Jose Tavares de Araújo Neto
A atuação jornalística de João Duarte Dantas encontrou, na coluna Risos e Frisos, publicada em O Jornal, uma de suas expressões centrais. A coluna constituiu um espaço contínuo de crítica política e social, marcado pela sátira, pela ironia e pelo uso da forma poética.
O título Risos e Frisos sintetiza a proposta da coluna. “Risos” indica o uso da sátira e da ironia como forma de abordagem dos fatos. “Frisos” aponta a intervenção do autor, que destaca, comenta e orienta a interpretação dos acontecimentos. Na combinação dos dois termos, a escrita expõe e analisa, utilizando o humor como meio de crítica.
A assinatura dos textos aparecia sob o pseudônimo “Aladino”. Aladino, ou Aladim, é o personagem de um célebre conto árabe de As Mil e Uma Noites, jovem astuto que descobre uma lâmpada da qual surgem gênios capazes de atender aos desejos de seu possuidor. A escolha do pseudônimo indica a figura de quem revela e transforma a realidade por meio de um recurso singular, aqui representado pela palavra escrita.
A coluna funcionava como instrumento de intervenção no debate público. Nela, João Dantas tratava dos acontecimentos de seu tempo, refletindo o ambiente político da Paraíba dos anos 1920, caracterizado por disputas entre grupos e lideranças.
Formado pela Faculdade de Direito do Recife, João Dantas construiu carreira jurídica ao lado de seu sócio João da Matta Correia Lima, também destacado articulista político, cujo nome foi dado à primeira escola pública de Pombal, inaugurada em 1932. Essa formação de João Dantas aparece em sua escrita, marcada por encadeamento lógico e argumentação precisa.
Na coluna, os fatos do cotidiano eram convertidos em versos. João Dantas utilizava quadras, sextilhas e composições livres, com rimas simples e ritmo regular.
A ironia organiza o discurso e orienta a leitura. O autor emprega a linguagem poética como forma de interpretação dos acontecimentos.
Um dos registros mais expressivos refere-se ao assassinato do delegado de Pombal, o tenente Manuel Cardoso, ocorrido em 11 de janeiro de 1924, tendo como autor o subprefeito Luiz Siqueira Granja Coimbra.
O episódio aparece na coluna poucos dias depois:
O termo de Piancó
Quase sempre estava em armas.
Do cangaço nos alarmas,
Entre nós, estava só…
Hoje, porém, quem diria?!
Na terra das brancas pombas,
– Em Pombal – chove… pitombas,
A bala zune e assobia…
(Aladino, O Jornal, 16 de janeiro de 1924)
O texto registra a mudança do ambiente local. A referência à “terra das brancas pombas” é seguida pela descrição dos disparos. A imagem indica a presença da violência no espaço urbano.
Tiroteios em Pombal repercutem em jornal
Outro registro relevante aparece na crítica à controvérsia em torno de novos tiroteios ocorridos em Pombal. A imprensa noticiava a persistência de episódios de violência, enquanto o jornal oficial A União buscava desmentir tais informações, afirmando não haver fundamento nas notícias divulgadas.
Em resposta, O Jornal rebateu a posição oficial, sustentando que a informação lhe fora repassada pelo próprio major Genuíno Bezerra, autoridade incumbida pelo governo de investigar o caso. A nota afirmava, em tom irônico, que, havendo divergência, a contestação deveria ser dirigida ao próprio oficial e ao seu telegrama, e não ao jornal.
É nesse ponto que João Dantas formula as quadras que seguem:
“Se o despacho é do Major
E o Major é genuíno;
Se ao seu critério e bom tino
Confiou-se encargo maior,
Resta um dilema ferino,
Mas simples, justo e certeiro:
Ou o despacho é verdadeiro,
Ou o Major não é genuíno…
(Aladino, O Jornal, 29 de janeiro de 1924)
O poema registra o conflito entre versões. A autoridade do major, investida oficialmente para apurar os fatos, entra em tensão com a negativa do órgão oficial.
A construção do raciocínio é direta. Se o governo confiou ao major a investigação, seu informe deve ser considerado válido. Caso contrário, sua autoridade fica comprometida. O jogo com o termo “genuíno”, coincidente com o nome do oficial, sustenta a ironia e organiza o argumento.
A administração pública é tema recorrente. João Dantas registra o estado das obras do porto:
“Foi um dia o nosso porto…
Basta olhar o seu estado
Lá do cais abandonado
Pra se ver que é um caso morto.
(Aladino, O Jornal, 24 de janeiro de 1924)
Na mesma data, aborda a permanência de equipes sem atividade produtiva:
“Em vez da lida
Cruel, acerba,
Comem a verba
Cá na avenida…”
(Aladino, O Jornal, 24 de janeiro de 1924)
Saneamento básico da Capital como tema recorrente
As obras de saneamento da capital aparecem com frequência. Sobre os desabamentos no túnel, registra:
“Todo dia que Deus dá,
Há novo desabamento…
[…]
Prodígio da engenharia
De funda sabedoria…
(Aladino, O Jornal, 27 de fevereiro de 1924)
O texto indica a repetição dos colapsos e a continuidade das intervenções.
O tema retorna ao comentar o desabamento do paredão do prédio do Correio da Manhã:
“Ando à cata de engenheiro,
Competente e verdadeiro,
Que me diga, de contado,
E, quanto mais concertado,
A cifra certa, o dinheiro
Até hoje derramado
Pelo Tesouro do Estado
Nesse túnel malfadado,
Que o Saneamento perfura
E, quanto mais concertado
Mais se fura…”
(Aladino, O Jornal, 18 de março de 1924)
O trecho introduz a questão do gasto público. A repetição do termo “concertado” estrutura o verso final.
No campo eleitoral, João Dantas registra irregularidades:
“E… ganhando as eleições
Só com multiplicações,
Fez trabalho descuidado
Que será todo anulado…”
(Aladino, O Jornal, 7 de março de 1924)
A formulação sugere manipulação dos resultados.
A crítica à linguagem excessivamente técnica também aparece:
“Se te não deixa apoplético,
Te põe, logo, sorumbático…”
(Aladino, O Jornal, 10 de maio de 1924)
O verso indica o efeito do discurso rebuscado sobre o leitor.
A dinâmica interna dos partidos é tratada em outro momento:
“Mas… se a dita indicação
É cousa já resolvida
Com firmeza e decisão,
Escusa a história comprida
Dessa inútil Convenção…”
(Aladino, O Jornal, 9 de maio de 1924)
O texto aponta a formalidade do processo político.
A linguagem da coluna combina elementos populares e termos de formação erudita.
A coluna integra o cenário político da época. João Dantas atuava ao lado de nomes como José Rodrigues de Carvalho e Francisco Coutinho de Lima e Moura.
Os textos aqui reunidos indicam o uso sistemático da ironia como forma de crítica.
A escrita de João Dantas apresenta regularidade temática e consistência formal. A coluna Risos e Frisos constitui um registro da vida política paraibana no período.
#José Tavares é escritor e pesquisador da Revolta de Princesa e Cangaço.
