José Tavares de Araújo Neto
Em um certo dia de 1996, caminhando pelo centro de Pombal, deparei-me com um grupo de homens em animada conversa sobre a Coluna Prestes. Aproximei-me e logo constatei que se tratava de pesquisadores que percorriam a Paraíba mapeando os lugares por onde a Coluna havia passado em 1926.
Intrigado, perguntei: “E o que Pombal tem a ver com essa história?” A resposta me surpreendeu. Disseram-me que o município integrara a rota da Coluna Prestes e que o comando-geral dos revolucionários havia pernoitado aqui. Citaram nomes como Miguel Costa, Luís Carlos Prestes e Juarez Távora.
Fiquei estupefato. Justamente eu, que tinha fama de conhecer bem a história de minha terra, desconhecia que a Coluna Prestes havia passado por meu município e ignorava que alguns dos principais protagonistas de um dos episódios mais marcantes da história do Brasil haviam estado aqui. Naquele mesmo dia surgiu mais um tema para povoar o arraial de minhas inquietações.
Os anos passaram, mas aquela conversa ficou gravada em minha memória. A curiosidade transformou-se em pesquisa. Passei a reunir jornais publicados durante a campanha de 1926, mensagens governamentais, telegramas, relatórios oficiais, documentos militares, livros de memórias e estudos produzidos por diferentes autores. A cada nova fonte consultada, ampliava minha compreensão sobre a campanha e descobria episódios pouco explorados pela historiografia.
Com o material reunido, percebi que era possível reconstruir essa história por meio do confronto entre diferentes versões dos acontecimentos.
Havia algum tempo que eu pensava em organizar esse trabalho em forma de livro. Incentivado por amigos pesquisadores, resolvi publicar o resultado dessa pesquisa justamente no ano do centenário da passagem da Coluna Prestes pela Paraíba.
Com o título provisório *A Coluna Prestes no Estado da Paraíba: Combates, Documentos e Narrativas*, a obra tem por objetivo reconstituir a campanha em território paraibano, acompanhando os acontecimentos em ordem cronológica e fundamentando o texto no confronto entre jornais da época, documentos oficiais, mensagens governamentais, telegramas, memórias de participantes e estudos historiográficos.
Narrativa em dez capítulos
O livro está organizado em dez capítulos. O primeiro apresenta o contexto político da Primeira República, o movimento tenentista e a formação da Coluna Miguel Costa-Prestes. O segundo examina a reação do governo paraibano diante da aproximação dos revolucionários, a mobilização da Polícia Militar e a organização da defesa do Estado. O terceiro acompanha a entrada da Coluna em território paraibano e o início das operações militares.
O quarto capítulo é dedicado à passagem da Coluna Prestes pelo município de Pombal. A narrativa reconstrói os acontecimentos ocorridos durante a passagem dos revolucionários pela cidade, a captura do tenente Manuel Benício e do fazendeiro Manuel Queiroga, conhecido como Major Nô Queiroga, e a continuação da marcha em direção ao Vale do Piancó. Também examina a repercussão desses fatos na imprensa da época e sua importância para a compreensão da campanha em território paraibano.
O quinto capítulo reconstrói o combate de Boqueirão de Curema, examinando a organização da resistência, o desenvolvimento da ação militar e seus resultados. Também analisa a atuação das forças legalistas e dos revolucionários com base nos relatos produzidos durante e após a campanha.
O sexto capítulo aborda os preparativos para a defesa de Piancó, destacando a atuação de Padre Aristides Ferreira da Cruz, Manuel Arruda e das demais lideranças locais. O sétimo apresenta uma reconstituição cronológica do combate de 9 de fevereiro de 1926, desde a chegada da Coluna até a morte de Padre Aristides, do prefeito João Lacerda Moreira e de outros integrantes da resistência.
Os capítulos oitavo e nono concentram-se na construção da memória histórica da Tragédia de Piancó. O oitavo analisa a publicação de Os Mártires de Piancó, de Padre Manuel Otaviano de Moura Lima, a recepção da obra e a controvérsia iniciada em 1955, que mobilizou militares, políticos, jornalistas, intelectuais e testemunhas dos acontecimentos. O nono reúne e compara as principais versões produzidas sobre o combate, examinando os relatos de Manuel Arruda, Padre Manuel Otaviano, João Alberto Lins de Barros, Lourenço Moreira Lima, Cordeiro de Farias, Luís Carlos Prestes e outros participantes da campanha.
O décimo capítulo examina o legado da passagem da Coluna Prestes pela Paraíba. Analisa a saída dos revolucionários do Estado, as repercussões políticas e sociais da campanha, a preservação da memória da Tragédia de Piancó e a evolução dos estudos dedicados ao tema ao longo do último século.
Ao escrever esta obra, procurei trabalhar diretamente com as fontes produzidas na época dos acontecimentos. Sempre que possível, confrontei jornais, telegramas, mensagens oficiais, documentos administrativos, memórias e depoimentos para construir um relato apoiado na documentação disponível. Esse procedimento permitiu esclarecer episódios, identificar divergências entre testemunhos e reunir informações dispersas em diferentes acervos.
Espero que esta obra contribua para ampliar o conhecimento sobre a passagem da Coluna Prestes pela Paraíba e estimule novas pesquisas sobre esse importante episódio da história do Brasil. É o resultado dessa pesquisa que iremos entregar aos leitores interessados em nossa história.
# José Tavares é escritor e historiador.
