O blog reproduz, a seguir, artigo do jornalista Paulo Goethe para o site Movimento Econômico demonstrando o quanto a parceria do Brasil com a China está promovendo uma revolução econômica na Agricultura Familiar no Nordeste.
O que levava dois meses de trabalho manual em Apodi, no sertão do Rio Grande do Norte, passou a ser feito em uma semana. Nos últimos dois anos, 62 máquinas agrícolas chinesas, entre tratores, semeadeiras, colheitadeiras e drones, foram testadas, ajustadas e adaptadas às condições do semiárido nordestino por estudantes chineses e agricultores locais trabalhando lado a lado. A renda das famílias quase dobrou. Em Russas (CE), 42 famílias viram a produtividade do milho subir 40% com metade das sementes. Em Itapecuru Mirim (MA), uma colheita de arroz que exigia até 25 dias de trabalho manual passou a ser concluída em oito horas. O ponto de partida foi o diagnóstico da professora Yang Minli, da Universidade Agrícola da China (UAC): apenas 0,2% dos agricultores familiares nordestinos usam equipamentos avançados, numa região que concentra 55% de todos os agricultores familiares do Brasil e 38% de toda a população rural do país, segundo o IBGE.
Essa presença chinesa no campo nordestino tem nome e formato definidos: a Residência Tecnológica de Mecanização da Agricultura Familiar Brasil-China (RCT-MAF), programa binacional com estrutura formal desde 2022, quando o Consórcio Nordeste assinou memorando de entendimento com o Instituto Internacional de Inovação de Equipamentos Agrícolas da UAC e a Associação de Fabricantes de Máquinas Agrícolas da China, com participação da Baobab Associação Internacional para a Cooperação Popular.
Programa encerro seu primeiro ciclo
O programa acaba de encerrar seu primeiro ciclo operacional completo: neste mês de abril, o quinto grupo de estudantes concluiu a estadia em campo e uma nova turma partiu da China para dar continuidade aos trabalhos. A Residência Tecnológica Brasil-China instala estudantes de pós-graduação diretamente nas propriedades rurais do Nordeste para testar, adaptar e validar maquinário agrícola às condições do semiárido, um modelo inédito na América Latina que avança para laboratório conjunto de inteligência artificial e fábrica de tratores no Brasil.
As primeiras 31 máquinas, entre tratores, semeadeiras, colheitadeiras de arroz e drones agrícolas, chegaram ao Brasil entre novembro e dezembro de 2023, distribuídas entre assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e dos Sindicatos dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais nos estados do Ceará, Maranhão, Paraíba e Rio Grande do Norte.
Em fevereiro de 2024, foi inaugurada a Unidade Demonstrativa em Apodi, a primeira residência tecnológica do tipo na América Latina, segundo a professora Yang Minli, e base operacional do programa. O município foi escolhido por reunir quatro tipos distintos de solo, o que amplia o espectro de validação dos equipamentos.
Agricultores como pesquisadores
A metodologia do programa segue o modelo de pesquisa-ação: pesquisadores da UAC e das instituições brasileiras parceiras, a Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), a Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA), o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN) e a Secretaria Estadual de Desenvolvimento Rural e Agricultura Familiar do RN (Sedraf), aplicam critérios técnicos de avaliação de desempenho enquanto os agricultores recebem instrução para manuseio e participam ativamente das reuniões de validação.

A coordenação geral é do professor Vinícius Claudino de Sá, da UERN, e a coordenação de pesquisas cabe ao professor Lima Júnior, também da UERN, que realizou treinamento na China com foco em aspectos técnicos dos equipamentos, tratamento de alimentos pós-colheita e uso de sensores e aprendizado de máquina aplicados à produção. O professor Hugo Manso, do IFRN, destacou que a troca de conhecimentos agrícolas entre os dois países eleva o nível tecnológico brasileiro e aprofunda a cooperação acadêmica bilateral.
A avaliação técnica identificou, no entanto, que nenhuma das máquinas testadas estava plenamente adequada à Norma Regulamentadora-12 (NR-12) da legislação brasileira: o relatório do Consórcio Nordeste em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) registrou ausência de manuais de instrução em português, proteções inadequadas em partes móveis, aspectos ergonômicos a corrigir e necessidade de sistemas de partida elétrica mais práticos.
“O centro de pesquisa e este período de adaptação servem justamente para avaliarmos essas questões das necessidades de adequação das máquinas ao biotipo brasileiro, ao modo de produção e à nossa legislação de segurança”, explicou Alexandre Lima, coordenador da Câmara Temática de Agricultura Familiar do Consórcio Nordeste.
Testes em campo e menos esforço físico
Até abril de 2026, cinco grupos de estudantes de doutorado e mestrado da UAC completaram ciclos de três a quatro meses em campo, totalizando 15 sessões de treinamento técnico e quase 2 mil famílias beneficiadas, segundo balanço divulgado pela agência de notícias chinesa Xinhua. Ivone Brilhante, presidenta do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Apodi, relatou que os resultados já são visíveis na produção de arroz vermelho, hortaliças e frutas, com redução do esforço físico e aumento do tempo disponível para produzir.

A empresa Chongqing Xinyuan Agricultural Machinery Co., Ltd., com foco em maquinário para áreas de topografia irregular, testou seus equipamentos com agricultores brasileiros por um ano, registrou aumento de produtividade de quase 60% e prevê novo lote de envio. As exportações de frutas de Apodi, entre manga, mamão e melancia, com destino à Europa e ao Oriente Médio, devem crescer 15% na temporada atual, segundo a associação agrícola local. O programa tem foco explícito na inclusão de mulheres: segundo Jaleska Lima, técnica do Centro Feminista 8 de Março (CF8), de Mossoró (RN), as capacitações realizadas têm mostrado às agricultoras que elas também podem manusear e montar as máquinas.
No Maranhão, o assentamento Cristina Alves, em Itapecuru Mirim, a 115 km de São Luís, registrou em 29 de abril de 2024 a primeira colheita mecanizada de arroz com equipamentos chineses no Nordeste, operada pela Cooperativa Mista das Áreas de Reforma Agrária do Vale do Itapecuru (COOPEVI). Produtores que gastavam até 25 dias para colher um hectare de arroz passaram a concluir a operação em oito horas, segundo o relatório do Consórcio Nordeste em parceria com o PNUD. Além de Itapecuru Mirim, o segundo assentamento maranhense contemplado é o Diamante Negro/Jutaí, em Igarapé do Meio.
Expansão para a UnB e compromisso de Estado
Em novembro de 2024, durante a visita do presidente chinês Xi Jinping ao Brasil, os dois chefes de Estado formalizaram a criação do Laboratório Conjunto China-Brasil de Inteligência Artificial para Mecanização Agrícola Familiar. Em 27 de novembro, a Residência Tecnológica foi inaugurada na Universidade de Brasília (UnB) com a presença do ministro da Educação da China, Huai Jinpeng, no “Fórum Brasil-China: Marcos para uma nova fase de cooperação para o desenvolvimento compartilhado”, organizado pela UnB e o Instituto Taihe e patrocinado pela Fundação Banco do Brasil.
O evento recebeu oficialmente 70 máquinas e equipamentos chineses destinados à Fazenda Água Limpa da UnB e a assentamentos da reforma agrária do Distrito Federal. A reitora da UnB, Rozana Naves, anunciou a instalação de um centro de big data voltado a otimizar e adaptar os equipamentos ao território brasileiro.
Em maio de 2025, o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) e o Ministério da Agricultura e dos Assuntos Rurais da China (MARA) assinaram Memorando de Entendimento prevendo o fornecimento, pelo lado chinês, de máquinas agrícolas, plataformas digitais de gestão e especialistas técnicos, enquanto o Brasil disponibilizará espaços, instalações e apoio à entrada de produtos chineses para pesquisa e desenvolvimento.
O então ministro do do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, formalizou incentivos adicionais: isenção tarifária por até 12 meses para bens de capital e equipamentos de tecnologia importados por empresas chinesas que invistam no Brasil, subsídios e crédito a juros baixos para aquisição de máquinas de pequena escala, com suporte do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), do Fundo de Investimento para Cooperação Industrial na América Latina da China (CLAIFUND) e do Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS. A China é o maior comprador de produtos agrícolas brasileiros, com importações que chegaram a US$ 49 bilhões em 2024.
Fonte: Movimento Econômico (Artigo de Paulo Goethe)
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