José Tavares de Araújo Neto

Frequentemente sou abordado por curiosos, leitores e também por colegas pesquisadores acerca de uma questão que, embora pareça simples à primeira vista, ainda suscita dúvidas entre estudiosos e admiradores da história do cangaço. Afinal, quem escreveu a carta enviada ao prefeito de Mossoró, coronel Rodolfo Fernandes? Teria sido o próprio Virgulino Ferreira, de próprio punho, ou o coronel Antônio Gurgel, que naquele momento se encontrava como refém dos cangaceiros?

A dúvida é compreensível, pois, ao longo do tempo, muitos relatos sobre aquele episódio simplificaram os acontecimentos e terminaram por fundir episódios distintos numa mesma narrativa. A resposta, contudo, está claramente registrada no diário do coronel Antônio Gurgel, personagem central daquele drama, na condição de refém do bando de Lampião e redator forçado de uma das mensagens encaminhadas ao prefeito Rodolfo Fernandes: houve pelo menos duas comunicações distintas dirigidas ao prefeito mossoroense, em momentos diferentes e redigidas por mãos diferentes.

A primeira dessas mensagens foi escrita por Antônio Gurgel, mas não por iniciativa própria. Capturado no dia 12 de junho de 1927, quando saía de Mossoró com destino ao Brejo, propriedade rural de sua família situada na então comunidade de Pedra de Abelha, região que hoje corresponde ao município de Felipe Guerra, no Rio Grande do Norte, Gurgel pretendia buscar sua esposa e alertar seus familiares acerca da aproximação do bando de Lampião. Por um erro de percurso do motorista, porém, acabou interceptado nas proximidades de Sant’Ana, caindo nas mãos dos cangaceiros.

Já nas cercanias de Mossoró, Lampião decidiu enviar um ultimato ao prefeito. Segundo o próprio Antônio Gurgel, o chefe cangaceiro perguntou se ele conhecia Rodolfo Fernandes. Ao responder afirmativamente, ainda que sem intimidade suficiente para lhe dirigir correspondência espontaneamente, ouviu a ordem direta para redigir a mensagem. Tentou esquivar-se, alegando a impropriedade daquela situação. A tentativa foi inútil. Lampião foi categórico. “Venha escrever o que eu disser.”

Coagido, Antônio Gurgel escreve carta

Sob coação, Antônio Gurgel escreveu a carta conforme o ditado de Lampião. Nela, exigia-se inicialmente a quantia de quinhentos contos de réis para que Mossoró fosse poupada do saque e da destruição. O próprio Gurgel relata haver ponderado que a exigência era excessiva, ocasião em que Lampião reduziu a pedida para quatrocentos contos.

Essa primeira comunicação teve Lampião como autor intelectual e Antônio Gurgel como redator forçado.

Durante décadas, a resposta original do prefeito Rodolfo Fernandes a essa mensagem permaneceu desaparecida, conhecida apenas por transcrições em jornais e referências bibliográficas. Contudo, noventa e três anos depois, em 2020, surgiu um importante achado documental. O pesquisador, jornalista e escritor sergipano Robério Santos, estudioso do cangaço, localizou a carta manuscrita original durante pesquisas em acervo particular no Rio de Janeiro.

Documento e o seu valor histórico para Mossoró

O documento, dirigido ao próprio Antônio Gurg-enel, então refém do bando, constitui peça histórica de enorme valor, por confirmar materialmente a troca de correspondência entre os invasores e a resistência mossoroense. Em tom firme e desafiador, Rodolfo Fernandes respondeu:

“Não é possível satisfazer-lhe a remessa dos 400000 (quatro centos contos) que pede, pois não tenho e mesmo no commercio é impossivel de arranjar tal quantia. Ignora-se onde está refugiado o gerente do Banco, Snr. Jayme Guedes. Estamos dispostos a recebe-los na altura em que elles desejarem. Nossa situação offerece absoluta confiança e inteira segurança.”

A descoberta teve ampla repercussão entre pesquisadores, não apenas pelo valor documental da peça, mas por devolver à história um dos registros materiais mais eloquentes da resistência mossoroense ao cangaço.

Entretanto, a troca de mensagens não se encerrou ali.

Existe também a célebre carta autógrafa de Lampião, preservada pela memória documental do episódio e amplamente reproduzida por estudiosos do cangaço. Nela, Virgulino Ferreira dirige-se diretamente ao prefeito Rodolfo Fernandes, em linguagem simples, ortografia vacilante e tom inequívoco de ameaça:

“Cel. Rodolfo,

Estando eu até aqui pretendo fazer um aviso ahi para os senhores si por acaso me mandar a importança que pedi eu evito entrada ahi porem não vindo esta importança eu entrarei ahi por tempo e adeus.

Espero resposta logo.

Capitão Lampião.”

Esse documento, escrito de próprio punho por Lampião, tornou-se o mais conhecido dos registros do episódio, talvez justamente por carregar a assinatura manuscrita do chefe cangaceiro.

Segundo alguns estudiosos, como Geraldo Maia, o intercâmbio epistolar daquele dia pode ter envolvido quatro comunicações distintas. A primeira, ditada por Lampião e escrita por Antônio Gurgel. A resposta de Rodolfo Fernandes. A carta autógrafa de Lampião. E uma última resposta do prefeito, cujo paradeiro permanece desconhecido.

A conclusão historicamente mais consistente é clara. Não houve apenas uma carta, mas um verdadeiro diálogo tenso entre ameaça e resistência, travado por escrito nas horas que antecederam o combate.

Mais do que simples documentos circunstanciais, essas cartas revelam aspectos importantes da estratégia de Lampião, como o uso psicológico dos reféns, a formalização da intimidação e a tentativa de impor sua vontade pela ameaça. Em contrapartida, revelam também a firmeza de Mossoró, que respondeu não apenas com trincheiras e armas, mas com palavras de inequívoca resistência.

#José Tavares é escritor e pesquisador do Cangaço

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