O escritor e dramaturgo paraibano Tarcísio Pereira, membro da Academia Paraibana de Letras (APL), anuncia para o final do mês de março, seu mais novo romance: Teodósio. Romance foi premiado no Edital de Publicações Literárias da Secretaria de Cultura da Paraíba, em novembro de 2025. Ambientado no século 17, o livro narra a trajetória do bandeirante Tedósio de Oliveira Ledo na colonização do interior da Paraíba.
Resumo – No sertão da Paraíba do século 17, o bandeirante Teodósio de Oliveira Ledo lidera uma sangrenta expedição, em nome da Coroa Portuguesa, que avança sobre territórios indígenas, com a missão de garantir o povoamento dos colonizadores na região. Inspirado em fatos reais, o romance revela a violência que ergueu o interior sertanejo e reflete sobre as origens brutais da colonização, com a devastação de várias aldeias e o sacrifício de povos originários.
Sinopse – Nos últimos anos do Século XVII, o sertão da Capitania da Paraíba era uma terra indômita, povoada por tribos aguerridas, crenças ancestrais e vastidões desconhecidas. É nesse cenário que Teodósio de Oliveira Lêdo, um bandeirante e desbravador nomeado pela Coroa Portuguesa, lidera uma arriscada expedição rumo ao coração do interior, com a missão de fundar um novo marco da colonização, povoando os sertões de Piranhas e Piancó.
A marcha para o oeste, porém, está longe de ser apenas um feito de coragem. O caminho é pontuado por reações indígenas, traições internas entre os luso-brasileiros e disputas por poder. Ao se deparar com os aguerridos tapuias das tribos Coremas, Pegas e Panatis, Teodósio realiza uma operação que deixa várias aldeias devastadas.
Entre aliados inesperados, um padre que esconde mais do que prega, um indígena convertido em guia e uma jovem mestiça que desafia as normas da época, a história se desenrola como um épico de fundação, resistência e choque de mundos.
Com inspiração em eventos reais, o romance que mergulha nas origens de uma emblemática região do Nordeste Brasileiro, misturando fatos históricos e personagens vívidos, tudo em um retrato vibrante e brutal do processo de interiorização colonial.
Início do Livro: rajadas de redemunho – “ANTES que houvesse um povoado com lei, capela e cruz, só existia a caatinga.
Também havia a poeira, e as agourentas rajadas de redemunho com seu bramido de almas e demônios.
E antes que ali chegasse um homem com bandeiras, facões e pólvora, existiram os mansos que tornaram-se feras.
O Sertão de Piranhas, ventre de pedra e brasas, se estendia místico e desafiante em léguas de distância. Ali, homem nenhum entrava impunemente.
Teodósio de Oliveira Ledo sabia disso… Mas entrou assim mesmo.
Bem se diga, já existiam uns poucos moradores brancos, remanescentes das lutas e sangrias de quatro décadas, mas agora chegava o seu donatário, e seu nome era Teodósio. Começava o ano de noventa e oito quando ele partiu do sítio Carnoió, propriedade da família, com dezenas de homens armados, curraleiros, indígenas catequizados, um padre da ordem de Santo Antônio e dois missionários da Companhia de Jesus para ajudá-lo no ensino das conversões, chamados Jonas e Josiel. Levava duas carroças com mantimentos e armas, ferragens de construções e bolsas e maletas com roupas, calçados e utensílios domésticos. Num alforje de sela, fechado em tira de couro, a carta de sesmaria e os nomes de umas estâncias onde deviam parar, além de um mapa rudimentar desenhado às pressas por um franciscano que ficara cego. Buscava as várzeas do Sertão de Piranhas, o domínio de aldeias que se rebelavam e a expansão do povoamento. Buscava as terras prósperas, como tinha garantido aos homens do seu exército. Terras férteis, prontas para Deus e o gado, como tinha dito ao governador. Buscava, acima de tudo, fundar!”
Trecho: Cacique Piancó fica sabendo da prisão do seu irmão Piatã
O RIO avisou para Carapeba, cedo da manhã, que Piatã estava prisioneiro. O velho pajé tinha ido à margem para o banho matinal e purificador. Antes de entrar na água, olhou para as correntezas e divisou um cocar de penas coloridas que escorria entre galhos e musgos verdes.
Saiu apressado, foi levar a notícia para o cacique. Piancó estava sentado à frente da cabana, costurando segredos com os outros caciques das duas tribos vizinhas, dos pegas e panatis. O pajé, com o cocar de Piatã nas mãos, não pediu licença e assim metralhou ao chefe dos coremas:
– Os homens de Tóssio levaram seu irmão…
A prisão ocorreu no fim da madrugada, antes do dia aclarar. Hora antes, junto à grande mesa coberta por mapas, canecas e restos de alimentos dormidos, o capitão reunira os seus ordenanças para as instruções da captura. “Não voltem sem me trazer esse irmão de ouro”, foi o que disse. “Sigam o guia. O índio está recolhido na beira do rio, e não lhes ofereça combate. Quero ele vivo, lúcido. E tragam-no com pressa, antes que o sol esteja alto demais.”
Mestiça, Guta do Bom Sucesso, é estuprada pelo sargento Aníbal
“Entrou em casa no comecinho da noite, depois da audiência que tivera com Aníbal. Tomou banho na latada do alpendre, e a água morna lhe escorreu dos ombros como uma bênção tardia. Vestiu um vestido leve de algodão, comeu um pouco de mamão com leite e foi abrir o diário. Escreveu sem querer parar, com lágrimas caindo sobre as folhas. As linhas finais tremiam, tinham mais soluços do que palavras, e toda a tinta borrava. Depois guardou o caderno na velha bolsa de couro, apagou a lamparina e se sentou na rede. Rezou meio terço, não conseguiu terminar porque o sono chegava e lhe pesava nas pálpebras. Antes de se deitar, pediu a Deus pelo Padre Celso e pela salvação de sua alma.
Nunca soube lembrar, pelo resto da vida, em que momento foi arrancada do sono e tomada à força. A mão selvagem, inesperada nas trevas, primeiro abafou toda a sua boca e amordaçou a mandíbula com a tira grossa de um pano, que a enrolou pelos franjados da rede com um laço de nó atrás. Era um bicho-homem, tinha bafo de homem saburrento, fedendo a tabaco e cachaça ruim, mas ele chegara na escuridão e não pronunciava uma única palavra. Apenas chiava uns silvos pelo bico, como a alertar que ela não gemesse e se sujeitasse. Sentiu o peso dessa advertência, um modelo de aviso para não morrer em troca do pecado, até que o agravo fosse consumado. Submeteu-se, apertando uns cílios que lacrimejavam e ferrando os dentes na rodilha, porque então sentiu que não teria saída e se enrijeceu e se fez de morta.”

Tarcísio Pereira no papel do presidente João Pessoa
# O escritor Tarcísio Pereira também é ator e autor de romances como “Sacrifício dos Anjos” (1989), “O Homem que Comprou a Rua” (2003), lançados pelo FIC Augusto dos Anjos; “Agonia na Tumba” (1993); “A Farra do Meu Cadáver “(2023), peça de Teatro, que recebeu o título “De João Para João” sobre a Revolução de 1930 na Paraíba.
