José Tavares de Araújo Neto

Enquanto pesquisava a história e a cultura da cachaça, deparei-me com um vídeo do jornalista Henrique Rodrigues, do Portal de Notícias Fórum.

Seu comentário despertou em mim uma reflexão sobre o peso histórico da palavra “cachaceiro” e o preconceito que, há séculos, acompanha a cachaça, um dos mais autênticos símbolos da cultura brasileira.

Em seu comentário, o jornalista chama atenção para o uso recorrente da palavra “cachaceiro” como forma de atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A expressão foi empregada, entre outros, pelo senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, principal adversário de Lula nas disputas pela Presidência da República.

Antes de prosseguir na leitura, recomendo que você assista ao vídeo. Concorde ou não com as opiniões do jornalista, sua análise oferece um ponto de partida para a reflexão que proponho neste texto.

Em determinado momento, Henrique Rodrigues resume sua interpretação ao afirmar: “O termo ‘cachaceiro’, utilizado, na verdade, esconde uma outra coisa. Esse ‘cachaceiro’ é algo traduzível como ‘pobre’, ‘popular’, ‘do povão’.”

A frase sintetiza uma questão que merece ser analisada para além do calor da disputa política.

Ao longo dos séculos, “cachaceiro” deixou de designar apenas quem consome cachaça e passou a carregar uma forte carga de preconceito social.

Fora de contexto: Cachaça é associada à pobreza

Em muitos contextos, a palavra associa a cachaça e, por extensão, aqueles que a consomem, à pobreza, à falta de refinamento e à condição popular, reproduzindo uma visão que desvaloriza um dos mais autênticos patrimônios culturais do Brasil.

A história ajuda a compreender esse estigma. Nascida nos engenhos coloniais, no século XVI, a cachaça acompanhou a formação econômica, social e cultural do Brasil.

Foi a bebida dos trabalhadores, dos escravizados, dos tropeiros, dos vaqueiros, dos sertanejos e de milhões de brasileiros anônimos que, ao longo dos séculos, ergueram este país com o suor de seu trabalho.

Enquanto isso, vinhos, conhaques e, mais tarde, uísques importados eram elevados à condição de símbolos de distinção social. Não era a qualidade da bebida que estabelecia essa diferença, mas a posição social de quem a consumia.

Essa lógica permanece viva sob novas formas. O que muda é o rótulo.

Um apreciador de vinho pode ser chamado de enófilo; um conhecedor de uísque costuma ser visto como sofisticado; já quem aprecia a bebida genuinamente brasileira continua sendo, muitas vezes, reduzido ao termo “cachaceiro”, empregado de forma depreciativa.

O preconceito não está na bebida, mas na carga simbólica construída ao seu redor.

Concordo quando Henrique Rodrigues afirma que usar o termo “cachaceiro” como ofensa é uma “manifestação vira-lata”.

A expressão remete ao “complexo de vira-lata”, conceito criado pelo dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues para descrever a tendência de muitos brasileiros de desvalorizar aquilo que é nacional e supervalorizar tudo o que vem de fora.

No caso da cachaça, esse comportamento manifesta-se quando destilados estrangeiros são tratados como símbolos de sofisticação, enquanto a bebida genuinamente brasileira continua sendo alvo de preconceito e utilizada como instrumento de ofensa.

Também é importante separar os fatos das ofensas.

Consumir bebida alcoólica não caracteriza alcoolismo. A dependência do álcool é uma doença reconhecida pela medicina, cujo diagnóstico exige critérios clínicos, jamais slogans políticos ou insultos lançados em discursos e redes sociais.

Nas últimas décadas, historiadores, pesquisadores, produtores, mestres alambiqueiros e confrarias vêm trabalhando para resgatar a verdadeira dimensão da cachaça.

Hoje ela é objeto de pesquisas acadêmicas, roteiros turísticos, concursos internacionais e estudos sobre patrimônio cultural, ocupando o lugar que sempre lhe pertenceu na história do Brasil.

O propósito desta reflexão não é discutir política.

O vídeo de Henrique Rodrigues serve apenas como ponto de partida para abordar um tema muito mais amplo: o preconceito histórico que, ao longo dos séculos, foi construído em torno da cachaça e da palavra “cachaceiro”.

Quando “cachaceiro” é usado como insulto, não se procura apenas desqualificar um adversário político.

Reforça-se, consciente ou inconscientemente, uma antiga visão elitista que despreza um produto profundamente ligado à formação histórica, econômica e cultural do Brasil.

Como pesquisador e admirador da nossa cultura, vejo nessa discussão uma oportunidade de contribuir para a valorização de um dos maiores patrimônios culturais brasileiros.

Defender a cachaça não significa incentivar o consumo de álcool, nem tomar partido em disputas eleitorais.

Significa reconhecer o valor histórico, econômico, social e cultural de um produto que atravessou séculos, resistiu ao preconceito e permanece como uma das mais autênticas expressões da identidade nacional.

 José Tavares é escritor e pesquisador do Cangaço

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