José Tavares de Araújo Neto
A decisão da Assembleia Legislativa da Paraíba de aprovar o projeto de autoria dos deputados Adriano Galdino, Nilson Lacerda e Chico Mendes, que reconhece o álbum Ave de Prata, de Elba Ramalho, como patrimônio histórico e cultural da Paraíba, vai além de uma simples homenagem musical. Trata-se do reconhecimento de uma obra profundamente ligada a um momento decisivo da história brasileira e nordestina.
Lançado em 1979, o disco nasceu justamente quando o país atravessava os primeiros movimentos mais visíveis da abertura política após anos de repressão da ditadura militar. Aquele era um Brasil marcado pela esperança cautelosa. O governo do general João Batista Figueiredo anunciava a chamada abertura “lenta, gradual e segura”, enquanto as ruas começavam a respirar novamente os ventos da mobilização popular.
Como estudante de Agronomia da Universidade Federal da Paraíba, vivi intensamente aquele período. Militava no movimento estudantil, espaço onde política, cultura e utopia caminhavam juntas. Nas universidades, discutíamos democracia, justiça social, reforma agrária, liberdade de expressão e os rumos do país. Saíamos às ruas entoando canções e gritando palavras de ordem, transformando música e esperança em instrumentos de resistência.
Depois da repercussão nacional de uma greve realizada por nós, estudantes do campus de Areia, os movimentos estudantis retomavam força em todo o país. Por sua vez, os sindicatos reorganizavam greves históricas e a juventude secundarista também voltava a ocupar espaços de debate e contestação. Depois de intensa pressão popular, em 28 de agosto daquele ano foi sancionada a Lei da Anistia, permitindo o retorno de exilados políticos e reacendendo no país o sentimento de redemocratização.
Ave de Prata não foi apenas o álbum de estreia da cantora paraibana Elba Ramalho. Foi também um símbolo de uma geração que buscava reencontrar sua liberdade. A música nordestina, ali presente em toda sua força poética e telúrica, tornava-se igualmente instrumento de afirmação cultural e resistência simbólica.
O repertório do álbum revela muito daquele tempo histórico. Em “Não Sonho Mais”, de Chico Buarque, percebe-se a marca de um compositor profundamente associado à resistência cultural contra a ditadura militar. Chico transformou metáforas e lirismo em instrumentos de enfrentamento à censura, tornando-se uma das vozes mais emblemáticas da oposição artística ao regime.mesmA faixa-título “Ave de Prata”, composta por Zé Ramalho, traz a atmosfera mística e libertária característica de sua obra. Zé Ramalho representava uma juventude nordestina inquieta, ligada à contracultura, à crítica social e à busca de liberdade existencial em meio aos anos finais da repressão.
Cátia de França e Pedro Osmar: espírito crítico
“Kukukaya (Jogo da Asa da Bruxa)”, de Cátia de França, dialogava com aquele espírito de ruptura e experimentação. Já “Baile de Máscaras”, de Pedro Osmar, carregava o espírito crítico e vanguardista dos movimentos culturais alternativos da Paraíba. “O Dia do Criador”, de Walter Franco, refletia a inquietação estética e política da contracultura brasileira.
Mas Ave de Prata não estava sozinho. Ele fazia parte de uma ampla trilha sonora da abertura política brasileira. Naqueles anos, canções tornaram-se verdadeiros hinos de resistência democrática e de esperança coletiva.

Deputado Adriano Galdino, um dos autores do projeto
Gonzaguinha foi uma das vozes mais fortes daquele período. Canções como “Comportamento Geral”, “Explode Coração” e “O Que É, O Que É?” traduziram as angústias, os desejos de liberdade e a esperança popular em meio ao desgaste da ditadura. Filho de Luiz Gonzaga, Gonzaguinha carregava uma postura política firme, frequentemente crítica às desigualdades sociais e ao autoritarismo.
Entre todas as músicas daquele tempo, porém, poucas simbolizaram tanto a luta pela redemocratização quanto “O Bêbado e a Equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc, eternizada na voz de Elis Regina. A canção tornou-se uma espécie de hino da anistia. Seus versos falavam, de forma poética e metafórica, da dor dos desaparecidos, da saudade dos exilados e da esperança do retorno daqueles que haviam sido perseguidos pela ditadura.
Quando Elis cantava “a esperança dança na corda bamba de sombrinha”, o país inteiro parecia reconhecer naquele verso o desejo coletivo de liberdade. A música atravessou universidades, sindicatos, movimentos estudantis e manifestações políticas, tornando-se um símbolo emocional da abertura democrática brasileira.
O clima de tensão política daqueles anos alcançou um de seus momentos mais dramáticos em 30 de abril de 1981, no Atentado do Riocentro. Naquela noite, Elba Ramalho apresentava-se diante de milhares de pessoas durante um show em homenagem ao Dia do Trabalho, quando setores da extrema-direita ligados ao aparato repressivo tentaram provocar uma tragédia para atribuí-la à esquerda e frear a abertura democrática.
Elba estava no palco cantando “Banquete de Signos”, composição do também paraibano Zé Ramalho, no momento em que a bomba explodiu no estacionamento, dentro do carro ocupado pelos próprios militares envolvidos na ação. O episódio transformou-se em símbolo do desespero dos setores mais radicais da ditadura diante do avanço da redemocratização.
Milton Nascimento também emocionava o país com “Coração de Estudante”, associada às mobilizações populares e ao sentimento democrático que crescia no final da ditadura. Geraldo Vandré permanecia como referência pioneira da resistência com “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores”, um dos maiores gritos de liberdade da música brasileira e canção incorporada definitivamente à memória política nacional.
Belchior ecoava a inquietação existencial e política de toda uma geração em músicas como “Como Nossos Pais” e “Apenas um Rapaz Latino-Americano”. Fagner, Alceu Valença e Zé Ramalho ajudavam a consolidar a força da música nordestina naquele processo cultural de redescoberta do Brasil profundo.
As canções circulavam pelos corredores universitários, centros acadêmicos, festivais estudantis e rodas de violão. Eram mais que entretenimento. Funcionavam como linguagem coletiva de resistência e esperança. Naquele cenário, a Paraíba também encontrava sua voz. Ave de Prata representava um Nordeste que recusava o silêncio da repressão e afirmava sua identidade cultural. Pela voz de Elba Ramalho e pelas composições de Luiz Ramalho, Zé Ramalho, Cátia de França e Pedro Osmar, a Paraíba inseria-se na trilha sonora da abertura política brasileira, transformando música e poesia em afirmação de liberdade.
Por isso, o reconhecimento de Ave de Prata como patrimônio histórico e cultural da Paraíba possui um significado profundo. Não se trata apenas da consagração de um grande disco ou de uma artista extraordinária. Trata-se da preservação da memória de um tempo em que música, cultura e resistência democrática caminhavam lado a lado.
#José Tavares é historiador e pesquisador pombalense.
