p>N\u00e3o me parece correto escolher uma vers\u00e3o apenas porque ela coincide com aquilo que j\u00e1 pensamos sobre determinado personagem ou acontecimento. As fontes precisam ser confrontadas.<\/p>\n<p>Um depoimento pode preservar uma informa\u00e7\u00e3o importante e, ao mesmo tempo, carregar a interpreta\u00e7\u00e3o de quem o produziu. Um relat\u00f3rio oficial pode trazer dados fundamentais e, simultaneamente, refletir a posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de quem o escreveu.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso da documenta\u00e7\u00e3o produzida pelo governo de Jo\u00e3o Suassuna. Sua Mensagem \u00e0 Assembleia Legislativa, de 1\u00ba de outubro de 1926, cont\u00e9m informa\u00e7\u00f5es detalhadas sobre a organiza\u00e7\u00e3o da defesa, os deslocamentos da Coluna, os combates e os preju\u00edzos registrados pelo governo.<\/p>\n<p>Esses documentos s\u00e3o fundamentais, mas precisam ser lidos dentro do contexto em que foram produzidos.<\/p>\n<p>Foi justamente essa preocupa\u00e7\u00e3o que procurei manter durante toda a pesquisa: n\u00e3o transformar automaticamente mem\u00f3ria em prova, nem documento oficial em verdade absoluta.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m procurei recuperar personagens que ficaram em segundo plano nas narrativas tradicionais. Entre eles est\u00e3o as mulheres que acompanharam a Coluna. O livro registra a presen\u00e7a das vivandeiras e de outras mulheres que participaram do cotidiano da marcha, algumas delas chegando a portar armas e a enfrentar os mesmos riscos dos combatentes.<\/p>\n<p>Procurei ainda observar os efeitos da marcha sobre a popula\u00e7\u00e3o sertaneja.<\/p>\n<p>Os documentos do governo registram requisi\u00e7\u00f5es de animais, alimentos, armas e outros recursos, al\u00e9m da destrui\u00e7\u00e3o de lavouras, cercas e currais. Tamb\u00e9m registram saques, inc\u00eandios, mortes, ferimentos, pris\u00f5es e deslocamentos de moradores.<\/p>\n<p>Esses registros n\u00e3o devem ser lidos sem cr\u00edtica, mas s\u00e3o importantes para compreender que a passagem da Coluna n\u00e3o foi apenas uma movimenta\u00e7\u00e3o militar. Ela interferiu diretamente na vida das pessoas que viviam nas regi\u00f5es atravessadas pela marcha.<\/p>\n<p>Ao terminar o livro, percebo que ele acabou sendo mais amplo do que imaginei quando comecei essa pesquisa.<\/p>\n<p>\u00c9 uma hist\u00f3ria da Coluna Prestes, mas \u00e9 tamb\u00e9m uma hist\u00f3ria da Para\u00edba de 1926.<\/p>\n<p>\u00c9 uma hist\u00f3ria de militares e revolucion\u00e1rios, mas tamb\u00e9m de pol\u00edticos, policiais, fazendeiros, comerciantes, mulheres, crian\u00e7as e fam\u00edlias sertanejas.<\/p>\n<p>\u00c9 uma hist\u00f3ria de combates, mas tamb\u00e9m de documentos.<\/p>\n<p>E \u00e9, sobretudo, uma hist\u00f3ria de vers\u00f5es.<\/p>\n<p>Hoje, depois de tantos anos de pesquisa, leitura, compara\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o, dou-me por satisfeito com o resultado.<\/p>\n<p>Tenho a sensa\u00e7\u00e3o de que consegui colocar no papel tudo aquilo que encontrei e que considerei relevante para compreender a passagem da Coluna Prestes pelo Estado da Para\u00edba.<\/p>\n<p>N\u00e3o significa que a hist\u00f3ria esteja encerrada. Nenhum trabalho hist\u00f3rico consegue estabelecer a \u00faltima palavra sobre um acontecimento. Novos documentos podem aparecer, novas pesquisas podem ser realizadas e outras interpreta\u00e7\u00f5es podem surgir.<\/p>\n<p>Mas isso pertence ao futuro.<\/p>\n<p>Quanto a este livro, considero que a pesquisa chegou ao seu ponto final. N\u00e3o vejo, neste momento, mais nada a acrescentar ao trabalho. Ele est\u00e1 pronto.<\/p>\n<p>Depois de quase tr\u00eas d\u00e9cadas, chegou a hora de deixar a pesquisa sair das minhas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Estou aguardando apenas os meus convidados, o apresentador e o respons\u00e1vel pelo pref\u00e1cio, para concluir essa etapa e encaminhar o material \u00e0 editora.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, o livro estar\u00e1 pronto para ser disponibilizado aos leitores.<\/p>\n<p>Durante muitos anos, A Marcha da Coluna Prestes pelo Estado da Para\u00edba: Combates, Documentos e Narrativas foi uma pesquisa que carreguei comigo. Agora, finalmente, ela poder\u00e1 seguir seu pr\u00f3prio caminho.<\/p>\n<p>Espero que o livro contribua para ampliar o conhecimento sobre aqueles dias de fevereiro de 1926 e, principalmente, que estimule novas pesquisas.<\/p>\n<p>Porque, depois de quase trinta anos procurando documentos sobre a passagem da Coluna Prestes pela Para\u00edba, aprendi uma coisa que talvez seja pr\u00f3pria de todo pesquisador de hist\u00f3ria: quanto mais fontes encontramos, mais percebemos o quanto ainda existe para investigar.<\/p>\n<p>Mas, desta vez, a pesquisa pode esperar.<\/p>\n<p>O livro est\u00e1 pronto para ir ao prelo.<\/p>\n<p># Jos\u00e9 Tavares \u00e9 escritor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Tavares de Ara\u00fajo Neto Hoje, ao concluir a leitura e a revis\u00e3o de A Marcha da Coluna Prestes pelo Estado da Para\u00edba: Combates, Documentos e Narrativas, sinto que cheguei ao ponto em que precisava chegar. 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