José Tavares de Araújo Neto

Após ser expulso da Paraíba, Virgulino Ferreira da Silva, conhecido como Lampião, passou a homiziar-se no Cariri cearense. Seu local de refúgio mais constante foi a Serra do Mato, sobretudo em terras pertencentes ao fazendeiro Antônio Joaquim de Santana, figura de reconhecida influência regional, comumente identificado como coronel Santana. Nesse espaço serrano, Lampião e seu bando estabeleceram sucessivos acampamentos, utilizando a geografia da serra como abrigo natural e como base de deslocamento entre os estados do Ceará, Pernambuco, Paraíba e Alagoas.

A permanência do grupo na Serra do Mato coincidiu com a intensificação da vigilância policial cearense sobre os vínculos de apoio logístico atribuídos ao cangaço. As autoridades passaram a investigar parentes próximos de Lampião, residentes em Juazeiro, apontados como intermediários na aquisição de armas e munições destinadas ao bando. Em janeiro de 1927, o delegado de Juazeiro efetuou a prisão de João Ferreira, irmão de Lampião, juntamente com José Dandão, Pedro Raimundo, Sebastião Paulo e João Marreco.

Logística para compra de munição e suprimentos

Segundo comunicação oficial encaminhada ao chefe de polícia, além de João Ferreira, José Dandão foi identificado, de forma equivocada, como irmão de Lampião, enquanto Pedro Raimundo figurava como cunhado. Todos foram acusados de atuar como agentes na compra de munições, ao passo que os demais presos respondiam a processos criminais em diferentes comarcas do sertão pernambucano.

A prisão desse grupo foi divulgada como parte de uma ofensiva mais ampla contra a rede de sustentação do cangaço, indicando a pressão exercida pelas forças policiais sobre os chamados lugares-tenentes e colaboradores do bando. Os registros da época destacam que tais detenções tinham como objetivo desarticular os canais de fornecimento de armamento, considerados essenciais para a continuidade das ações de Lampião e de seus homens, especialmente daqueles que operavam a partir da Serra do Mato.

Em e janeiro de 1930, a imprensa publicou um depoimento de João Ferreira, colhido em Vila Bela (atual Serra Talhada, Pernambuco), no contexto das investigações policiais então em curso sobre a atuação do cangaço no Cariri cearense. No relato, João Ferreira descreveu a atuação de Lampião e a utilização recorrente da Serra do Mato, no município de Missão Velha, como área de homizio e base de operações. Segundo declarou, Lampião acampou por diversas vezes em terras pertencentes ao Coronel Santana, utilizando a região como ponto de abrigo, reorganização e deslocamento para ações nos estados do Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte.

No curso de suas declarações, João Ferreira afirmou que Lampião mantinha contatos regulares com o Coronel Santana, recebendo armas, munições e orientações para deslocamentos e ações em estados vizinhos. Relatou que, em diferentes ocasiões, Lampião saía reiteradamente da Serra do Mato para cumprir determinações atribuídas ao Coronel Santana, retornando posteriormente ao mesmo local.

Declarou ainda que, em uma das primeiras idas de Lampião a Juazeiro, este portava carta do Coronel Santana destinada a seu filho, Juvêncio de Santana, então juiz de direito, solicitando a obtenção de armamento e munições. Essa confidência indica que a presença de Lampião em Juazeiro não se restringiu ao episódio relacionado ao chamamento para o combate à Coluna Prestes.

João Ferreira declarou ter presenciado ou tomado conhecimento de remessas de munição destinadas a Lampião, transportadas até a Serra do Mato, inclusive por ocasião do fogo da Piçarra, no município de Porteiras. Segundo afirmou, essas cargas teriam sido encaminhadas por ordem do Coronel Santana, com o auxílio de intermediários que também atuaram como guias do bando até localidades como Brejinho, no município de Barbalha, de onde seguiram para Aurora e, posteriormente, para o ataque a Mossoró, no Rio Grande do Norte.

De acordo com o depoimento, propriedades pertencentes a parentes e aliados do Coronel Santana eram utilizadas como pontos de apoio, abrigo temporário e locais de reunião de cangaceiros. João Ferreira citou Antônio Francisco, genro do Coronel Santana, cuja casa serviu como ponto de passagem e reunião, bem como Cícero Santana, destinatário de recursos arrecadados por meio de cobranças realizadas pelo bando. Relatou que Manoel Marcelino (Bom-de-Veras) esteve na residência de Antônio Francisco trazendo dinheiro e uma mulher capturada às margens do rio São Francisco, entregando ao referido aliado a quantia de dezoito contos de réis.

O depoimento registrou a atuação de outros integrantes do cangaço, entre eles Vinte e Dois (irmão de Bo-de-Veras), Sabino e Bem-te-vi, com referência a encontros, fornecimento de armas, entrega de valores em dinheiro e ordens para ataques contra adversários locais. João Ferreira mencionou ainda a cobrança de quantias em dinheiro a fazendeiros da região, realizada por intermédio de emissários do bando, bem como a destinação desses recursos a interesses atribuídos a aliados do grupo.

João Ferreira afirmou ainda que, no início de 1926, quando o sargento Firmino Zeferino da Rocha, conhecido por Firmino Gago, o escoltava de Juazeiro para Salgueiro, tomou-lhe um relógio e uma burra com sela e demais arreios, bens que somente lhe foram restituídos cerca de um ano depois, por determinação do Major Moura Brasil.

Disse que na ocasião em que o sargento Firmino Gago indo deixá-los, ele João Ferreira e os seus parentes na cadeia de Salgueiro, no Estado de Pernambuco, tratou de intimidá-los dizendo trazer ordens para assassiná-los, o que não faria mediante um resgate de cinco contos de réis, o que ele aceitou, mas não tendo dinheiro escreveu ao seu irmão Lampião pedindo-lhe esta importância, o que ele fez, vindo até o sítio Silvério distante da Serra do Mato dois quilômetros, de onde mandou a referida importância para o Gago e que dessa data em diante Lampião e o sargento ficaram se comunicando por seu intermédio, pois recebia e enviava cartas de um para o outro.

Relatou também que, por duas vezes, emissários vindos da região do Pajeú procuraram Lampião, a mando do dr. Juvêncio de Santana, com o objetivo de levá-lo a Santana do Cariri para interromper a eleição que se realizava no mês de fevereiro de 1926, proposta que, segundo declarou, Lampião recusou-se a aceitar.

Ainda segundo o depoente, em certa noite os grupos chefiados por Sabino e por Manoel Marcelino, o Bom-de-Veras, reuniram-se na residência do Coronel Santana, seguindo em seguida para a casa de Antônio Francisco, de onde partiram para assediar a cidade de Cajazeiras, no Estado da Paraíba (28 de setembro de 1926).

O deslocamento contou com a atuação de guias identificados como o próprio Coronel Santana, Antônio Francisco, Chico Chicote e seu guarda-costas Pedro Severino, este último posteriormente assassinado por um soldado sob o comando do sargento Firmino Gago, após haver revelado informações atribuídas a seus patrões.

João Ferreira afirmou que, por ocasião do ataque a Cajazeiras, Manoel Marcelino, o Bom-de-Veras, tomou um anel de um engenheiro, fazendo presente do objeto a Antônio Francisco, genro do Coronel Santana.

João Ferreira afirmou também que alguns cangaceiros abandonaram o bando, entre eles Português, José Lúcio, Moreno e Ricardo, passando a homiziar-se em propriedades ligadas a Cícero Santana, na Serra do Mato. Relatou que Moreno teria emprestado quinze contos de réis a esse aliado, sem posterior restituição. Citou ainda Coqueiro, que seguiu para o Piauí, foi preso em Picos, evadiu-se e retornou à Serra do Mato, onde passou a contar com proteção policial.

No âmbito das autoridades, João Ferreira mencionou Manuel de Santana, filho do coronel Santana, promotor em Barbalha, e seu cunhado Antônio Coelho, apontados como protetores de cangaceiros, bem como José Francisco, neto do Coronel Santana, acusado de ordenar ações armadas. Que o dr. Manuel de Santana quando sabia de diligências para a Serra do Mato escrevia ao seu pai mandando ocultar os bandidos.

O conjunto dessas declarações foi incorporado aos autos policiais como elemento destinado a demonstrar a existência de uma ampla rede de apoio ao cangaço no Cariri cearense, envolvendo parentes, fazendeiros, cangaceiros, intermediários e agentes armados, tendo a Serra do Mato como núcleo central das operações atribuídas a Lampião.

O depoimento de João Ferreira evidencia que ele mantinha vínculo direto e permanente com o irmão, acompanhando suas atividades, intermediando comunicações, participando de tratativas logísticas e atuando de modo efetivo em ações relacionadas à manutenção, ao financiamento e ao funcionamento do bando.

#José Tavares é historiador e pesquisador do Cangaço.

Imagem ilustrativa IA

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