José Tavares de Araújo Neto

Publicado pela Editora Olyver, em 2021, De Princesa a New York: a história da Revolta de Princesa (PB) contada a partir das notícias do jornal The New York Times, de Hesdras Sérvulo Souto de Siqueira Campos Farias, é uma obra de pesquisa histórica que propõe uma abordagem original para um dos episódios mais marcantes da história política da Paraíba.

Ao tomar como fonte principal as reportagens publicadas pelo The New York Times durante o conflito de 1930, o autor desloca o foco da narrativa tradicional e convida o leitor a compreender como a Revolta de Princesa foi percebida pela imprensa internacional. Com isso, amplia significativamente o horizonte interpretativo desse importante acontecimento da história nordestina.

Na condição de incansável estudioso da Revolta de Princesa, li, ao longo dos anos, dezenas de livros, artigos, documentos e pesquisas dedicados a esse que é um dos episódios mais marcantes da história política da Paraíba. Poucos trabalhos, porém, partiram de uma pergunta tão simples quanto instigante: como um dos maiores jornais do mundo enxergou uma guerra travada no sertão paraibano?

Foi dessa inquietação que nasceu a obra do dileto amigo Hesdras Souto. Seu grande mérito está menos em recontar os acontecimentos da Revolta de Princesa e mais em reposicioná-los sob um ângulo pouco explorado, permitindo que o leitor acompanhe esse episódio histórico pelos olhos da imprensa estrangeira, mais precisamente pelas páginas do The New York Times.

Homenagens do autor: A dedicatória revela muito da personalidade intelectual de Hesdras Souto. Ela traduz as raízes afetivas, culturais e intelectuais que deram sustentação à pesquisa. Ao escolher aqueles a quem dedica sua obra, o autor revela também as referências que moldaram sua formação e os valores que orientam seu trabalho como pesquisador.

Entre essas homenagens, uma possui, para mim, significado muito especial. Tive o privilégio de cultivar sólida amizade com Paulo de Medeiros Gastão, a quem sempre admirei como escritor, pesquisador e fundador da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC), entidade da qual honrosamente hoje também faço parte.

Seu falecimento, em 3 de março de 2019, na cidade de Mossoró (RN), representou uma perda irreparável para todos os estudiosos da história sertaneja. Ao homenageá-lo como seu paciente guia pelas veredas infindáveis do conhecimento, Hesdras Souto presta tributo àquele que exerceu papel decisivo em sua formação como pesquisador.

O grande mestre Paulo Gastão, entretanto, não é o único homenageado. Hesdras Souto reverencia a lendária coragem do povo sertanejo e presta tributo a Zabé da Loca, Ignácio da Catingueira, Chico César, Ariano Suassuna e ao amor trágico de Anayde Beiriz e João Dantas, personagens que, cada um a seu modo, ajudaram a construir a identidade histórica e cultural do Nordeste.

Coronel Zé Pereira

O autor estende ainda sua homenagem ao heroico povo de Princesa e à memória daqueles que tombaram durante a Revolta de 1930. Recorda, igualmente, santos, profetas, beatas e beatos, mártires, cangaceiros e repentistas, compondo um verdadeiro mosaico da cultura sertaneja.

A dedicatória deixa claro que este livro não nasceu apenas de uma investigação documental, mas também de um profundo sentimento de pertencimento ao universo histórico e humano que procura retratar.

Os parceiros da caminhada

Nos agradecimentos, Hesdras evidencia que uma pesquisa dessa natureza jamais é fruto de um esforço solitário. O autor registra a colaboração de pesquisadores, historiadores, amigos, tradutores e instituições que contribuíram para a construção da obra, destacando o Centro de Pesquisa e Documentação do Pajeú (CPDoc-Pajeú) e as pessoas que facilitaram o acesso ao acervo do The New York Times.

Esse reconhecimento demonstra a dimensão coletiva do trabalho historiográfico e a importância das redes de colaboração na produção do conhecimento.

O olhar do prefaciador

Assinado por Aldo Manoel Branquinho Nunes, o prefácio não se limita aos elogios protocolares. O prefaciador destaca a sólida formação acadêmica de Hesdras Souto, sua preocupação com o rigor metodológico e, sobretudo, o caráter inovador da pesquisa. Segundo ele, não conhece outro estudo que tenha reunido, traduzido e analisado, de maneira sistemática, todas as reportagens do The New York Times sobre a Revolta de Princesa.

Ressalta, ainda, que a obra amplia significativamente o horizonte interpretativo desse conflito ao revelar como ele foi percebido pela imprensa internacional. Sua avaliação confere credibilidade ao trabalho e evidencia a relevância da contribuição de Hesdras Souto para a historiografia da Revolta de Princesa.

As razões da pesquisa

Na apresentação, Hesdras aproxima o leitor de sua própria trajetória intelectual. Relata como nasceu seu interesse pela Revolta de Princesa, em 2013, e critica a reduzida presença dos grandes acontecimentos históricos do Nordeste nos currículos escolares brasileiros. Defende que episódios como Canudos, Juazeiro, o Cangaço e a própria Revolta de Princesa merecem maior espaço na historiografia nacional.

É também nesse texto que o autor explicita o propósito central da obra: reconstruir a Revolta de Princesa a partir da cobertura do The New York Times, confrontando essa documentação com a historiografia brasileira. Ao fazê-lo, demonstra que a pesquisa histórica se fortalece quando diferentes fontes dialogam entre si, permitindo interpretações mais amplas, críticas e consistentes.

Capítulo 1

Um resumo da Parahyba e do Nordeste entre as décadas de 20 e 30

O primeiro capítulo oferece o pano de fundo histórico indispensável para a compreensão da Revolta de Princesa. O autor apresenta a estrutura política da Primeira República, o funcionamento do coronelismo, a hegemonia das oligarquias estaduais, a crise da política do café com leite e o surgimento da Aliança Liberal.

Demonstra como esse conjunto de fatores preparou o ambiente para os conflitos políticos que culminariam na Revolução de 1930 e, em escala regional, na Revolta de Princesa. Trata-se de um capítulo essencial para que o leitor compreenda que o conflito não surgiu de forma isolada, mas inserido em uma profunda crise política nacional.

Capítulo 2

A Parahyba sob o governo de João Pessoa

Neste capítulo, Hesdras examina o governo de João Pessoa, suas reformas administrativas e o enfrentamento às antigas estruturas coronelistas. Em paralelo, apresenta a trajetória política de José Pereira, principal líder de Princesa, revelando como o choque entre esses dois projetos de poder tornou inevitável o conflito armado.

O capítulo demonstra que a Revolta não foi um episódio isolado, mas resultado de tensões políticas acumuladas ao longo dos anos. Ao analisar as decisões do governo estadual e as reações das lideranças sertanejas, o autor oferece ao leitor elementos indispensáveis para compreender as causas imediatas da guerra que se desenrolaria em 1930.

Capítulo 3

Princesa, a origem

Antes de conduzir o leitor ao cenário da guerra, Hesdras Souto dedica um capítulo à história do município de Princesa. Resgata suas origens, sua evolução administrativa, a mudança do nome para Princesa Isabel e sua posição geográfica estratégica na divisa entre a Paraíba e Pernambuco.

Longe de constituir um simples levantamento histórico, esse capítulo demonstra que a compreensão da Revolta de 1930 exige, antes de tudo, o conhecimento da formação política, econômica e social da cidade. Ao contextualizar o espaço onde o conflito ocorreu, o autor oferece ao leitor elementos essenciais para compreender por que Princesa se tornou o principal foco de resistência ao governo de João Pessoa.

Capítulo 4

A Revolta de Princesa narrada pelo The New York Times

Este é, sem dúvida, o núcleo da obra e a razão de sua originalidade. Hesdras Souto reúne, traduz, organiza cronologicamente e analisa as reportagens publicadas pelo The New York Times sobre a Revolta de Princesa, confrontando-as com a historiografia brasileira e outras fontes documentais.

O resultado é um diálogo permanente entre o olhar da imprensa internacional e a interpretação construída pelos historiadores brasileiros.

Cada reportagem recebe comentários que permitem compreender seu contexto, suas limitações e sua importância como documento histórico. Com isso, o autor evita tanto a simples reprodução das notícias quanto sua aceitação acrítica, oferecendo ao leitor uma anáTenente

lise equilibrada.

Tenente Arruda e Zé Pereira

As matérias publicadas pelo jornal norte-americano revelam a evolução do conflito desde os primeiros confrontos até seus desdobramentos finais.

Na primeira reportagem, intitulada “Brasil nega revolta no Estado da Parahyba”, observa-se a tentativa inicial de minimizar os acontecimentos, tratando-os como uma disputa política regional.

As notícias seguintes registram a intensificação dos combates, o crescimento do número de mortos, a resistência das tropas de José Pereira, a utilização da aviação militar contra os revoltosos e a crescente repercussão internacional do conflito.

Especial atenção merece a cobertura do assassinato de João Pessoa, episódio que extrapolou os limites da política paraibana e contribuiu decisivamente para o ambiente que culminaria na Revolução de 1930. O The New York Times acompanhou atentamente essas repercussões, revelando que os acontecimentos ocorridos no sertão nordestino despertavam interesse muito além das fronteiras brasileiras.

Ao longo desse extenso capítulo, Hesdras Souto demonstra notável capacidade de interpretação histórica. Sua análise não procura confirmar previamente uma narrativa, mas confrontar versões, comparar documentos e oferecer ao leitor instrumentos para construir sua própria compreensão dos fatos.

Essa postura metodológica constitui uma das maiores virtudes da obra.

Destinos

No capítulo final, o autor acompanha os destinos dos principais personagens envolvidos na Revolta de Princesa após o encerramento do conflito. A narrativa evidencia que a derrota militar não significou o fim das consequências políticas, sociais e humanas produzidas pela guerra.

Ao acompanhar a trajetória dos protagonistas, Hesdras demonstra que os acontecimentos de 1930 continuaram influenciando a vida política regional por muitos anos. O conflito deixou marcas profundas na memória coletiva do sertão e passou a integrar definitivamente a história política da Paraíba.

Bibliografia: A obra encerra-se com uma bibliografia consistente, reunindo livros, artigos, documentos e outras fontes que sustentam a pesquisa. A seleção das referências evidencia o rigor metodológico do autor e oferece ao leitor um excelente roteiro para aprofundar os estudos sobre a Revolta de Princesa, o coronelismo, a Primeira República e a Revolução de 1930.

Mais do que cumprir uma exigência acadêmica, a bibliografia revela o amplo diálogo estabelecido por Hesdras Souto com pesquisadores que, ao longo das últimas décadas, contribuíram para a compreensão desse importante episódio da história nordestina.

Considerações finais

De Princesa a New York ocupa posição singular entre as obras dedicadas à Revolta de Princesa. Seu principal mérito não consiste apenas em traduzir e reunir as reportagens publicadas pelo The New York Times, mas em demonstrar que um conflito travado no sertão paraibano despertou a atenção de um dos mais influentes jornais do mundo.

Ao deslocar o foco da narrativa para a cobertura da imprensa internacional, Hesdras Souto amplia significativamente o horizonte interpretativo desse episódio histórico. Seu trabalho evidencia que acontecimentos aparentemente regionais podem adquirir dimensão internacional quando inseridos em contextos políticos mais amplos.

Outro aspecto digno de destaque é o equilíbrio entre pesquisa documental e qualidade narrativa. Embora fundamentado em ampla documentação, o texto preserva linguagem clara, fluida e acessível, permitindo que a obra dialogue tanto com pesquisadores quanto com leitores interessados na história do Nordeste.

Em uma época marcada pela rapidez das informações e pela superficialidade de muitas interpretações históricas, Hesdras Souto demonstra que o rigor da pesquisa continua sendo o caminho mais seguro para a construção do conhecimento. Seu livro reafirma a importância da investigação documental, da análise crítica das fontes e do permanente diálogo entre diferentes perspectivas historiográficas.

Ao concluir a leitura, permanece a convicção de que De Princesa a New York não apenas amplia o conhecimento sobre a Revolta de Princesa, mas também oferece uma valiosa reflexão sobre a própria escrita da História. Ao revelar como a imprensa internacional acompanhou os acontecimentos de 1930, Hesdras Souto recorda ao leitor que a História jamais se constrói a partir de uma única voz. Ela resulta do encontro, da comparação e, muitas vezes, do confronto entre diferentes olhares sobre um mesmo acontecimento.

Por sua originalidade, consistência documental e qualidade analítica, De Princesa a New York firma-se como leitura indispensável para estudiosos da Revolta de Princesa, pesquisadores da história política brasileira e todos aqueles que desejam compreender como um episódio ocorrido no sertão da Paraíba alcançou repercussão internacional e conquistou espaço nas páginas do The New York Times.

# José Tavares é escritor e pesquisador da Revolta de Princesa

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