José Tavares de Araújo Neto
Em 1978, cheguei ao campus da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em Areia, para cursar Agronomia. Iniciava uma nova etapa da minha vida em um Brasil marcado pela ditadura militar e por uma crescente efervescência política.
Naquele ano, um líder sindical ainda pouco conhecido fora do meio operário começava a despontar no cenário nacional. Luiz Inácio da Silva, conhecido como Lula entre os trabalhadores, ganhava visibilidade à frente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, durante as mobilizações contra o arrocho salarial.
As greves iniciadas em maio daquele ano, a partir da paralisação dos trabalhadores da Scania, em São Bernardo do Campo, deram projeção nacional à liderança de Lula. O movimento se espalhou por outras fábricas do ABC paulista e tornou aquele dirigente sindical uma das principais figuras emergentes da resistência dos trabalhadores à ditadura militar.
A força daquele movimento contribuiu para ampliar a oposição à ditadura. Nas universidades, o movimento estudantil retomava as mobilizações, com a reorganização da União Nacional dos Estudantes (UNE), a reconstrução das entidades estudantis e o fortalecimento das campanhas pelas liberdades democráticas e pela anistia ampla, geral e irrestrita.
A liderança de Lula representava uma novidade na política brasileira. Era um operário, filho de uma família humilde do Nordeste, migrante pernambucano que deixara sua terra natal em busca de melhores condições de vida em São Paulo. Surgido do chão de fábrica, conhecia de perto as dificuldades dos trabalhadores e foi capaz de transformar suas reivindicações em força política.
Esse processo, somado à atuação de intelectuais, militantes de esquerda e movimentos populares, contribuiria para a fundação do Partido dos Trabalhadores, em 1980.
Em 1979, essa efervescência também se fez sentir na nossa Escola de Agronomia, em Areia. Vivemos uma intensa mobilização estudantil que culminou em uma greve liderada pelo então presidente do Diretório Acadêmico Jayme Coelho, nosso colega Josias Gomes, que viria a se tornar um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores na Paraíba e, posteriormente, deputado federal pela Bahia.
O movimento teve repercussão nacional e atraiu a atenção de importantes veículos de imprensa, marcando um capítulo significativo da mobilização estudantil contra as restrições impostas pela ditadura militar.
Lembro-me das caminhadas da Escola de Agronomia até a cidade de Areia. Marchávamos pelas ruas, entoando palavras de ordem e cantando hinos e canções de resistência, sobretudo de Caetano Veloso, Chico Buarque, Ivan Lins e Gonzaguinha. Entre elas, destacava-se Para Não Dizer que Não Falei das Flores, de Geraldo Vandré, que se tornou um dos grandes símbolos musicais da resistência à ditadura militar.
Aquelas manifestações expressavam a coragem de uma geração que, mesmo sob a ditadura, encontrava maneiras de ocupar os espaços públicos e lutar por seus ideais.
Minha chegada à universidade coincidiu com um período decisivo da história brasileira. Enquanto Lula se projetava como liderança nacional a partir das greves do ABC, nós, estudantes, também participávamos, à nossa maneira, da luta por mudanças.
Eram diferentes frentes de mobilização, unidas pela aspiração de liberdade, democracia e participação popular.
Quarenta e oito anos depois, em 2026, aquele metalúrgico nordestino que começava a ganhar projeção nacional em 1978 permanece como uma das figuras centrais da política brasileira. Sua trajetória, marcada por vitórias, derrotas, perseguições e resistência, tornou-se um dos capítulos mais expressivos da história política recente do país.
Na campanha de 2026, o gesto de formar a letra L com os dedos, associado ao nome de Lula, ganhou grande visibilidade. Mais do que uma marca eleitoral, o gesto passou a expressar, para muitos de seus apoiadores, a defesa da democracia e a resistência ao autoritarismo e ao fascismo. Sua repercussão ultrapassou os limites da campanha e alcançou o debate público internacional.
Ao recordar aqueles anos, percebo a dimensão dessa trajetória. Em 1978, Lula era o líder operário que desafiava a ditadura nas fábricas do ABC. Quase meio século depois, sua história continua entrelaçada às lutas por participação política, inclusão social e democracia no Brasil.
E eu, que cheguei à universidade naquele tempo de sonhos e resistência, acompanhei essa longa caminhada histórica. A juventude que marchava pelas ruas de Areia, cantando canções de liberdade, testemunhava um país em transformação.
Quase cinco décadas depois, aquela mesma esperança continua presente na luta por democracia, justiça social e liberdade.
# José Tavares é escritor e historiador.
