“Era Uma Vez um Palhaço”, livro do professor e teatrólogo Marcos P. Pequeno, está previsto para ser lançado em março, mas já desperta expectativa no meio teatral e acadêmico por ter caráter didático para uso em oficinas e cursos de dramaturgia e encenação. O livro reúne 15 textos breves para teatro
Resenha: Existe a necessidade e a carência de textos teatrais breves que sirvam de alicerce para encenações satisfatórias no âmbito do ensino das artes cênicas nas Universidades, o que impõe o desafio de produzir peças concisas com características próprias que permitam o desenvolvimento adequado da ação dramática.
A nossa experiência com textos teatrais curtos remonta ao início da década de 1990, quando utilizamos, pela primeira vez, as peças do livro Nove textos breves para teatro, de Ivo Bender, dramaturgo gaúcho, para ministrar um curso de teatro, de 30 horas, realizado em três dias consecutivos, na cidade de Santa Luzia, localizada no interior da Paraíba. O uso desses textos foi fundamental porque um dos objetivos do curso era apresentar cenas montadas no encerramento das atividades cênicas, o que foi realizado com êxito.
A partir de então, passei a escrever, também, textos breves em minha atividade dramatúrgica, os quais foram e continuam sendo utilizados em minha ministração de cursos e montagens de espetáculos teatrais. Cada um desses textos curtos foi elaborado com a preocupação de tornar cada peça uma obra acabada, com estrutura minimamente completa e enredos concisos, personagens definidos, diálogos que expressem objetivos, vontades, interesses, intenções, emoções, sentimentos, valores, tensões, vontades, conflitos, ou seja, aqueles elementos essenciais à ação dramática.
Este Era uma vez um palhaço e outros textos breves para teatro funciona como uma espécie de caleidoscópio temático, pela diversidade de questões suscitadas. Apesar disso, existem unidades implícitas entre várias peças que permitem agrupá-las em situações vivenciadas no âmbito das intimidades familiares e domésticas. Nessa perspectiva situam-se, Vai dormir, mãe: expondo o conflito de valores entre mãe e filho, em torno da religiosidade; Vai dormir, mulher: mostrando a traição conjugal, o machismo e a relação patrão/empregada; Bolero a três: as tensões de um relacionamento amoroso a três; Cumplicidades Domésticas: as contradições da traição conjugal; Só deixo se usar camisinha: o conflito de gerações entre pai e filha, em relação à moralidade sexual; Cocorote no Marido: questões da autonomia da mulher em relação ao aborto, ao marido, e à convivência com os filhos; Nesse sofá não cabem três: conflitos entre a relação amorosa entre três mulheres; Terça-feira de carnaval: o cotidiano e as tentações de uma família no último dia de carnaval; Xô, Satanás: dilemas de um casal ante a moralidade religiosa; Borboletas domésticas: os conflitos de relacionamento amoroso entre dois rapazes.
A peça Uma voz aguda é um texto inclusivo (com breve incursão pelo universo shakespeariano) feito para um ator com uma voz excessivamente aguda. Na mesma linha inclusiva, insere-se o texto Mais ou menos feliz, o qual foi escrito para uma atriz que possui uma enorme dificuldade de memorização. Fake ou não fake, eis a questão: aborda o dilema clássico entre ética e política; E agora, doutora? é um desafio para qualquer atriz porque a personagem não emite fala alguma em um contexto de extrema tensão, no qual deverá tomar uma crucial decisão; Era uma vez um palhaço, monólogo que se apresenta, também, como um grande desafio para o ator.
Por fim, com a publicação de Quinze textos breves para teatro, esperamos contribuir com o ensino e com o desenvolvimento das artes cênicas.

Marcos P. Pequeno é professor da UFPB, dramaturgo e encenador
