José Tavares de Araújo Neto

Antes do massacre que destruiu a comunidade do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, localizada na Chapada do Araripe, no município do Crato, ocorrido em 11 de maio de 1937, dois episódios intimamente relacionados marcaram decisivamente a escalada do conflito entre os camponeses e as forças do Estado.

O primeiro desses episódios ocorreu em setembro de 1936, durante a primeira invasão policial ao Caldeirão. Na ocasião, morreu o cavalo Trancelim, animal sagrado para a comunidade e símbolo da ligação entre o Padre Cícero e o líder religioso Beato José Lourenço.

Sua morte acendeu a centelha de uma sequência de acontecimentos que culminaria no Massacre do Caldeirão.

O segundo aconteceu no domingo, 9 de maio de 1937, como reação dos seguidores do Beato José Lourenço às violências praticadas contra a comunidade, entre elas a morte de Trancelim.

Trancelim era um cavalo de fina linhagem, presenteado pelo Padre Cícero ao Beato José Lourenço. Por ter sido uma dádiva do “Padim Ciço”, venerado por milhares de sertanejos, o animal era considerado sagrado pelos moradores do Caldeirão.

Trancelim ocupava um lugar de profundo respeito na comunidade e simbolizava a proteção espiritual do Padre Cícero sobre seus seguidores.

Caldeirão é atacado por policiais e pelo Exército

Em setembro de 1936, durante a primeira invasão policial ao Caldeirão, o capitão José Gonçalves Bezerra protagonizou o episódio que mais abalou os fiéis.

Segundo a tradição preservada pelos sobreviventes e diversos relatos históricos, o oficial, sob efeito de bebida alcoólica, montou Trancelim e o submeteu a uma cavalgada violenta pelas ladeiras e pedregais da Chapada do Araripe, esporeando-o até a completa exaustão.

Recolhido à estrebaria, o animal morreu na madrugada seguinte em consequência dos maus-tratos sofridos.

Para os seguidores do Beato José Lourenço, a morte de Trancelim representou a profanação de um animal sagrado e uma afronta direta ao líder religioso.

A indignação provocada pelo episódio espalhou-se entre os camponeses e transformou-se em um dos principais fatores que alimentaram a ira dos fiéis contra o capitão José Gonçalves Bezerra e as forças responsáveis pela destruição do Caldeirão.

Meses depois, os camponeses souberam com antecedência que o capitão José Gonçalves Bezerra preparava uma nova investida contra a comunidade. Sob a liderança do Beato Severino Tavares, organizaram uma emboscada na Mata dos Cavalos.

No domingo, 9 de maio de 1937, a tropa foi surpreendida pelos seguidores do Beato José Lourenço. O confronto resultou na morte do capitão José Gonçalves Bezerra, do próprio Beato Severino Tavares e de outros combatentes de ambos os lados.

 

A notícia da morte do capitão José Gonçalves Bezerra espalhou-se rapidamente pelo Ceará e mobilizou as autoridades estaduais, que passaram a preparar uma grande ofensiva para eliminar definitivamente a resistência dos camponeses do Caldeirão.

Em 11 de maio de 1937, tropas da Polícia Militar, unidades do Exército e aeronaves cercaram a Chapada do Araripe para eliminar os últimos focos de resistência.

Seguiu-se um dos episódios mais trágicos da história social brasileira: o Massacre do Caldeirão. Centenas de sertanejos perderam a vida durante a ofensiva, embora o número exato de vítimas permaneça desconhecido.

Muitos corpos jamais foram localizados, perpetuando uma das mais profundas lacunas da memória histórica nacional.

A morte de Trancelim e a emboscada de 9 de maio de 1937 constituem capítulos inseparáveis dessa tragédia.

Entre os sobreviventes do Caldeirão, o sacrifício do cavalo permaneceu como o maior símbolo da violência e da humilhação impostas à comunidade.

A reação armada liderada pelo Beato Severino Tavares nasceu da necessidade de defender o Caldeirão de uma nova investida policial e foi alimentada pela revolta provocada pela morte do animal sagrado.

Por sua vez, a morte do oficial das Forças Públicas cearenses ofereceu ao Estado o argumento político para desencadear a ofensiva final que destruiu uma das mais notáveis experiências comunitárias do sertão nordestino.

José Tavares é escritor e pesquisador do cangaço

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