Por Jerdivan Nobrega de Araujo

A poeira das estradas que cortavam o sertão ainda tremulava no ar, misturada ao aroma seco da caatinga. Tropas de mulas e raros automóveis desafiavam aqueles caminhos precários de terra batida, carregando o algodão, a farinha e a rapadura produzidos naqueles rincões. A dificuldade de escoamento por vias tão provisórias encarecia a produção e inflacionava o custo de vida do sertanejo. Somava-se a isso o penoso deslocamento das pessoas, amontoadas em velhos ônibus que mais pareciam diligências do Velho Oeste.

A estrada de ferro prometia mudar aquela realidade. E a ponte que a se sustentaria sobre o rio Piancó carregava, em seus pilares, o símbolo dessa transformação.

Era domingo, 18 de janeiro de 1942. Enquanto o Diário de Pernambuco noticiava uma guerra distante em mares e desertos alheios, às margens do Piancó, em Pombal, travava-se outra batalha, secular e silenciosa: a guerra contra a distância e o isolamento. A nova ponte se impunha no horizonte, um gigante de ferro, cimento e alvenaria. Cento e setenta metros de comprimento, seis de largura útil.

Para os olhos da capital, representava um custo de 800 contos de réis. Para o povo que se aglomerava para vê-la, era um sonho antigo materializado. A promessa de que as riquezas do hinterland nordestino seguiriam seu curso, rompendo a “prejudicial solução de continuidade” imposta pela terra. Pombal entrava nos trilhos da modernidade, ao ritmo da Maria Fumaça.

Estiveram presentes na entrega da majestosa ponte o chefe do governo interino, Samuel Duarte, representando o governador Ruy Carneiro, o engenheiro diretor do (I.F.O.C.S.), Dr.  Luz Vieira, o engenheiro projetistas Leonardo Arcoverde, o prefeito coronel Elísio Sobreira, o promotor público Dr. Nelson Nóbrega e uma grande massa popular. Os discursos cumpriram o ritual.

O engenheiro Leonardo Arcoverde falou de alicerces e cálculos e lembrou do trabalho dos seus assistentes Figueredo e Lins e do mestre-de-obras Abelardo Lobo. Lembrou do “patriótico governo do presidente Getúlio Vargas”, dizendo que aquela obra não era feita apenas de concreto, pedra e ferro; era também de ideologia, um monumento ao esforço nacional.

O chefe do governo interino, Samuel Duarte, discursou sobre a “circulação das riquezas”, um “fenômeno intimamente articulado”. A ferrovia era, para ele, a linguagem nova do progresso tentando fincar raízes no solo rachado do sertão. Louvou a Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (I.F.O.C.S.) e seu líder, o engenheiro Luiz Vieira. Falou em “vencer pessimismos” e “campanhas derrotistas”. A ponte, assim, erguia-se como resposta aos que duvidavam do sertão e de sua gente.

Em nome dos pombalenses, falou o promotor público Dr. Nelson Nóbrega, que externou o agradecimento das populações circunvizinhas.

Por trás dos discursos oficiais, era possível sentir o murmúrio da plateia. Os mais velhos recordavam as cargas levadas no lombo de mulas até as capitais distantes e vislumbravam agora a era dos trilhos. Os jovens viam naquela estrutura sólida um convite para encontros, passeios e lazer às margens do rio. Os comerciantes recalculavam, mentalmente, o tempo e o dinheiro que poupariam.

Finalmente, o gesto simbólico: o engenheiro Arcoverde solicitou “permissão para dar como aberto o tráfego na ponte ferroviária de Pombal”. A fita foi rompida não com tesoura, mas com palavras. Os vagões poderiam, dali em diante, cruzar o vão com seus roncos e buzinas estridentes, ligando Pombal ao mundo, carregando e trazendo o progresso.

A comitiva partiu, a poeira baixou. A guerra lá fora seguiu seu curso. Aqui em Pombal, uma nova ponte de ferro repousava sobre o leito do Piancó. Sua história verdadeira, porém, estava apenas começando: a história de suportar, dia após dia, o peso dos vagões e das esperanças de um povo. Ela foi, naquele janeiro de 1942, mais do que uma obra de arte da engenharia do Dr. Arcoverde: foi uma linha no mapa, um risco de futuro ligando Pombal ao mundo.

Um lugar de memória afeteiva

Hoje, 82 anos depois, a Ponte Vermelha de Pombal pede socorro. Testemunha silenciosa de décadas de abandono, ela permanece como um marco de engenharia em nossa terra.  Sua estrutura, outrora símbolo de conquista, agora mostra as marcas do tempo e do descaso. Preservá-la não é um ato de saudosismo, mas de reconhecimento. É resgatar a narrativa de uma cidade que se construiu à sombra de seus pilares e trilhos.

A ponte não é apenas ferro e concreto. É paisagem, história da nossa identidade. Cuidar dela é honrar a luta dos que a idealizaram e a ergueram, e é legar às futuras gerações um marco tangível de seu próprio passado.

A pergunta que ecoa sobre o rio Piancó, é: quem vai, enfim, responder ao chamado da Ponte Vermelha? (fonte Diário de Pernambuco (PE) – 1940 a 1949 – DocReader Web (bn.br) Ffoto colorido de by  Junior Telmo

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *