José Tavares de Araújo Neto

Há um tipo de militância que já não se sustenta pelo argumento, nem pelo debate, nem pelo mínimo compromisso com a verdade. Prefere o atalho da fraude. Vive de espalhar falsidades digitais como quem lança detritos ao vento, sem autoria, sem coragem e sem responsabilidade.

Circulam vídeos e áudios visivelmente fora de contexto, quando não claramente fabricados. Em alguns casos, trata-se de deepfakes, montagens sofisticadas que substituem rostos e vozes com o auxílio da inteligência artificial, criando cenas que jamais existiram.

Em outros, são shallowfakes, ainda mais reveladores da má-fé, como vídeos desacelerados, cortes estratégicos ou frases arrancadas do seu tempo e do seu sentido original.

Há também a adulteração grosseira, a montagem mal disfarçada, a contrafação descarada. Tudo se acomoda nesse amplo repertório da falsidade digital.

Entre essas práticas, destaca-se o corte deliberado de vídeos para distorcer o contexto.

Fragmentos são isolados, frases são arrancadas do encadeamento do discurso e reapresentadas como se expressassem o oposto do que foi dito.

Recentemente, isso se viu em um vídeo do presidente da República sobre educação, no qual ele descrevia como a população pobre era tratada em períodos anteriores. O trecho, ao ser recortado e deslocado do seu sentido original, passou a circular como se fosse apologia da desigualdade.

Na verdade, tratava-se de uma denúncia histórica e de uma comparação crítica. O método não busca esclarecer, mas confundir.

O que mais impressiona não é apenas a técnica empregada, mas o desassombro moral. Pessoas que ocupam cargos de destaque na sociedade, ou que se apresentam como referências públicas, políticas, religiosas ou intelectuais, rebaixam-se voluntariamente a esse expediente.

Divulgam material inautêntico ou manipulam conteúdos reais sem qualquer escrúpulo, como se o fim justificasse todos os meios, inclusive a corrosão deliberada do espaço público.

Há, porém, um erro elementar nessa prática. Quem publica esse tipo de conteúdo imagina estar desmoralizando o outro. Na realidade, expõe a si mesmo.

A falsidade não revela o alvo do ataque, revela o caráter de quem ataca. Cada montagem compartilhada, cada áudio adulterado, cada vídeo cortado para enganar funciona como um espelho moral, refletindo a pobreza de argumentos, o desespero retórico e a incapacidade de conviver com a complexidade dos fatos.

A mentira digital pode viralizar, mas não produz grandeza. Não convence consciências maduras. Não constrói legado. Serve apenas para revelar o verdadeiro caráter de quem já desistiu da verdade e passou a militar na lama da fraude.

São indivíduos obcecados por parecer virtuosos, que investem na construção de uma imagem pública asseada enquanto escondem, com empenho quase patológico, a sujeira moral que carregam dentro de si.

Quanto mais gritam moralidade, mais denunciam a própria falência ética. A encenação é o disfarce. A mentira, o método. E a falsificação, o retrato fiel do que são.

#José Tavares é escritor e Pesquisador

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