José Tavares de Araújo Neto
A historiografia do cangaço, embora vasta e fascinante, guarda ainda zonas de sombra onde a tradição oral, a repetição de autores e a ausência de documentação primária produziram versões consolidadas sem base documental firme. Um exemplo emblemático é a discussão em torno da data de nascimento de Maria Gomes de Oliveira, a cangaceira Maria Bonita, companheira de Virgulino Ferreira da Silva, o célebre Lampião.
Durante décadas, a literatura sobre o cangaço repetiu quase unanimemente que Maria Bonita teria nascido em 8 de março de 1911. A coincidência com o Dia Internacional da Mulher contribuiu para reforçar simbolicamente essa data, que acabou sendo incorporada à memória cultural do fenômeno cangaceiro. Contudo, a investigação conduzida pelo saudoso amigo Voldi de Moura Ribeiro, publicada em Lampião e o nascimento de Maria Bonita (2019), introduziu um elemento decisivo na discussão historiográfica ao apresentar um registro documental que aponta outra data: 17 de janeiro de 1910.
A consolidação da data de 8 de março de 1911 na historiografia do cangaço ocorreu de maneira gradual. Autores importantes, como Antônio Amaury Corrêa de Araújo, Vera Ferreira, João de Sousa Lima e Frederico Pernambucano de Mello, reproduziram essa data em diferentes momentos, frequentemente apoiando-se em depoimentos familiares ou em deduções cronológicas.
Entretanto, um exame crítico dessas fontes revela que nenhuma delas apresentava documentação primária que comprovasse o nascimento em 1911. As referências mais antigas à idade de Maria Bonita são imprecisas. O médico e escritor Ranulfo Prata, por exemplo, ao escrever sobre Lampião em 1933, mencionou apenas que ela tinha “vinte e poucos anos”, o que permitiria situar seu nascimento entre 1910 e 1912. Outros autores, como Aglae Lima de Oliveira e Rodrigues de Carvalho, sugeriram o ano de 1908, também por dedução.
Esse quadro revela um fenômeno comum na historiografia: a cristalização de uma data pela repetição sucessiva entre autores, sem verificação direta das fontes originais.
A discussão sobre o nascimento de Maria Bonita evidencia uma questão central do método histórico: a hierarquia das fontes.
Na historiografia do cangaço, grande parte das informações foi construída a partir de depoimentos de familiares ou contemporâneos; memórias recolhidas décadas depois dos fatos; e narrativas jornalísticas e literárias.
Essas fontes são importantes, mas apresentam limitações evidentes quando se trata de estabelecer dados objetivos como datas de nascimento. A memória humana, especialmente quando evocada muitos anos depois, está sujeita a imprecisões, reconstruções narrativas e até interferências simbólicas.
No caso de Maria Bonita, a repetição da data de 8 de março parece ter resultado exatamente desse processo: uma memória familiar convertida em verdade historiográfica pela força da tradição.
A pesquisa de Voldi de Moura Ribeiro alterou esse quadro ao introduzir uma fonte de natureza diferente: um registro paroquial de batismo localizado na Paróquia de São João Batista, em Jeremoabo, na Bahia.
O documento registra que, em 7 de setembro de 1910, foi batizada uma criança chamada Maria, “nascida a dezessete de janeiro de mil novecentos e dez”, filha natural de Maria Joaquina da Conceição, conhecida como Dona Déa. O assentamento foi lavrado pelo vigário Euthymio José de Carvalho.
Esse tipo de documento possui grande valor histórico, pois os livros paroquiais eram, durante o início do século XX, um dos principais instrumentos de registro civil nas regiões do interior do Brasil. Assim, o batistério constitui a primeira evidência documental concreta sobre o nascimento de Maria Bonita.
Como ocorre frequentemente quando uma tradição historiográfica é questionada, a descoberta gerou debates entre pesquisadores do cangaço. Alguns estudiosos preferiram manter a data tradicional, alegando a existência de registros familiares ou documentos privados.
Entretanto, do ponto de vista metodológico, o registro paroquial possui maior peso documental. A própria revisão feita posteriormente por Antônio Amaury Corrêa de Araújo reconheceu a importância do documento encontrado por Voldi Ribeiro, admitindo que a data de 1911 carecia de prova documental.
A redefinição da data de nascimento de Maria Bonita não representa apenas a correção de um detalhe biográfico. Ela revela algo mais profundo: o processo de construção da história do cangaço.
O cangaço é um fenômeno cuja memória foi construída tanto por narrativas populares quanto por pesquisas acadêmicas. Nesse contexto, não é raro que versões simbólicas ou narrativas heroicas se imponham sobre dados documentais. A coincidência do nascimento da “Rainha do Cangaço” com o Dia Internacional da Mulher, por exemplo, possui forte apelo simbólico e narrativo.
A pesquisa documental, contudo, cumpre justamente a função de reexaminar essas tradições à luz das fontes.
O debate sobre o nascimento de Maria Bonita ilustra com clareza os desafios da historiografia sertaneja. Durante décadas, a data de 8 de março de 1911 foi aceita quase sem questionamento, apesar da ausência de documentação. A descoberta do registro de batismo em Jeremoabo, apontando para 17 de janeiro de 1910, introduz um elemento novo e mais sólido na discussão.
Mais do que resolver uma questão cronológica, essa investigação reafirma um princípio fundamental da disciplina histórica: a história não é uma narrativa fixa, mas um campo permanente de revisão, onde a verdade se aproxima à medida que novas fontes são encontradas e analisadas criticamente.
No caso de Maria Bonita, a mulher que abriu as portas do cangaço para outras companheiras e se tornou uma das figuras mais marcantes da história do sertão, a pesquisa documental permitiu devolver à história aquilo que lhe é essencial: o rigor das fontes e a busca incessante pela verdade histórica.
#José Tavares é escritor e pesquisador do Cangaço.
