Soube-se hoje: o Irão não entregou nada. Os EUA capitularam em toda a linha
O blog reproduz post de Alcidio Torres publicado no Canal Arte da Guerra ( do Comandante Robinson Farinazzo) sobre o acordo de paz na guerra de agressão de Israel e EUA contra o Irã. A seguir:
Por via do jornal israelita Maariv, soube-se hoje que o memorando de entendimento entre os EUA e o Irão tem 14 artigos. O artigo 13 é o que Washington não quer que leia. As negociações sobre o programa nuclear só começam depois de os EUA levantarem o bloqueio naval, libertarem os fundos iranianos congelados e isentarem as exportações de petróleo iraniano.
O Irão recebe primeiro. Negocia depois. Na verdade, Isto não é diplomacia. É capitulação faseada, escrita em linguagem jurídica para parecer outra coisa.
O texto vazou ontem à noite pelo site saudita Al-Arabiya e foi confirmado hoje pela Bloomberg e pelo Maariv. Leia cada artigo com atenção.
Artigo 1 — Fim imediato e permanente da guerra, incluindo o Líbano.
Israel não assinou. Netanyahu fica vinculado a um cessar-fogo que não negociou e que inclui o seu teatro de operações no norte. É o artigo que mais incomoda Tel Aviv e que Washington assinou sem consultar o seu aliado mais próximo.
Artigo 2 — Respeito pela soberania e não interferência nos assuntos internos.
Os EUA renunciam oficialmente à política de mudança de regime no Irão, um dos objetivos declarados de Israel e de parte da própria administração Trump. Com este artigo, Washington compromete-se a não apoiar movimentos de oposição interna iraniana. O regime dos ayatollahs sai da guerra mais protegido do que entrou.
Artigo 3 — Negociações para acordo final em 60 dias.
Prazo para resolver em dois meses questões que não foram resolvidas em décadas, programa nuclear, proxies regionais, presença militar americana no Médio Oriente. Prorrogável por acordo mútuo. Na prática, indefinido. O Irão tem todo o interesse em prolongar — recebe os benefícios económicos imediatos enquanto as negociações se arrastam.
Artigo 4 — Os EUA levantam o bloqueio naval em 30 dias.
Retirada militar com prazo definido. Sem contrapartida iraniana equivalente.
Artigo 5 — Retomada do tráfego marítimo no Golfo Pérsico.
O Irão compromete-se a remover as minas que colocou e a garantir a retomada do tráfego em 30 dias. É a única obrigação técnica e concreta do Irão em todo o memorando — e mesmo esta tem um prazo generoso.
Artigo 6 — Fundo de reconstrução de 300 mil milhões de dólares.
Vance disse que será financiado pelos países do Golfo (Emirados, Kuwait, Arábia Saudita, Bahrain), que não iniciaram esta guerra, não atacaram o Irão, e agora são pressionados a pagar a sua reconstrução.
O Irão tinha pedido originalmente 400 mil milhões. Alguns analistas já chamam a este fundo “reparações de guerra de facto.”

Artigo 7 — Levantamento de todas as sanções.
Incluindo resoluções da ONU e sanções unilaterais americanas. A principal arma de pressão económica dos EUA desaparece antes de qualquer compromisso nuclear verificável.
Artigo 8 — O compromisso nuclear iraniano.
O Irão “reitera que jamais produzirá armas nucleares.” Não desmantela. Não entrega material enriquecido. Reitera uma promessa que já fez antes.
Artigo 9 — Manutenção do status quo até ao acordo final.
O Irão mantém o programa nuclear exatamente como está. Os EUA não impõem novas sanções nem reforçam forças na região. Congelamento que favorece exclusivamente o Irão, que mantém tudo o que tem enquanto recebe os benefícios dos artigos anteriores.
Artigo 10 — Isenções imediatas para exportação de petróleo iraniano.
Antes de qualquer acordo final, antes de qualquer compromisso nuclear verificável, o Irão volta a exportar petróleo livremente. Alívio económico imediato, sem contrapartida.
Artigo 11 — Libertação de fundos iranianos congelados.
Os EUA libertam ativos iranianos bloqueados no exterior à medida que as negociações avançam. Mais alívio económico antes do acordo final. O padrão é sempre o mesmo: o Irão recebe, depois negoceia.
Artigo 12 — Mecanismo de supervisão.
A definir. Sem detalhe, sem dentes, sem prazo. Num acordo onde o Irão já recebeu tudo antes de negociar, o mecanismo de supervisão é a última prioridade.
Artigo 13 — O artigo que Washington não quer que leia.
As negociações só começam depois de os EUA implementarem os artigos 4, 5, 10 e 11. O Irão recebe primeiro. Negocia depois. Se quiser.
Artigo 14 — Aprovação pelo Conselho de Segurança da ONU.
O acordo final precisa de resolução vinculativa. China e Rússia têm veto. Washington entregou o fecho do acordo aos seus adversários estratégicos.
Isto não é uma vitória americana. É uma retirada negociada, com o Irão de pé, o programa nuclear intacto, o Estreito reaberto sem contrapartidas reais, e os aliados do Golfo a pagar a reconstrução do país que os atacou.
Se isto não é uma capitulação, então alguém que me explique o que será?
A partilha deste post é importante, porque em Portugal a imprensa omitiu, até agora, estes 14 pontos, da versão norte-americana, o que se compreende porquê.
Fontes: Al-Arabiya (16 junho 2026); Bloomberg (17 junho 2026); Maariv (17 junho 2026); Seoul Economic Daily; Ynet News; Times of Israel; PBS NewsHour; The Hill; Iran International; AOL/Reuters.
Texto: post de Alcidio Torres para o Canal Arte da Guerra ( Comandante Robinson Farinazzo)
Imagens: Folha PE e Observatório de Política Externa.
