Erich von Däniken, a morte de um provocador e as perguntas que ficaram
Por José Tavares de Araújo Neto
Morreu o escritor suíço Erich von Däniken. Com ele, fecha-se um capítulo curioso e ruidoso da história das ideias, aquele em que a imaginação, o fascínio pelo mistério e a ânsia por explicações grandiosas se misturaram em doses generosas.
Autor de “Eram os Deuses Astronautas?”, Däniken partiu deixando um legado controverso, discutido, combatido, mas inegavelmente influente.
Däniken foi o grande popularizador da teoria dos Antigos Astronautas, segundo a qual a Terra teria sido visitada, em tempos remotos, por seres de outros mundos.
Esses visitantes, dotados de tecnologia avançada, teriam sido confundidos com deuses pelos povos antigos e, segundo o autor, influenciado diretamente o desenvolvimento das civilizações humanas.
Pirâmides, linhas de Nazca, moais da Ilha de Páscoa, templos e mitologias passaram, em seus livros, a ser lidos como vestígios de um passado interplanetário.
Eram os Deuses Astronautas?, lançado em 1968, caiu como uma bomba cultural. Era o ano em que a humanidade se preparava para pisar na Lua. O céu deixava de ser apenas o território dos deuses e passava a ser também o espaço do homem.
O livro encontrou um público sedento por mistério, por transcendência e por explicações que fugissem do lugar comum. Vendeu milhões de exemplares, foi traduzido em dezenas de idiomas e moldou o imaginário de gerações.
Entre essas gerações, estava eu. Na adolescência, aquele livro foi um dos que mais me impressionaram. Li com assombro, com encantamento e, confesso, com uma ponta de deslumbramento.
A ideia de que seres vindos de longe teriam erguido pirâmides, desenhado o deserto e semeado civilizações parecia abrir uma fresta mágica na aridez do mundo. Era como se o universo, de repente, estivesse muito mais próximo e muito mais interessado em nós.
Hoje, não alimento mais essa possibilidade. Não acredito que seres interplanetários tenham construído obras faraônicas, nem que a Terra tenha sido visitada por alienígenas em tempos antigos. A maturidade, o estudo, o contato mais profundo com a história, a arqueologia e a capacidade humana de criar, organizar e sonhar me levaram por outro caminho. Aprendi a admirar ainda mais as civilizações antigas quando compreendi que elas foram capazes de tais feitos por engenho próprio, por inteligência coletiva, por fé, por trabalho e por persistência.
Nesse sentido, Däniken perdeu a batalha científica, mas talvez tenha vencido outra. Ele nos ensinou a perguntar. Provocou inquietação. Desestabilizou certezas fáceis. Levou muita gente, como eu, a olhar para as pirâmides, para os mitos e para as ruínas com curiosidade renovada. Mesmo quando suas respostas não se sustentam, as perguntas continuam fecundas.

A ciência foi dura com ele, e com razão. Suas teorias foram classificadas como pseudocientíficas, suas interpretações como forçadas, seus argumentos como frágeis. O próprio Däniken, com o tempo, admitiu erros factuais e falta de rigor em sua obra inicial. Ainda assim, nunca abandonou a crença central de que não estamos sós no universo.
Sua morte, em 10 de janeiro de 2026, não apaga sua influência. Apenas a recoloca no devido lugar da história. Erich von Däniken não foi um cientista, nem um historiador rigoroso. Foi um provocador de imaginações, um agitador de certezas, um autor que, para o bem e para o mal, marcou época.
Guardo dele não a crença, mas a lembrança. A lembrança daquele adolescente que, com o livro nas mãos, sonhava com deuses astronautas, naves antigas e segredos enterrados na areia do tempo.
Hoje, prefiro a beleza ainda mais extraordinária de saber que fomos nós, humanos, com nossas limitações e grandezas, que erguemos pirâmides, desenhamos desertos e inventamos deuses.
E isso, para mim, é muito mais impressionante do que qualquer visita vinda das estrelas.
# José Tavares é escritor e historiaodor
