José Tavares de Araújo Neto
Luís da Câmara Cascudo nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte, em 30 de dezembro de 1898, e faleceu na mesma cidade, em 30 de julho de 1986. Historiador, folclorista, etnógrafo e escritor, dedicou grande parte de sua vida ao estudo da história e da cultura brasileira, com atenção especial ao Nordeste.
Sua produção abrange história, folclore, literatura oral, etnografia, alimentação, costumes, religiosidade, cultura material e memória. Ao longo de décadas, reuniu informações provenientes de livros, documentos, correspondências, relatos e da observação das manifestações culturais de seu tempo.
Sua obra permanece como fonte indispensável de consulta para pesquisadores interessados na formação cultural nordestina.
O estudo da cultura sertaneja
Em Vaqueiros e Cantadores, publicado em 1939, Cascudo estudou duas figuras importantes da cultura sertaneja: o vaqueiro e o cantador.
A obra reúne informações sobre a pecuária, os aboios, os desafios poéticos, os romances tradicionais e outras manifestações da literatura oral. O livro registra aspectos da sociedade sertaneja e da tradição dos cantadores, responsáveis pela transmissão de histórias, acontecimentos e experiências por meio da poesia.
Cascudo também dedicou atenção à literatura transmitida oralmente. Em Literatura Oral no Brasil, estudou contos, lendas, provérbios, adivinhas, romances e outras formas de expressão popular.
Seu interesse pela oralidade foi importante para o registro de manifestações culturais que dependiam da transmissão entre gerações.

O Dicionário do Folclore Brasileiro
Entre suas obras mais conhecidas está o Dicionário do Folclore Brasileiro, publicado originalmente em 1954.
Cascudo reuniu informações sobre festas, danças, crenças, lendas, personagens populares, práticas religiosas, instrumentos musicais, costumes e diversas outras manifestações culturais.
O trabalho resultou de décadas de pesquisa e de contatos com estudiosos de diferentes regiões. O dicionário passou por novas edições e tornou-se uma das principais obras de referência sobre o folclore brasileiro.
Em Geografia dos Mitos Brasileiros, publicada em 1947, Cascudo examinou personagens e narrativas presentes na tradição popular, procurando identificar sua distribuição e suas características em diferentes regiões do país.
Cascudo e a história regional
A produção de Cascudo não se limitou ao folclore.
Em História da Cidade do Natal, publicada originalmente em 1947, estudou a formação da capital potiguar, seus espaços, instituições e transformações.
Em História do Rio Grande do Norte, publicada em 1955, tratou da formação histórica do estado. Também escreveu sobre a presença holandesa no Rio Grande do Norte e sobre diferentes personagens e episódios da história regional.
Cascudo desenvolveu ainda uma relação intelectual importante com Mossoró. Em Notas e Documentos para a História de Mossoró, reuniu informações sobre a história da cidade. A obra integra um conjunto de trabalhos que o aproximou da história mossoroense. Estudos posteriores identificaram nele um dos principais escritores responsáveis pela construção e divulgação de uma determinada memória histórica de Mossoró.
O pombalense Jerônimo Rosado

Entre os trabalhos de Cascudo relacionados ao Rio Grande do Norte está uma obra que interessa particularmente à história de Pombal, na Paraíba: Jerônimo Rosado (1861-1930): uma ação brasileira na província.
Jerônimo Ribeiro Rosado nasceu em Pombal, na Paraíba, em 8 de dezembro de 1861. Formou-se em Farmácia no Rio de Janeiro e iniciou sua atividade profissional em Catolé do Rocha. Em 1891, mudou-se para Mossoró, onde desenvolveu sua trajetória profissional e participou da vida pública do município.
Câmara Cascudo escreveu a biografia de Jerônimo Rosado a convite de Vingt-un Rosado. A obra foi escrita em 1966 e publicada pela Editora Pongetti, no Rio de Janeiro, em 1967. Possui 220 páginas na edição original.
O livro tem importância para a história de Mossoró, mas também para a memória de Pombal, por registrar a trajetória de um homem nascido no sertão paraibano que se transferiu para o Rio Grande do Norte e passou a exercer importante atividade profissional e pública em Mossoró.
A pesquisa de Cascudo acompanha a vida de Jerônimo Rosado e sua atuação na cidade. Estudos posteriores utilizaram a biografia como uma das principais fontes para analisar a trajetória do personagem e a construção de sua memória pública.
A obra também merece atenção por outro motivo. Ela demonstra o interesse de Cascudo por biografias de personagens ligados à história regional. Ao escrever sobre Jerônimo Rosado, não tratou apenas da trajetória individual do farmacêutico pombalense. Relacionou sua vida à história de Mossoró e ao processo de desenvolvimento da cidade.
A bibliografia sobre Jerônimo Rosado registra ainda trabalhos posteriores de Cascudo, entre eles Jerônimo Rosado e a Estrada de Ferro de Mossoró.
Assim, Jerônimo Rosado deve ser incluído entre as obras de Cascudo que interessam diretamente à história do Nordeste e, particularmente, às relações históricas entre Paraíba e Rio Grande do Norte.
A alimentação como fonte de cultura
Em História da Alimentação no Brasil, publicada em dois volumes, em 1967 e 1968, Cascudo estudou a formação dos hábitos alimentares brasileiros.
Examinou ingredientes, técnicas de preparo, utensílios, costumes e influências indígenas, africanas e portuguesas.
A obra também registra aspectos da alimentação nordestina e mostra como os hábitos alimentares podem ser utilizados para compreender relações sociais, econômicas e culturais.
Esse interesse pelo cotidiano aparece em outras obras, como Rede de Dormir, Jangada: uma pesquisa etnográfica e História dos Nossos Gestos.
A relação com Mário de Andrade

Cascudo manteve uma longa correspondência com Mário de Andrade, iniciada em 1924.
Os dois trocaram informações sobre literatura, folclore, música e cultura popular. Mário de Andrade esteve em Natal entre dezembro de 1928 e janeiro de 1929, durante sua viagem pelo Nordeste, e manteve contato direto com Cascudo.
A correspondência entre os dois escritores constitui importante documento para compreender parte da vida intelectual brasileira nas décadas de 1920 e 1930.
O Nordeste como objeto de pesquisa
Uma característica marcante de Cascudo foi o interesse pelas manifestações culturais presentes no cotidiano.
Ele pesquisou cantorias, festas, crenças, lendas, provérbios, alimentação, objetos, gestos e costumes.
Esse conjunto de informações possui importância para o estudo do Nordeste porque muitas dessas manifestações eram transmitidas principalmente pela oralidade.
O pesquisador registrou práticas encontradas em diferentes comunidades e períodos. Parte desse material permite comparar costumes antigos com manifestações que chegaram até o presente.
Uma obra que deve ser lida criticamente
A importância de Cascudo não significa que sua obra deva ser aceita sem análise crítica.
Ele escreveu em um período diferente do atual e utilizou métodos e conceitos próprios de seu tempo. Algumas de suas interpretações sobre a origem e a permanência das tradições populares foram posteriormente revistas por historiadores, antropólogos e estudiosos da cultura.
Também é necessário distinguir sua produção como folclorista e estudioso da cultura popular de sua produção historiográfica.
Pesquisas acadêmicas posteriores têm analisado justamente esses aspectos da obra cascudiana. Estudos sobre sua produção histórica mostram que sua atuação como historiador regional apresenta características próprias e deve ser examinada dentro do contexto intelectual em que foi produzida.
Essa leitura crítica não diminui sua importância. Permite compreender melhor o alcance e os limites de sua contribuição.
Um legado que permanece
Luís da Câmara Cascudo deixou uma das maiores obras individuais dedicadas ao estudo da cultura brasileira.
No Nordeste, seu legado alcança diferentes áreas. Vaqueiros e Cantadores documenta aspectos da cultura sertaneja. Dicionário do Folclore Brasileiro reúne informações sobre manifestações populares de todo o país. Literatura Oral no Brasil registra formas de transmissão da tradição. História da Alimentação no Brasil estuda os hábitos alimentares. História da Cidade do Natal e História do Rio Grande do Norte tratam da história regional.
E Jerônimo Rosado (1861-1930): uma ação brasileira na província acrescenta a esse conjunto uma biografia ligada diretamente à história de Mossoró e à trajetória de um personagem nascido em Pombal, na Paraíba.
Quarenta anos depois de sua morte, seus livros continuam sendo consultados por pesquisadores da história e da cultura nordestina.
O tempo modificou os métodos de pesquisa e produziu novas interpretações. Muitas questões estudadas por Cascudo também passaram a ser examinadas por outras perspectivas.
Seu trabalho, entretanto, permanece como importante documentação sobre costumes, tradições e personagens que fizeram parte da vida brasileira durante os séculos XIX e XX.
Câmara Cascudo dedicou sua vida a registrar essa realidade.
É nesse conjunto de livros, documentos, pesquisas e registros da cultura popular que está a dimensão principal de seu legado.
Principais obras de Luís da Câmara Cascudo
Alma Patrícia — 1921
Vaqueiros e Cantadores — 1939
Antologia do Folclore Brasileiro — 1943
Geografia dos Mitos Brasileiros — 1947
História da Cidade do Natal — 1947
Os Holandeses no Rio Grande do Norte — 1949
Literatura Oral no Brasil
Dicionário do Folclore Brasileiro — 1954
História do Rio Grande do Norte — 1955
Jangada: uma pesquisa etnográfica — 1957
Rede de Dormir — 1959
Made in Africa — 1965
Jerônimo Rosado (1861-1930): uma ação brasileira na província — 1967
História da Alimentação no Brasil — 1967-1968
Tradição, Ciência do Povo — 1971
História dos Nossos Gestos — 1976
#José Tavares é escritor e pesquisador do Cangaço.
