José Tavares de Araújo Neto
Na música “Tareco e Mariola”, de Petrúcio Amorim, eternizada na voz de Flávio José, surgiu uma expressão que acabou entrando de vez na fala do povo nordestino: “Quem é você pra derramar meu mungunzá?”.
É uma frase que carrega a dignidade de quem aprendeu, na prática, a valorizar cada pequena conquista e não aceita ver seu esforço, sua honra ou sua história sendo desrespeitados.
A inspiração para a composição nasceu de um episódio marcante na vida do próprio Petrúcio Amorim. Em busca de novas oportunidades para sua carreira artística, ele deixou Caruaru e passou a morar no Recife.
Algum tempo depois, decidiu voltar para realizar um sonho antigo, apresentar-se no São João de Caruaru, a festa que representava suas raízes e sua identidade. Mas, ao chegar, soube que não havia lugar para ele na grade de programação. Aquilo doeu.
E foi na estrada de volta ao Recife que ele transformou essa frustração em poesia.
Durante o caminho, Petrúcio revisitou sua própria história. Lembrou da infância simples no bairro do Vassoural, dos tempos em que a fome era amenizada com tareco e mariola e da figura de Mestre Osvaldo, o marceneiro vizinho que, com seu trabalho, representava dignidade e resistência.
Dessa mistura de lembranças nasceu a canção, inicialmente chamada “Meu Mungunzá”, um verdadeiro canto de autoestima, resistência e orgulho das próprias raízes.
Na tradição oral nordestina, “derramar o mungunzá” é como estragar aquilo que foi conquistado com tanto esforço. O mungunzá, alimento simples e tão presente na mesa nordestina, simboliza o sustento que vem do trabalho duro, do sacrifício e da persistência.
Quando alguém pergunta “Quem é você pra derramar meu mungunzá?”, está, na verdade, se defendendo de quem tenta diminuir sua história ou desvalorizar suas conquistas.
Força dos versos e as imagens da canção
A força desse verso cresce ainda mais com as imagens da canção. Petrúcio fala do velame, da macambira, plantas resistentes da caatinga, e relembra uma infância marcada pela simplicidade e pela superação.
Nada ali é por acaso: cada detalhe reforça a identidade de quem aprendeu a enfrentar dificuldades sem perder a própria dignidade.
Esse verso acaba virando também um lembrete importante sobre amor-próprio. Sempre vai existir gente que tenta diminuir o outro, ignorar o esforço, desmerecer o talento ou tratar conquistas como se fossem sorte. Mas, no fundo, isso diz mais sobre quem faz do que sobre quem recebe.
É aí que a pergunta de Petrúcio Amorim deixa de ser só uma pergunta. Ela vira uma resposta firme, uma forma de dizer, com clareza, que ninguém tem o direito de desvalorizar a caminhada de quem lutou para chegar onde chegou.
Quem menospreza o próximo expõe mais o próprio caráter do que diminui o valor de quem pretende humilhar. O talento não se apequena diante do desprezo; apenas revela a pequenez de quem é incapaz de reconhecê-lo. O ouro continua sendo ouro, ainda que olhos despreparados o confundam com barro.
Quem conhece o preço de suas lutas, o valor do seu talento e a dignidade de sua caminhada não se curva ao desprezo. Basta uma única pergunta para lembrar ao arrogante o seu devido lugar: “Quem é você pra derramar meu mungunzá?”
# José Tavares é historiador e pesquisador do Cangaço
