José Tavares de Araújo Neto
Poucos personagens da cultura popular nordestina despertam tanta curiosidade quanto Zé Limeira, conhecido como o Poeta do Absurdo. Sua história reúne realidade, memória oral, humor e criação literária. Mas, para compreender quem foi esse sujeito que entrou para o imaginário da poesia popular brasileira, é preciso separar o homem do personagem construído em torno de seu nome.
Zé Limeira nasceu em 1886, no sítio Tauá, município de Teixeira, no sertão paraibano. Sua trajetória, entretanto, está longe da figura extraordinária que se tornou conhecida por meio dos versos publicados por Orlando Tejo.
Orlando Tejo, escritor, jornalista e folclorista paraibano, publicou Zé Limeira, o Poeta do Absurdo (1973), obra que transformou aquele homem de existência modesta numa das figuras mais extraordinárias da poesia popular nordestina. Foi a partir de suas narrativas que Zé Limeira passou a ser conhecido por versos desconcertantes, imagens impossíveis, situações absurdas e rimas que pareciam não obedecer às regras da realidade.
A poesia atribuída a Zé Limeira apresenta características que permitem uma aproximação com a estética surrealista. O nonsense, o humor, as associações inesperadas e as imagens desconcertantes rompem com a lógica cotidiana e criam situações em que o absurdo ganha vida própria.
A construção literária de Tejo, entretanto, não deve ser confundida com um registro documental da produção poética de um repentista. Boa parte dos poemas atribuídos a Zé Limeira teria sido criada pelo próprio escritor e por outros poetas que frequentavam os ambientes boêmios e culturais de Campina Grande.
Essa tese foi defendida por Bráulio Tavares, escritor, compositor e pesquisador da cultura popular e amigo de Tejo. Em entrevista ao suplemento Correio das Artes, do jornal A União, em julho de 2018, ele destacou o papel de Orlando Tejo na consolidação da lenda e na construção do personagem. Observou, ainda, que versos de outros cantadores acabaram incorporados ao repertório atribuído a Zé Limeira.
Um testemunho particularmente interessante é o do repentista pombalense Belarmino de França. Após a publicação do livro de Orlando Tejo e a popularização do personagem, Belarmino revelou que conhecera Zé Limeira e convivera com ele durante a construção do açude de Bodocongó, em Campina Grande, em meados da década de 1910. Na época, Belarmino trabalhava como apontador, enquanto Limeira era operário braçal.
Ao recordar aquele período, Belarmino descreveu Limeira como um homem negro, analfabeto de pai e mãe e de poucos recursos poéticos. Na sua avaliação, era um poeta muito ruim, que pouco sabia de cantoria e despertava pouco interesse dos outros repentistas para uma peleja. Segundo sua lembrança, quando alguém queria se referir a um poeta de qualidade duvidosa, dizia simplesmente que era um Zé Limeira. Seu nome teria se transformado, assim, numa expressão para identificar quem não tinha talento para o repente.
Belarmino também recordava uma característica que chamava a atenção. A viola de Zé Limeira tinha as cordas frouxas, desafinadas e era bastante enfeitada com fitas coloridas. A aparência do instrumento parecia muito mais impressionante do que a habilidade de seu dono para produzir versos.
Outro testemunho importante veio de Lourival Batista, o lendário Louro do Pajeú, um dos grandes nomes da cantoria nordestina. Em depoimento publicado em 1976, ele afirmou ter cantado com Zé Limeira e confirmou que o conhecia pessoalmente. Ao mesmo tempo, contestou a autoria de grande parte dos versos publicados no livro de Orlando Tejo.
A influência de Zé Limeira ultrapassou as fronteiras da cantoria e alcançou diferentes gerações da música popular brasileira. Belchior incorporou à canção Sujeito de Sorte o conhecido verso atribuído ao poeta, “Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”, posteriormente retomado por Emicida na música AmarElo, com as vozes de Pabllo Vittar e Majur.
Zé Ramalho também bebeu na fonte de Limeira
Zé Ramalho também estabeleceu uma relação direta com esse universo, compondo Visões de Zé Limeira sobre o final do século XX e participando da construção de uma peleja imaginária com o poeta. Alceu Valença e Ave Sangria são outros nomes que dialogaram com a irreverência e a imaginação limeirianas.
Mestre Ambrósio chegou a dedicar-lhe a canção Se Zé Limeira Sambasse Maracatu, enquanto o Quinteto Violado aproveitou uma de suas palavras inventadas para batizar o disco Pilogamia do Baião. As Bastianas, banda paraibana, também fizeram referência ao poeta na música Zé Limeira.com.
Um estudo de Pedro Araújo Oliveira, publicado em 2022, examinou justamente a presença de Zé Limeira no imaginário do cancioneiro brasileiro e as relações entre a cultura oral e a produção musical de compositores.
O mais interessante nessa história é perceber como um homem que, segundo a lembrança de Belarmino de França, não tinha grande habilidade como repentista acabou transformado numa referência da poesia popular brasileira.
Orlando Tejo encontrou naquele personagem uma matéria-prima extraordinária para a criação literária. Deu-lhe versos, aventuras, características e uma personalidade que ultrapassaram qualquer registro biográfico convencional.
O que Orlando Tejo fez foi transformar uma figura da vida real numa personagem de dimensão mítica.
E talvez esteja aí a maior ironia dessa história. Um homem lembrado por alguns de seus contemporâneos como um cantador sem grandes qualidades poéticas acabou se tornando, pela pena de um escritor, um dos poetas mais conhecidos e irreverentes da cultura nordestina.
# José Tavares é escritor e historiador.
