José Tavares de Araújo Neto
A recente declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que “nunca foi esquerdista” provocou críticas imediatas de alguns desavisados, que enxergaram na afirmação uma suposta negação de sua própria trajetória política. Nada mais equivocado. A reação evidencia a persistente confusão entre dois conceitos que, embora relacionados, não são sinônimos: ser de esquerda e ser esquerdista.
Essa distinção, muitas vezes negligenciada no debate público, é fundamental para uma compreensão mais madura da política. Ser de esquerda significa, em linhas gerais, defender maior justiça social, redução das desigualdades, fortalecimento dos direitos trabalhistas e um papel mais ativo do Estado na promoção do bem-estar coletivo. Trata-se de uma posição política legítima, que abriga diferentes correntes e graus de moderação.
Já o esquerdismo costuma designar uma postura marcada pelo dogmatismo ideológico, pelo sectarismo e pela recusa ao diálogo com ideias divergentes. O termo, frequentemente utilizado de forma crítica, refere-se menos a um posicionamento político e mais a uma atitude de militância inflexível, em que a fidelidade à doutrina prevalece sobre a análise concreta da realidade.
É perfeitamente possível defender valores tradicionalmente associados à esquerda sem adotar uma postura radical ou intolerante. Da mesma forma, alguém pode situar-se à direita sem ser extremista. A moderação, o pragmatismo e a capacidade de diálogo não pertencem a nenhuma ideologia específica; são virtudes indispensáveis à convivência democrática.
Quando Lula afirma que nunca foi esquerdista e que sempre foi um dirigente sindical, procura enfatizar uma trajetória construída pela negociação, pela busca de resultados concretos e pela formação de amplas alianças políticas. Ao longo de sua carreira, demonstrou reiteradamente um perfil pragmático, muitas vezes distante das ortodoxias ideológicas.
A controvérsia gerada por sua declaração revela, antes de tudo, a pobreza conceitual que marca boa parte do debate político contemporâneo. Rótulos substituem argumentos, e identidades ideológicas passam a valer mais do que a análise dos fatos.
A política democrática exige pensamento crítico e abertura ao contraditório. Ideologias devem servir como instrumentos para interpretar e transformar a realidade, jamais como prisões intelectuais. O radicalismo, seja de esquerda ou de direita, tende a empobrecer o debate público ao transformar adversários em inimigos e divergências em heresias.
Reconhecer a diferença entre esquerda e esquerdismo não é mero preciosismo semântico. É afirmar que uma posição política pode conviver com a autonomia de pensamento, com o pragmatismo e com a disposição para o diálogo. Talvez seja essa a principal lição da declaração presidencial: pertencer a um campo ideológico não implica abrir mão do senso crítico nem da liberdade de pensar.

# José Tavares é escritor e pesquisador do Cangaço
