{"id":3738,"date":"2026-11-04T10:24:16","date_gmt":"2026-11-04T13:24:16","guid":{"rendered":"https:\/\/blogdojoaocosta.com.br\/?p=3738"},"modified":"2026-11-04T10:24:16","modified_gmt":"2026-11-04T13:24:16","slug":"ze-limeira-e-a-invencao-de-um-poeta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogdojoaocosta.com.br\/?p=3738","title":{"rendered":"Z\u00e9 Limeira e a inven\u00e7\u00e3o de um poeta"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Jos\u00e9 Tavares de Ara\u00fajo Neto<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Poucos personagens da cultura popular nordestina despertam tanta curiosidade quanto Z\u00e9 Limeira, conhecido como o Poeta do Absurdo. Sua hist\u00f3ria re\u00fane realidade, mem\u00f3ria oral, humor e cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Mas, para compreender quem foi esse sujeito que entrou para o imagin\u00e1rio da poesia popular brasileira, \u00e9 preciso separar o homem do personagem constru\u00eddo em torno de seu nome.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Limeira nasceu em 1886, no s\u00edtio Tau\u00e1, munic\u00edpio de Teixeira, no sert\u00e3o paraibano. Sua trajet\u00f3ria, entretanto, est\u00e1 longe da figura extraordin\u00e1ria que se tornou conhecida por meio dos versos publicados por Orlando Tejo.<\/p>\n<p>Orlando Tejo, escritor, jornalista e folclorista paraibano, publicou Z\u00e9 Limeira, o Poeta do Absurdo (1973), obra que transformou aquele homem de exist\u00eancia modesta numa das figuras mais extraordin\u00e1rias da poesia popular nordestina. Foi a partir de suas narrativas que Z\u00e9 Limeira passou a ser conhecido por versos desconcertantes, imagens imposs\u00edveis, situa\u00e7\u00f5es absurdas e rimas que pareciam n\u00e3o obedecer \u00e0s regras da realidade.<\/p>\n<p>A poesia atribu\u00edda a Z\u00e9 Limeira apresenta caracter\u00edsticas que permitem uma aproxima\u00e7\u00e3o com a est\u00e9tica surrealista. O nonsense, o humor, as associa\u00e7\u00f5es inesperadas e as imagens desconcertantes rompem com a l\u00f3gica cotidiana e criam situa\u00e7\u00f5es em que o absurdo ganha vida pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de Tejo, entretanto, n\u00e3o deve ser confundida com um registro documental da produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica de um repentista. Boa parte dos poemas atribu\u00eddos a Z\u00e9 Limeira teria sido criada pelo pr\u00f3prio escritor e por outros poetas que frequentavam os ambientes bo\u00eamios e culturais de Campina Grande.<\/p>\n<p>Essa tese foi defendida por Br\u00e1ulio Tavares, escritor, compositor e pesquisador da cultura popular e amigo de Tejo. Em entrevista ao suplemento Correio das Artes, do jornal A Uni\u00e3o, em julho de 2018, ele destacou o papel de Orlando Tejo na consolida\u00e7\u00e3o da lenda e na constru\u00e7\u00e3o do personagem. Observou, ainda, que versos de outros cantadores acabaram incorporados ao repert\u00f3rio atribu\u00eddo a Z\u00e9 Limeira.<\/p>\n<p>Um testemunho particularmente interessante \u00e9 o do repentista pombalense Belarmino de Fran\u00e7a. Ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o do livro de Orlando Tejo e a populariza\u00e7\u00e3o do personagem, Belarmino revelou que conhecera Z\u00e9 Limeira e convivera com ele durante a constru\u00e7\u00e3o do a\u00e7ude de Bodocong\u00f3, em Campina Grande, em meados da d\u00e9cada de 1910. Na \u00e9poca, Belarmino trabalhava como apontador, enquanto Limeira era oper\u00e1rio bra\u00e7al.<\/p>\n<p>Ao recordar aquele per\u00edodo, Belarmino descreveu Limeira como um homem negro, analfabeto de pai e m\u00e3e e de poucos recursos po\u00e9ticos. Na sua avalia\u00e7\u00e3o, era um poeta muito ruim, que pouco sabia de cantoria e despertava pouco interesse dos outros repentistas para uma peleja. Segundo sua lembran\u00e7a, quando algu\u00e9m queria se referir a um poeta de qualidade duvidosa, dizia simplesmente que era um Z\u00e9 Limeira. Seu nome teria se transformado, assim, numa express\u00e3o para identificar quem n\u00e3o tinha talento para o repente.<\/p>\n<p>Belarmino tamb\u00e9m recordava uma caracter\u00edstica que chamava a aten\u00e7\u00e3o. A viola de Z\u00e9 Limeira tinha as cordas frouxas, desafinadas e era bastante enfeitada com fitas coloridas. A apar\u00eancia do instrumento parecia muito mais impressionante do que a habilidade de seu dono para produzir versos.<\/p>\n<p>Outro testemunho importante veio de Lourival Batista, o lend\u00e1rio Louro do Paje\u00fa, um dos grandes nomes da cantoria nordestina. Em depoimento publicado em 1976, ele afirmou ter cantado com Z\u00e9 Limeira e confirmou que o conhecia pessoalmente. Ao mesmo tempo, contestou a autoria de grande parte dos versos publicados no livro de Orlando Tejo.<\/p>\n<p>A influ\u00eancia de Z\u00e9 Limeira ultrapassou as fronteiras da cantoria e alcan\u00e7ou diferentes gera\u00e7\u00f5es da m\u00fasica popular brasileira. Belchior incorporou \u00e0 can\u00e7\u00e3o Sujeito de Sorte o conhecido verso atribu\u00eddo ao poeta, &#8220;Ano passado eu morri, mas esse ano eu n\u00e3o morro&#8221;, posteriormente retomado por Emicida na m\u00fasica AmarElo, com as vozes de Pabllo Vittar e Majur.<\/p>\n<h2>Z\u00e9 Ramalho tamb\u00e9m bebeu na fonte de Limeira<\/h2>\n<p>Z\u00e9 Ramalho tamb\u00e9m estabeleceu uma rela\u00e7\u00e3o direta com esse universo, compondo Vis\u00f5es de Z\u00e9 Limeira sobre o final do s\u00e9culo XX e participando da constru\u00e7\u00e3o de uma peleja imagin\u00e1ria com o poeta. Alceu Valen\u00e7a e Ave Sangria s\u00e3o outros nomes que dialogaram com a irrever\u00eancia e a imagina\u00e7\u00e3o limeirianas.<\/p>\n<p>Mestre Ambr\u00f3sio chegou a dedicar-lhe a can\u00e7\u00e3o Se Z\u00e9 Limeira Sambasse Maracatu, enquanto o Quinteto Violado aproveitou uma de suas palavras inventadas para batizar o disco Pilogamia do Bai\u00e3o. As Bastianas, banda paraibana, tamb\u00e9m fizeram refer\u00eancia ao poeta na m\u00fasica Z\u00e9 Limeira.com.<\/p>\n<p>Um estudo de Pedro Ara\u00fajo Oliveira, publicado em 2022, examinou justamente a presen\u00e7a de Z\u00e9 Limeira no imagin\u00e1rio do cancioneiro brasileiro e as rela\u00e7\u00f5es entre a cultura oral e a produ\u00e7\u00e3o musical de compositores.<\/p>\n<p>O mais interessante nessa hist\u00f3ria \u00e9 perceber como um homem que, segundo a lembran\u00e7a de Belarmino de Fran\u00e7a, n\u00e3o tinha grande habilidade como repentista acabou transformado numa refer\u00eancia da poesia popular brasileira.<\/p>\n<p>Orlando Tejo encontrou naquele personagem uma mat\u00e9ria-prima extraordin\u00e1ria para a cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Deu-lhe versos, aventuras, caracter\u00edsticas e uma personalidade que ultrapassaram qualquer registro biogr\u00e1fico convencional.<\/p>\n<p>O que Orlando Tejo fez foi transformar uma figura da vida real numa personagem de dimens\u00e3o m\u00edtica.<\/p>\n<p>E talvez esteja a\u00ed a maior ironia dessa hist\u00f3ria. Um homem lembrado por alguns de seus contempor\u00e2neos como um cantador sem grandes qualidades po\u00e9ticas acabou se tornando, pela pena de um escritor, um dos poetas mais conhecidos e irreverentes da cultura nordestina.<\/p>\n<p># Jos\u00e9 Tavares \u00e9 escritor e historiador.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Tavares de Ara\u00fajo Neto Poucos personagens da cultura popular nordestina despertam tanta curiosidade quanto Z\u00e9 Limeira, conhecido como o Poeta do Absurdo. Sua hist\u00f3ria re\u00fane realidade, mem\u00f3ria oral, humor e cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. 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