José Tavares de Araújo Neto

Quando chega a Festa do Rosário, a cidade de Pombal parece reencontrar um pouco de si mesma.

É tempo de reencontro. Reencontro com os amigos que partiram, com os familiares que moram longe, com as ruas da infância e com as histórias que o tempo não conseguiu apagar. É como se, durante alguns dias, a cidade abrisse as portas da memória e convidasse seus filhos a voltar.

Para nós, pombalenses, a Festa do Rosário não é apenas uma celebração que se repete todos os anos. É também um momento de voltar ao passado, rever pessoas, recordar histórias e fazer, ainda que silenciosamente, um balanço da caminhada.

Nesses encontros, lembramos de quem fomos, de quem esteve ao nosso lado e de quem ficou pelo caminho. Lembramos das alegrias e das tristezas, dos encontros e das despedidas, das conquistas e das decepções. Algumas lembranças chegam acompanhadas de um sorriso. Outras ainda carregam alguma dor.

Talvez seja justamente essa uma das coisas mais bonitas da Festa do Rosário: ela nos faz perceber que o tempo passou, mas nem tudo passou conosco. Algumas pessoas continuam presentes na memória. Alguns momentos continuam vivos. E algumas histórias, mesmo antigas, ainda conseguem tocar o coração.

Foi nesse clima de reencontro e de memória, tão próprio da Festa do Rosário, que comecei a pensar naquilo que carregamos ao longo da vida. O que devemos guardar? O que devemos deixar para trás? Por que algumas lembranças permanecem tão vivas, enquanto outras deveriam simplesmente encontrar o seu lugar no passado?

A vida tem uma mania curiosa de guardar aquilo que a gente gostaria de esquecer.

Uma palavra atravessada, uma amizade que terminou, uma injustiça, uma despedida, uma oportunidade perdida. Às vezes, basta uma música, um cheiro ou uma fotografia antiga para trazer de volta aquilo que pensávamos estar enterrado.

Festa dos Negros do Rosário de Pombal

Mas há outra coisa que a memória também sabe fazer. Ela guarda o riso.

Guarda a mesa cheia, a conversa comprida depois do jantar, a cerveja  tomada sem pressa, a festa na rua, a viagem que ficou na lembrança, o abraço de quem já partiu. Guarda os amigos de outros tempos, as brincadeiras da infância, os domingos em família e aqueles momentos aparentemente simples que, muitos anos depois, descobrimos que eram felicidade.

Talvez a maturidade seja aprender a escolher o que merece permanecer.

Não se trata de apagar os momentos ruins. Eles fazem parte da nossa história. Alguns deixaram cicatrizes, outros ensinaram prudência, outros simplesmente mostraram que nem todo mundo que caminha ao nosso lado seguirá conosco até o fim.

Mas existe uma diferença entre lembrar e viver novamente aquilo que passou.

O passado deve ser uma fotografia, não uma casa.

Podemos olhar para ele, reconhecer as pessoas, os lugares e as circunstâncias, sorrir diante de algumas lembranças e até lamentar outras. Mas não precisamos morar ali.

Com o tempo, descobrimos que muitas coisas que pareciam enormes perderam o tamanho. A discussão que nos tirou o sono, a mágoa que parecia eterna, a opinião de alguém que nos feriu profundamente. Tudo isso, um dia, começa a caber em poucas linhas da nossa história.

Já os momentos felizes parecem fazer o caminho contrário.

Quanto mais o tempo passa, maiores ficam.

Uma tarde qualquer pode transformar-se numa lembrança preciosa. Uma fotografia antiga ganha outro significado. Uma conversa que na época parecia sem importância passa a ser lembrada com saudade. É como se o tempo, esse velho roteirista da vida, soubesse cortar os excessos e destacar aquilo que realmente importa.

Talvez por isso devêssemos cuidar melhor das nossas lembranças.

Guardar menos ressentimentos e mais encontros

Menos palavras que feriram e mais palavras que fizeram bem.

Menos portas que se fecharam e mais portas que um dia se abriram.

A vida não permite escolher tudo o que acontece conosco. Não escolhemos todas as perdas, todas as decepções, todas as despedidas. Mas podemos escolher, pelo menos em parte, aquilo que levaremos conosco.

E eu prefiro levar os risos.

Prefiro lembrar daqueles que chegaram trazendo alegria, dos que permaneceram quando seria mais fácil partir, dos que dividiram comigo um pedaço da estrada. Prefiro recordar as manhãs tranquilas, os amigos de juventude, as histórias contadas muitas vezes, os lugares onde fui feliz sem saber que estava sendo.

Porque talvez seja essa uma das grandes sabedorias que chegam com a idade: compreender que a vida não é feita apenas do que aconteceu, mas também daquilo que decidimos lembrar.

O que passou, passou.

Algumas dores merecem respeito, mas não precisam de moradia permanente.

As boas lembranças, essas sim, podem ficar.

Que ocupem as melhores gavetas da memória.

Lugar de memória: editor no Rosário

E que, quando a Festa do Rosário voltar no próximo ano, Pombal possa novamente abrir suas portas para os reencontros, para as histórias e para a saudade. Que cada abraço nos lembre de alguém, que cada rosto conhecido desperte uma lembrança e que, entre uma conversa e outra, a gente descubra que ainda há muita coisa boa para guardar.

Talvez viver seja isso: saber agradecer pelo que foi, aprender com o que doeu e escolher caminhar levando conosco aquilo que fez a vida valer a pena.

# José Tavares é escritor pombalense.

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