José Tavares de Araújo Neto

Capacitismo é o preconceito e a discriminação contra pessoas com deficiência, baseado na ideia equivocada de que elas são inferiores, incapazes ou menos dignas de respeito. Assim como o racismo e o machismo, é uma das muitas formas de discriminação presentes na sociedade brasileira, ao lado da homofobia, da transfobia, da xenofobia, da intolerância religiosa, do preconceito de classe social, do etarismo (contra pessoas por causa da idade) e da gordofobia.

Esses preconceitos se manifestam por palavras, gestos e atitudes que humilham, excluem ou diminuem pessoas por suas características físicas, condições sociais, identidades ou modos de viver.

O capacitismo também se relaciona com o bullying, especialmente quando uma característica física ou uma deficiência se transforma em motivo de piada, humilhação ou ataque pessoal. O que alguns consideram apenas brincadeira pode reforçar estigmas, alimentar a discriminação e ferir profundamente a dignidade de quem é atingido.

Recentemente, durante o debate presidencial da TV Globo, Flávio Bolsonaro, ao criticar a política econômica de Lula, referiu-se ao presidente como alguém de “nove dedos”, fazendo alusão à perda do dedo mínimo da mão esquerda, ocorrida em um acidente de trabalho quando Lula tinha 17 anos. A provocação gerou críticas nas redes sociais, e o episódio ganhou repercussão nacional.

A hashtag #SomosTodos9Dedos chegou ao quinto lugar entre os assuntos mais comentados no X. Reportagens também registraram a reprovação da fala porgeretores indecisos. Lula exigiu uma retratação, e Flávio pediu desculpas durante o debate. O episódio passou a ser explorado pela campanha petista, embora não seja possível afirmar que tenha produzido uma mudança significativa no resultado eleitoral.

É importante deixar claro: não é de política que estou falando, tampouco de preferência partidária ou disputa eleitoral. O que me interessa é o limite ético entre a crítica legítima e o deboche que transforma uma característica física em instrumento de ridicularização.

Podemos discordar de qualquer pessoa, criticar suas ideias, questionar suas decisões e rejeitar sua atuação pública. Isso faz parte da democracia. O que não devemos normalizar é o uso de uma deficiência, de uma diferença física ou de qualquer característica pessoal para humilhar alguém.

O caso também nos convida a refletir sobre milhões de brasileiros que convivem com deficiências e enfrentam, diariamente, barreiras físicas, sociais e atitudinais. Quando uma característica física vira motivo de zombaria no debate público, a mensagem ultrapassa a pessoa diretamente atingida e pode reforçar preconceitos que afetam toda essa população.

Uma sociedade que combate a discriminação precisa estar atenta às palavras e às atitudes que a reproduzem. Quando a humilhação vira entretenimento e o deboche é confundido com coragem, corremos o risco de tornar aceitável aquilo que deveria nos causar constrangimento.

Respeitar as diferenças não é uma questão de esquerda ou direita. É uma questão de humanidade.

# José Tavares é escritor e historiador.

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