José Tavares de Araújo Neto
O combate de Piancó, ocorrido em 9 de fevereiro de 1926, durante a passagem da Coluna Prestes pelo sertão da Paraíba, foi narrado por Luiz Carlos Prestes em depoimentos concedidos décadas depois e utilizados por Anita Leocádia Prestes em seu livro A Coluna Prestes (1990). Nessa narrativa, Prestes apresenta o episódio como resultado de uma emboscada organizada pelas forças locais e de uma reação violenta dos soldados da Coluna diante da morte de companheiros.
Segundo Prestes, a Coluna entrou em Piancó sem esperar um confronto imediato. O povoado possuía uma rua principal larga, característica comum das pequenas localidades sertanejas do Nordeste. Foi por essa rua que avançou a vanguarda da Coluna. Ele recorda esse momento ao descrever a entrada na vila:
“A Coluna entrou em Piancó com uma certa tranquilidade. Havia uma rua muito larga, uma dessas ruas do Nordeste, dos povoados do Nordeste — as ruas são largas, com uma fileira de casas do lado.”
À frente da tropa seguia o sargento Laudelino Pereira da Silva, militar oriundo do Rio Grande do Sul e muito estimado entre os companheiros. Foi justamente no momento em que os primeiros homens penetravam na rua principal que ocorreu o ataque. Prestes relata:
“Logo o primeiro que apontou nessa rua — o sargento Laudelino, que vinha do Rio Grande do Sul e era muito querido pela tropa — sofreu um fogo cruzado dos dois lados.”
Prestes atribui a iniciativa da resistência ao padre Aristides Ferreira da Cruz, chefe político da região, proprietário de terras e deputado estadual. Em seu depoimento, ele afirma:
“Quem teve a iniciativa? Foi o padre, chamado padre Aristides, que era proprietário de terras, cangaceiro e deputado. Pediu, então, que a polícia viesse para defender Piancó.”
Durante o início do confronto, o sargento Laudelino foi atingido mortalmente, fato que provocou grande indignação entre os soldados da Coluna. Diante da emboscada, os revolucionários reagiram rapidamente, colocando em posição uma metralhadora pesada. Prestes afirma que, ao perceberem que enfrentavam uma tropa organizada, os policiais abandonaram o combate e fugiram
Com a retirada da polícia, o padre Aristides permaneceu entrincheirado em uma casa com seus homens. A vanguarda da Coluna cercou o local e iniciou o ataque. Segundo Prestes, naquele momento o padre tentou justificar-se e salvar-se:
“O padre içou bandeira branca e começou a dizer que era parente do Siqueira Campos, porque a família do Siqueira era do sertão de Pernambuco.”
Apesar disso, a casa acabou sendo atacada e incendiada com querosene, obrigando o padre e seus homens a se renderem. Uma vez capturados, foram conduzidos para uma escavação próxima à residência.
Prestes relata que ali ocorreu o desfecho do episódio:
“Aí formaram o padre com os cangaceiros dele e fuzilaram. Na beira desse buraco foi fuzilado.”
Na interpretação de Prestes, o fator decisivo para explicar a reação violenta dos soldados da Coluna foi o episódio da bandeira branca. Segundo ele, os defensores da vila teriam levantado esse sinal de rendição, levando alguns combatentes da Coluna a avançar confiantes de que o combate havia cessado. No entanto, nesse momento teriam sido novamente atacados a tiros.
Prestes recorda esse momento com indignação:
“Pensando que era realmente bandeira branca, foram tiroteados e morreram alguns outros companheiros… ficaram com um ódio tremendo devido à falsidade de levantar uma bandeira branca.”
Assim, para Prestes, a execução do padre Aristides e de seus homens não teria sido uma decisão previamente planejada, mas resultado da revolta que tomou conta da tropa após a morte de companheiros muito estimados.
Essa interpretação é reforçada pelo depoimento do general Osvaldo Cordeiro de Farias, que participou diretamente do combate e cujo testemunho também foi registrado no já citado livro de Anita Leocádia Prestes. Recordando o episódio, ele igualmente atribuiu a reação dos soldados à morte de homens que o acompanhavam desde o início da marcha da Coluna
“As primeiras balas mataram à queima-roupa seis homens que vinham comigo desde o Rio Grande… Isso me provocou um ódio incontrolável. Decidi resistir a qualquer preço.”
Em outro momento de seu depoimento, Cordeiro de Farias destacou o impacto emocional das perdas sofridas em Piancó:
“Ninguém evita o ódio numa situação daquelas. Perdi entre 30 e 40 soldados em Piancó, homens que nos acompanhavam desde o Rio Grande e São Paulo.”
Ao comentar especificamente a figura do padre Aristides, Cordeiro de Farias procurou situá-lo no contexto político regional, afirmando que sua atuação ultrapassava o campo religioso e estava profundamente ligada às disputas políticas do sertão paraibano. Em suas palavras:
“O padre Aristides, cujas ordens religiosas estavam suspensas, era um chefe político que, embora tivesse seus aliados, tinha também inimigos em toda aquela região da Paraíba. Então, começamos a receber manifestações de regozijo por termos acabado com ele.”
Dessa forma, tanto na narrativa de Luiz Carlos Prestes quanto no depoimento de Cordeiro de Farias — ambos registrados por Anita Leocádia Prestes — a tragédia de Piancó aparece marcado por uma emboscada inicial, pela morte de soldados da Coluna e pela percepção de uso fraudulento da bandeira branca como sinal de rendição.
À luz das convenções internacionais de guerra, tal expediente constitui grave violação das regras de combate. A morte de companheiros e a convicção de terem sido vítimas de uma ação desleal provocaram forte indignação entre os revoltosos, em grande parte experientes militares do Exército brasileiro, explicando, segundo essa versão, o desfecho violento do episódio em Piancó.
#José Tavares é escritor e pesquisador do Cangaço.
