por Jerdivan N. de Araújo

Em 1574, indígenas Potiguaras atacaram o Engenho Tracunhaém, na região de Goiana (Pernambuco), próxima à Capitania de Itamaracá. Esse episódio histórico serve de base ao romance histórico O Massacre de Tracunhaém, de Wertevan Fernandes, que alterna ficção e reconstrução histórica.
O livro abre com uma frase-síntese do conflito colonial:

“Os portugueses dizem que estas terras pertencem ao rei. Os Potiguaras afirmam que pertencem aos seus antepassados.”

Nela se opõem a posse territorial legitimada pela Coroa e o vínculo ancestral indígena. Em vez de expor os fatos cronologicamente, o autor começa com o naufrágio de uma embarcação portuguesa. Um sobrevivente chega à praia, luta para respirar e compreender o lugar desconhecido. A cena tem força cinematográfica e suspense, pois o leitor acompanha sua sobrevivência até perceber que ele não está sozinho: dois caçadores potiguares o observam e decidem avisar a aldeia.

Essa escolha narrativa é eficiente: prolonga a expectativa e apresenta os indígenas como sujeitos ativos, que observam, avaliam e tomam decisões. A narrativa articula descrição ambiental, ação dramática e contextualização histórica. Praia, coqueiros, arrecifes e floresta reforçam o isolamento do personagem, enquanto a linguagem acessível e os parágrafos curtos favorecem a leitura.

É preciso, porém, distinguir a recriação literária da comprovação documental: pensamentos e diálogos do náufrago são recursos de ficção histórica.

Nos capítulos finais, a obra amplia o foco. No Capítulo 17 (páginas 143-144), a assembleia guerreira potiguar revela que o ataque não nasce de “selvageria”, mas de honra e justiça: o desaparecimento de Iratembé, filha de Iniguaçu e esposa de Henrique, e a suspeita sobre o senhor de engenho Diogo Dias.

Henrique fala em justiça por uma mulher inocente, não apenas em vingança. Assim, o romance desconstrói tanto a imagem do “bom selvagem” quanto a do colonizador simplesmente demonizado, mostrando a violência como resultado de uma afronta imperdoável dentro da cultura indígena, que valorizava hospitalidade e família.
O clímax, nos capítulos finais (páginas 145-149), é visceral e cinematográfico: flechas, fogo nos canaviais e na casa-grande, fumaça “como uma oferenda amarga”.

O autor não poupa detalhes da destruição, mas também não glorifica a violência. A morte de Diogo Dias pelas mãos de Iniguaçu representa uma justiça poética, embora o desfecho seja melancólico. A frase final sintetiza a tese histórica do romance: o massacre não foi apenas a destruição de uma fazenda, mas o estopim de uma guerra maior entre portugueses e potiguares, levando a Coroa a preparar a conquista da Paraíba.

O grande mérito do autor é tratar os indígenas como agentes políticos complexos, e não como coadjuvantes ou selvagens genéricos. Wertevan Fernandes equilibra pesquisa histórica e prosa envolvente, cria personagens memoráveis — como Iniguaçu e Henrique — e reflete sobre as origens da formação territorial e social do Nordeste.

O Massacre de Tracunhaém merece ser lido e ocupar um lugar na sua estante entre os melhores livros de autores paraibanos.

#Jerdivan Nóbrega é escritor e historiador.

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