José Tavares de Araújo Neto
“O estilo é o próprio homem.”—
Georges-Louis Leclerc, Conde de Buffon. Discurso pronunciado na Academia Francesa em 25 de agosto de 1753.
Vez por outra, sobretudo por leitores que não compartilham de minha visão de mundo, sou taxado de tendencioso.
A observação, longe de me incomodar, levou-me a refletir sobre a própria natureza da escrita.
Será que existe, de fato, um escritor completamente imparcial? Ou toda obra acaba revelando, consciente ou inconscientemente, a visão de mundo de quem a escreveu?
Responder a essas inquietações é o propósito das reflexões que seguem.
Escrever é muito mais do que reunir palavras. É um ato de exposição, ainda que involuntário. O escritor pode mudar o tema, o gênero ou a época da narrativa, mas jamais conseguirá esconder completamente quem é.
Toda obra carrega as digitais de seu autor. Elas não aparecem apenas no estilo, no vocabulário ou na construção das frases. Revelam-se, sobretudo, na maneira de enxergar a vida, interpretar os acontecimentos e compreender a condição humana.
Desse modo, compreendo que nenhum escritor é inteiramente imparcial. Sua visão da existência, seus valores, suas crenças, suas dúvidas e até seus preconceitos acabam encontrando espaço nas entrelinhas. Mesmo quando se propõe apenas a narrar fatos, é sua consciência que orienta o olhar, seleciona o que merece destaque e atribui significado aos acontecimentos.
As digitais do autor revelam-se também nos silêncios. O que ele decide não dizer pode ser tão revelador quanto aquilo que escreve. As omissões, os temas evitados e as perguntas sem resposta também fazem parte da identidade de uma obra.
Inquietações acompanham o escritor
Há escritores que retornam constantemente aos mesmos temas. Não por falta de imaginação, mas porque certas inquietações os acompanham por toda a vida.
A escrita também conserva a memória emocional de quem escreve. Traumas, perdas, medos e frustrações, assim como alegrias, esperanças, afetos e sonhos, moldam a narrativa. Cada experiência vivida acrescenta um novo traço às digitais do autor.
Nenhuma criação intelectual nasce em um vazio. Toda obra é influenciada pela formação do autor, pelo ambiente que o cerca, pelas leituras que realizou, pelos conflitos de seu tempo e pelas experiências que marcaram sua existência. Por mais que se esforce para ser imparcial, o escritor acaba revelando aspectos de sua personalidade e de sua visão de mundo.
A ideologia também deixa marcas. Não apenas quando o texto trata de política, mas na forma como o autor compreende a justiça, a liberdade, a religião, a família, o poder, a tradição e o progresso. Cada escolha revela uma maneira de pensar.
As digitais do autor aparecem em todos os gêneros literários e também nas diversas formas de escrita. Estão presentes na poesia, no romance, no conto, na crônica, no ensaio, nas memórias, nas biografias, na historiografia e em tantos outros modos de expressão. Cada gênero possui sua linguagem própria, mas todos revelam a sensibilidade, a formação intelectual e a maneira de compreender o mundo de quem os produz.
O historiador e o biógrafo escolhem os fatos. O romancista cria personagens. O cronista observa o cotidiano. O poeta transforma emoções em versos. O memorialista resgata lembranças. Em todos os casos, a interpretação da realidade carrega, inevitavelmente, as digitais de quem escreve.
Isso não significa que uma obra deva ser reduzida aos posicionamentos de seu autor, nem que seu valor dependa da concordância do leitor com suas ideias. Significa apenas que a criação intelectual nunca é completamente dissociada da consciência que a produz. Ler criticamente é reconhecer o valor de uma obra sem ignorar as marcas do tempo e da visão de mundo nela presentes.
Toda obra é, em certa medida, uma autobiografia invisível. Ainda que o escritor jamais fale de si, acaba revelando sua formação intelectual, suas leituras, suas experiências, seus afetos, suas inquietações e sua maneira de compreender o mundo. Cada página preserva fragmentos de sua consciência, tornando a escrita um retrato silencioso de quem a produziu.
A técnica pode ser aprendida. O talento pode ser aperfeiçoado. A voz de um escritor, porém, nasce de algo que nenhum manual ensina: da combinação entre inteligência, sensibilidade, memória e experiência.
É por isso que reconhecemos um grande autor mesmo sem ver sua assinatura. Antes do nome, reconhecemos sua maneira de pensar. Antes do estilo, reconhecemos sua forma de sentir.
Talvez seja essa a maior singularidade da escrita: transformar uma existência em permanência. As palavras sobrevivem ao tempo porque carregam muito mais do que ideias. Levam consigo as marcas de uma consciência, de uma época e de uma vida. São, em última análise, as digitais invisíveis de quem as escreveu.
# José Tavares é escritor e pesquisador do cangaço.
