“No Brasil o fundo do poço é apenas uma etapa.” — Luis Fernando Veríssimo

José Tavares de Araújo Neto

Dizem que o Brasil é um país abençoado por Deus e bonito por natureza. Mas, ao que parece, a Providência, ao descer por estas paragens, desenvolveu um certo gosto por cenários tropicais improváveis. Enquanto em outras terras o sagrado se manifesta em desertos austeros ou montanhas nevadas, por aqui Ele prefere um pé de goiaba e, mais recentemente, um equipamento eletrônico fornecido pelo sistema penitenciário. Cada qual com seus sacrários.

Tudo começou com a célebre goiabeira. A jovem Damares, em momento de dor profunda, sobe ao galho e vê Jesus. Nada de túnica alva flutuando sobre as águas ou luzes celestiais; apenas o Nazareno, adaptado aos tempos modernos, exercitando um equilíbrio digno de circo. A preocupação de que Ele pudesse cair convenceu a menina a permanecer entre os vivos. E assim, o que era tragédia íntima transformou-se em alegoria pública. O país, sempre ávido por símbolos, converteu o episódio em bandeira política. Questionar o Cristo arborícola tornou-se, para alguns, sinal de intolerância religiosa. O meme virou dogma, e a dor, material de palanque.

Mas a fé é criativa, e os milagres nacionais não se repetem — evoluem. Surge então Michelle Bolsonaro, irrompendo em “línguas estranhas” durante a comemoração da aprovação de André Mendonça ao STF. O público, dividido, tentou decifrar: seria comunicação direta com o Altíssimo ou apenas mais um idioma oficial do governo, já tão distante da compreensão do cidadão comum? Teólogos apressaram-se em defender o “dom de línguas”; críticos enxergaram cálculo político. Talvez ambos tenham razão. Afinal, se o discurso oficial parecia um dialeto hermético, nada mais natural que sua intérprete celestial recorresse a uma linguagem igualmente inacessível.

Mas o verdadeiro prodígio estava reservado ao Messias — o de carne, osso e boletins médicos. Jair Bolsonaro, protagonista involuntário de um episódio tecnológico-espiritual, foi flagrado admitindo que aplicara um ferro de solda à tornozeleira eletrônica. “Curiosidade”, explicou, com a candura de quem desmonta um relógio antigo para descobrir onde o tempo se esconde. Pouco depois, em versão mais dramática, o ex-presidente declarou ter ouvido vozes vindas do aparelho, persuadido de que havia ali uma escuta. Não estatal: metafísica. A culpa recaiu, elegantemente, sobre a interação medicamentosa — um surto químico com tintas sobrenaturais.

O detalhe pitoresco: tudo ocorreu logo após seu filho, Flávio Bolsonaro, convocar uma vigília religiosa em frente à residência familiar. Coincidência tão conveniente que faria Jesus descer da goiabeira apenas para tomar nota. O desfecho, contudo, careceu de transcendência: prisão preventiva decretada por Alexandre de Moraes. Milagre às avessas.

No final das contas, talvez um analista político tenha captado o espírito do tempo ao observar que, em um país onde o diabo e as fake news disputam protagonismo, “o diabo estará subindo em nossas goiabeiras”. Pois agora, além de subir, ele instala antena, tenta captar frequência celestial e envia mensagens por meio de tornozeleira.

E assim seguimos, plateia fiel desse teatro teopolítico tropical, onde o extraordinário se banaliza, o banal se sacraliza, e cada objeto cotidiano — uma árvore, um idioma incompreensível, um dispositivo judicial — pode, de repente, assumir funções litúrgicas.

No palco Brasil, o sagrado e o ridículo raramente se anulam. Frequentemente, coexistem como macacos no mesmo galho.

E nós, espectadores atentos, aguardamos o próximo ato. Quem sabe o dia em que a goiabeira dará frutos de verdade. Ou, ao menos, sinal estável — não necessariamente de Wi-Fi, mas de lucidez pública.

José Tavares é escritor

One thought on “Caso da Tornozeleira Eletrônica Que Sussurrou Línguas Estranhas”
  1. TEOCRACIA BOZOLOIDES ADESTRADOS – E conhecereis as mentiras e a verdade então se revelará. Uma bestialidade e vários abestados. Uma banda de biltres e malucos e outra de degenerados sem cura.
    ORTODOXIA NÃO RESOLVE ESSA MIZERA.
    O TRUNFO É ♣️.

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