Por Gilmar Teixeira

Há pessoas que não precisam de palco nem de holofote para se destacar. Basta que comecem a falar. Nos encontros realizados ao longo do ano, quando os temas são o Cangaço e o Nordeste profundo, é assim que acontece com José Tavares. O burburinho cessa, as cadeiras se ajeitam, os olhares se voltam. Não é formalidade: é respeito. Todos sabem que ali não se escuta opinião rasa, mas história dita com propriedade, memória sustentada por estudo e vivência.

Quando o assunto é o sertão paraibano, o Cangaço ou a Revolta de Princesa — aquela que teve à frente o coronel José Pereira — José Tavares se torna uma espécie de guia do tempo. Suas palavras conduzem o ouvinte por veredas poeirentas, emboscadas silenciosas, acordos de coronéis e resistências que moldaram o Nordeste. Não há exagero nem romantização fácil; há verdade, contextualização e, sobretudo, respeito pelos fatos. É uma aula de história ao vivo, daquelas que não se aprendem apenas nos livros.

Esse domínio não surgiu por acaso. Nascido em Pombal, em 24 de março de 1959, José Tavares cresceu em um ambiente onde a memória era cultivada como herança sagrada. Filho de Félix Tavares de Araújo e Gildeth Nóbrega de Araújo, teve o privilégio de ouvir, desde cedo, as narrativas da avó Lourdes Benigno e do pai Félix. Histórias contadas ao pé da conversa, carregadas de lembranças reais, que despertaram nele o fascínio pelos sertões nordestinos e por seus personagens contraditórios: cangaceiros, coronéis, homens comuns atravessados por tempos extraordinários.

Engenheiro Agrônomo de formação, servidor público dedicado, com longa atuação na extensão rural e na administração pública de diversos municípios paraibanos, José Tavares nunca se afastou do chão do sertão. Talvez por isso sua escrita e sua fala tenham esse cheiro de terra molhada depois da seca: são técnicas, mas humanas; eruditas, sem perder o tom da conversa.

Na literatura e na pesquisa histórica, construiu um caminho sólido e respeitado. Publicou artigos, ensaios e estudos em importantes portais dedicados à memória nordestina, escreveu obras em parceria e alcançou reconhecimento com o livro “Ulysses Liberato, um Cangaceiro a serviço do Major José Inácio do Barro”, que lhe rendeu a comenda de Escritor Destaque 2023 em Pombal. Mais recentemente, consolidou sua maturidade intelectual com o livro solo “A Odisseia José Américo de Almeida na Revolta de Princesa”, obra que aprofunda e ilumina um dos episódios mais emblemáticos da história paraibana.

Membro ativo de academias, conselhos e grupos de estudo dedicados ao Cangaço, José Tavares ocupa hoje um lugar que vai além dos títulos: é referência. É o pesquisador que fala com a autoridade de quem estudou, mas também de quem ouviu, viveu e respeitou as fontes da memória oral.

José Tavares não apenas estuda a história do Nordeste — ele a mantém viva. Em cada encontro, em cada fala, ele reafirma que o sertão não é passado esquecido, mas presente que ainda nos explica. E enquanto houver quem pare para ouvi-lo, a história continuará pulsando, ensinando e resistindo, exatamente como o povo nordestino sempre fez.

* Gilmar Teixeira é um renomado escritor, pesquisador, documentarista e membro da Academia de Letras de Paulo Afonso (ALPA) (Cadeira 8), com forte atuação na preservação da memória histórica e cultural do sertão e do cangaço. Graduado em História, cinema e teologia, ele é autor de livros como “Piranhas no Tempo do Cangaço” e produções audiovisuais.

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