O massacre dos Pegas e a instalação do primeiro núcleo de colonização do sertão paraibano.
José Tavares de Araújo Neto
As três principais datas cívicas de Pombal são frequentemente motivo de equívocos. Por isso, conforme observa o memorialista Verneck Abrantes de Sousa, mesmo quando abordadas separadamente, é necessário estabelecer a devida distinção entre cada uma delas.
O dia 27 de julho de 1698 marca a fundação do Arraial de Nossa Senhora do Bom Sucesso do Piancó, primeiro núcleo de colonização do sertão paraibano; o dia 4 de maio de 1772, sua elevação à categoria de vila e a conquista da autonomia político-administrativa; e o dia 21 de julho de 1862, sua elevação à categoria de cidade.
Como já destacado, em 27 de julho de 2026 completam-se 328 anos da fundação do Arraial de Nossa Senhora do Bom Sucesso do Piancó, denominação original da atual cidade de Pombal.
Esse acontecimento assinala o início da colonização do alto sertão paraibano e de parte do atual Seridó norte-rio-grandense. É esse episódio histórico que será tratado a seguir.
A ocupação dos sertões do Piancó e das Piranhas integrou a política da Coroa portuguesa de interiorização da pecuária no final do século XVII. Para isso, avançou sobre terras tradicionalmente ocupadas por diversos povos indígenas, entre eles Pegas, Coremas, Ariús, Panatis, Icós e Janduís.
Em janeiro de 1698, a serviço do governo da Capitania da Paraíba, Teodósio de Oliveira Ledo partiu para comandar uma expedição militar encarregada de abrir caminho à fixação de criadores de gado nos sertões.
Após cerca de três meses percorrendo o interior, no início de abril, instalou-se provisoriamente às margens do rio Piancó, no lugar que denominou Arraial do Pau Ferrado. Dali, a tropa desceu pelo leito do rio até alcançar a aldeia dos Pegas, também situada às margens do rio Piancó.
Conforme registrou Teodósio de Oliveira Ledo em sua carta de 6 de agosto de 1698, a tropa atacou a aldeia dos Pegas na madrugada de 19 de julho daquele ano, dia dedicado a Santa Justa e Santa Rufina, duas mártires cristãs. Na mesma data em que a tradição cristã reverenciava seu martírio, consumava-se um dos muitos massacres de indígenas durante a chamada Guerra dos Bárbaros, um dos capítulos mais violentos da colonização do Nordeste brasileiro.
Ironicamente, Teodósio atribuiu o êxito da expedição à intervenção de Nossa Senhora do Bom Sucesso e, em forma de agradecimento, deu seu nome ao arraial fundado poucos dias depois.
Na mesma carta, registrou que o confronto resultou em 32 indígenas mortos, 72 capturados e muitos feridos. Relatou ainda que parte dos prisioneiros foi executada por sua ordem, por serem considerados “incapazes”. O documento constitui um dos mais tristes testemunhos da violência que acompanhou a ocupação colonial do alto sertão paraibano.
Se a Carta de Pero Vaz de Caminha inaugurou o relato escrito da descoberta do Brasil, a de Teodósio de Oliveira Ledo inaugura a narrativa documental da formação de Pombal. Enquanto Caminha descreveu uma terra de encantamento e possibilidades, Teodósio registrou a violência que marcou a ocupação do alto sertão paraibano.
Oito dias depois, em 27 de julho de 1698, Teodósio retornou ao local da campanha e estabeleceu o Arraial de Nossa Senhora do Bom Sucesso do Piancó. Às margens do rio Piancó, o novo arraial tornou-se ponto de apoio para a distribuição de sesmarias, a instalação de currais de gado, a abertura de caminhos e a fixação de colonos, irradiando a presença portuguesa por vasta região do interior.
O êxito da expedição foi comunicado ao rei de Portugal pelo governador Manoel Soares de Albergaria, que defendeu a criação de novas povoações e currais, fortalecendo a presença da Coroa nos sertões do Piancó e das Piranhas.
Do Arraial de Nossa Senhora do Bom Sucesso do Piancó surgiriam, décadas depois, a Vila Nova de Pombal e, posteriormente, a atual cidade de Pombal, cuja influência alcançaria boa parte do alto sertão paraibano e do atual Seridó norte-rio-grandense.
Ao celebrar os 328 anos da fundação do Arraial de Nossa Senhora do Bom Sucesso do Piancó, também reverenciamos a memória daqueles que primeiro habitaram esta terra.
Os verdadeiros donos da terra, chamados pelos invasores de “tapuias” ou “bárbaros”, resistiram bravamente, enquanto puderam, à invasão de seus territórios, à expansão da pecuária, à expropriação de suas terras e à escravização de suas populações.
Celebrar a fundação de Pombal não significa ignorar esse passado, mas reconhecê-lo em toda a sua complexidade. A memória de uma cidade torna-se mais digna quando também preserva a lembrança daqueles que pagaram o preço da sua formação.
Que nunca esqueçamos que a cidade de Pombal foi erguida sobre o sangue de homens, mulheres e crianças que primeiro habitaram esta terra. Que sua memória jamais seja esquecida e seja reverenciada, a cada 27 de julho, como parte indissociável da história de Pombal.
# José Tavares é escritor e Historiador.
