José Tavares de Araújo Neto

A relação de Antônio Silvino com o município de Pombal representa um capítulo relevante na dinâmica do cangaço no sertão paraibano e evidencia a fragilidade das estruturas políticas da época, marcada pela ausência do Estado e pelo conluio do bandoleiro com setores de poder local. A análise das fontes disponíveis permite compreender os movimentos daquele célebre cangaceiro, bem como o ambiente em que se desenvolvia sua atuação.

Em meados de 1910, em um período em que o país era frequentemente interpretado sob a divisão entre Norte e Sul, a imprensa sulista noticiou, com estardalhaço, o avanço do bando de Antônio Silvino no alto sertão paraibano, destacando práticas de extorsão ocorridas nas cidades de Patos e Pombal.

Em 7 de junho de 1910, o Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, publicou uma carta enviada de Pombal, com relato preciso de um desses episódios, ocorrido nas imediações da localidade, quando o cangaceiro, sem adentrar diretamente na cidade, fez chegar, por intermédio de um emissário, sua exigência.

A carta, subscrita por um pombalense anônimo, que se identifica como “um sertanejo”, registra a presença de Antônio Silvino nas imediações de Pombal, relatando o episódio nos seguintes termos:

“Tendo chegado às imediações desta localidade, cerca de uma légua de distância, o célebre facínora Antonio Silvino mandou à vila um emissário pedindo ao Coronel João Leite Ferreira Primo, Deputado Estadual e chefe político aqui, a quantia de dois contos de réis.”

Sob o temor de ver a cidade saqueada, o deputado articulou com comerciantes e fazendeiros locais a realização de um rateio. O montante arrecadado não alcançou a quantia exigida pelo cangaceiro, o que levou o chefe político a negociar com Antônio Silvino, que acabou por aceitar o valor oferecido. Ao final, deixou uma observação jocosa, classificando a elite pombalense como um bando de avarentos.

Se os registros de 1910 evidenciam a atuação de Antônio Silvino como agente de coerção econômica, as notícias veiculadas em 1913 acrescentam um elemento singular à sua presença no sertão paraibano, especialmente na região de Pombal: sua atuação como uma espécie de “higienista” improvisado.

Desde o ano anterior, em 1912, a Paraíba enfrentava um surto de peste bubônica, cujo epicentro foi a cidade de Campina Grande. A doença, associada à proliferação de ratos e às precárias condições de higiene urbana, provocou pânico generalizado e intensa repercussão na imprensa. A ameaça de disseminação para outras regiões do estado expôs a fragilidade dos serviços sanitários e levou à adoção de medidas emergenciais, centradas na limpeza de ruas, casas e espaços públicos, medidas que enfrentaram significativa resistência por parte da população.

Imprensa registra atuação do banditismo rural

É nesse cenário que a imprensa passa a registrar a atuação do cangaceiro nessas localidades, como indica o seguinte trecho:

“Há poucos dias, porém, ei-lo encarnado em higienista no povoado Paulista, do município de Pombal, e outros vilarejos dos nossos longínquos sertões.”

Assim como Paulista, o povoado de Jericó, pertencente ao município de Catolé do Rocha, também é citado como localidade em que Antônio Silvino determinou a limpeza de cemitérios, ruas, casas e quintais, além da pintura de fachadas, fixando prazos para o cumprimento das medidas.

As ordens foram impostas sob ameaça de violência e executadas, em regime comunitário, pelas populações locais, sob a supervisão de homens fortemente armados. Os periódicos da época referiram-se ao cangaceiro como “higienista” e registraram o cumprimento das determinações nas localidades atingidas.

Pesquisador do Cangaço, José Tavares

A imagem de gestor de Antônio Silvino, que se autodenominava “governador do sertão”, já se encontrava representada no imaginário sertanejo. Essa autoridade simbólica foi registrada em 1910, no folheto As lágrimas de Antônio Silvino por Tempestade, de autoria do poeta pombalense Leandro Gomes de Barros:

“Pergunta o vale ao outeiro,

O ímã à exalação,

O vento pergunta à terra,

E a brisa ao furacão,

Respondem todos em coro:

Esse é o rifle de ouro

– Governador do sertão!”

Em entrevista concedida ao pesquisador Dorgival Terceiro Neto, publicada no jornal O Norte, em 15 de novembro de 1987, e posteriormente incluída na obra Gente de ontem, histórias de sempre (João Pessoa: Edições Itacoatiara, 1991), o ex-cangaceiro Cobra Verde (Odilon Sebastião da Silva) apresentou relatos sobre sua trajetória e sobre a atuação de Antônio Silvino, com informações específicas relativas à região de Pombal.

Natural da localidade de Umburana, atual Itapetim, no estado de Pernambuco, foi com a família, ainda criança, para a região de Soledade, no estado da Paraíba, onde passou a viver na fazenda Santa Teresa. Foi nesse ambiente que, aos dez anos de idade, foi incorporado ao bando de Antônio Silvino, inicialmente para serviços de recados e mandados.

Segundo seu relato, uma de suas primeiras movimentações após a entrada no bando deu-se em direção à região de Pombal, quando o grupo se dirigiu à fazenda Várzea do Saco, propriedade do coronel Benedito Queiroga.

A fazenda Várzea do Saco, no município de Pombal, é descrita como ponto recorrente nas movimentações do grupo. De acordo com Cobra Verde, tratava-se de local previamente estabelecido para reencontro em caso de dispersão. Após combates, quando o bando se fragmentava, os integrantes deveriam retornar à propriedade, o que efetivamente ocorria. Em uma dessas ocasiões, após um revés, os sobreviventes reuniram-se novamente no local, onde Antônio Silvino tomou conhecimento das perdas do grupo.

O depoimento registra ainda que, após a prisão de Antônio Silvino, ocorrida em circunstâncias de surpresa após a localização do grupo pelas forças policiais, os remanescentes dispersaram-se e seguiram para a fazenda Várzea do Saco, em Pombal, deslocamento que levou vários dias. Esse movimento marcou o fim do bando, com cada integrante passando a buscar ocupação junto a proprietários locais.

O próprio Cobra Verde afirma ter permanecido na região de Pombal, onde trabalhou por cerca de oito anos com membros da família Queiroga, especialmente com José Queiroga.

Esses elementos, constantes de seu depoimento, indicam que a região de Pombal, por meio das propriedades da família Queiroga, integrou o circuito de deslocamento, apoio e reorganização do bando de Antônio Silvino.

Em síntese, a trajetória de Antônio Silvino na região de Pombal revela uma sucessão de fatos intrigante: inicialmente marcada pela extorsão às lideranças locais; em seguida, por uma atuação interventora, como no episódio do povoado de Paulista; posteriormente, pela utilização do território como ponto de apoio e descanso, sobretudo nas propriedades da família Queiroga; e, por fim, após sua prisão, como espaço de abrigo dos remanescentes do bando, encerrando um ciclo de presença que combina coerção, autoridade e integração no sertão paraibano.

# José Tavares é escritor e pesquisador do Cangaço.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *