José Tavares de Araújo Neto

Um dos capítulos de A Coluna Prestes no Estado da Paraíba: Combates, Documentos e Narrativas é dedicado a entrevista de Manuel Arruda de Assis, concedida em 1979 ao Projeto História Política da Paraíba, da Universidade Federal da Paraíba.

Em fevereiro de 1926, Manuel Arruda era sargento da Força Pública da Paraíba e participou diretamente da defesa de Piancó durante a passagem da Coluna Prestes.

Seu testemunho ajuda a compreender como a cidade se preparou para enfrentar a Coluna Prestes. Segundo Arruda, o destacamento local dispunha de apenas quinze homens, efetivo insuficiente para enfrentar uma tropa muito superior.

Ao tomar conhecimento da aproximação da Coluna, o padre Aristides entrou em contato com o comando militar em Patos e colocou à disposição do governo cerca de quatrocentos homens. Também enviou mensageiros para diversas localidades convocando reforços. Na prática, porém, não houve tempo para reunir esse contingente antes da chegada dos revolucionários.

Clima de tensão em Piancó

Manuel Arruda descreve ainda o clima de tensão que tomou conta de Piancó após a ocupação de Coremas. Muitas famílias deixaram a cidade durante a noite, enquanto os defensores organizavam piquetes para retardar o avanço da Coluna. Segundo ele, percorreu as posições de defesa durante toda a madrugada.

O depoimento registra a chegada de um soldado que conseguira escapar de Coremas. Ao descrever o efetivo da Coluna Prestes, resumiu a situação numa frase que Manuel Arruda jamais esqueceu: “É gente como folha. É gente como formiga. Como um formigueiro assanhado.”

Um dos pontos centrais do testemunho diz respeito ao início do combate. Segundo Arruda, após os primeiros disparos, os defensores solicitaram uma trégua e hastearam uma bandeira branca para negociar a rendição. Quando todos acreditavam que o combate havia cessado, partiram tiros das posições ocupadas pela Coluna Prestes, reiniciando o confronto. Essa versão diverge de outras narrativas publicadas ao longo dos anos e constitui uma das principais controvérsias sobre o combate de Piancó.

O sargento também apresenta sua versão sobre os acontecimentos posteriores à ocupação da cidade, contestando interpretações sobre a atuação do padre Aristides e sobre as circunstâncias das mortes ocorridas após o encerramento da resistência.

Como toda fonte oral produzida mais de cinquenta anos depois dos acontecimentos, o depoimento não foi utilizado de forma isolada. No livro, ele é confrontado com telegramas oficiais, jornais da época e outros documentos contemporâneos, permitindo ao leitor comparar versões e compreender melhor um dos episódios mais marcantes da passagem da Coluna Prestes pela Paraíba.

# José Tavares é escritor e historiador pombalense.

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