José Tavares de Araújo Neto

Não poderia me furtar de abordar esse tema polêmico, que há décadas divide historiadores, memorialistas e jornalistas: a motivação da viagem do presidente da Paraíba, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, ao Recife, em 26 de julho de 1930. Entre a versão oficial, de caráter institucional, e as interpretações de ordem pessoal ou passional, consolidou-se um campo de controvérsias que ainda hoje desafia conclusão definitiva.

A versão oficial sustenta que João Pessoa deslocou-se ao Recife para visitar o juiz federal Francisco Tavares da Cunha Mello, então internado no Hospital Centenário. Diferentemente das interpretações posteriores, essa narrativa encontra respaldo em documentação contemporânea.

A viagem foi anunciada na primeira página do jornal oficial do Estado da Paraíba, A União, em 26 de julho de 1930, sob o título “Presidente João Pessoa”, nos seguintes termos:

“Com destino ao Recife, viaja hoje o sr. presidente João Pessoa, que na vizinha metrópole do sul vai visitar o seu amigo particular dr. Cunha Mello, juiz federal de Pernambuco, que se acha convalescente após a intervenção cirúrgica a que se submetera.

A demora do chefe do governo será muito curta. Ontem, às 18 horas, ocorreu no Palácio a solenidade da transmissão do poder ao vice-presidente, dr. Álvaro de Carvalho.”

O anúncio público, em órgão oficial, constitui elemento de grande relevância historiográfica. Ele demonstra que o deslocamento não foi ocultado nem tratado como compromisso reservado. Ao contrário, houve transmissão formal do cargo ao vice-presidente e divulgação expressa do motivo da viagem, circunstância que, conforme consta no depoimento de João Duarte Dantas, foi justamente o que o levou a procurar o presidente naquele dia.

Os registros da imprensa pernambucana e o depoimento de Caio de Lima Cavalcanti confirmam que João Pessoa esteve no Hospital Centenário, dirigiu-se à Joalheria Krause, visitou a redação do Diário da Manhã, compareceu à Fotografia Piereck e, por fim, foi à Confeitaria Glória. A sucessão desses atos públicos reforça a tese de que sua presença na capital pernambucana se deu de forma aberta e notória.

Apesar da documentação oficial, surgiram interpretações que passaram a questionar a motivação declarada da viagem, apoiando-se na vida privada do presidente.

Em suas Notas para o Livro sobre Princesa, redigidas em Paris em 1931, João Pessoa de Queiroz afirma que “Joca era dado à libertinagem” (Inojosa, 1980). Segundo ele, ainda na juventude, no Pará, o futuro presidente teria mantido relações com uma mulher de “classe muito baixa”, das quais resultou moléstia grave, que o deixou “quase entrevado” e às portas da morte.

O mesmo memorialista sustenta que o casamento de João Pessoa com filha do então governador de Pernambuco, Segismundo Gonçalves, teria sido “casamento de puro interesse, sem a menor parcela de amor”.

Já José Duarte Dantas, antigo companheiro de convivência no ambiente acadêmico da Faculdade de Direito do Recife, publicou, em 1930, o artigo intitulado “O Doido da Paraíba”, no qual, em meio a ataques políticos e pessoais, narrou com riqueza de detalhes um episódio de adultério que teria sido protagonizado pelo então presidente da Paraíba.

Tais depoimentos, contudo, provêm de adversários ou de ex-aliados rompidos, circunstância que exige do historiador prudência interpretativa. São fontes que iluminam o clima de animosidade política do período, mas não constituem prova direta da motivação da viagem.

Elemento decisivo para o surgimento das versões passionais foi a joia encontrada no bolso do paletó do presidente após o atentado. João Pessoa adquirira um bracelete na Joalheria Krause poucas horas antes de ser alvejado.

A versão defensiva sustenta que o presente destinava-se a sua filha Marisa. Todavia, observou-se que a peça não estava acompanhada de cartão de oferecimento, prática comum quando se presenteava formalmente alguém. Essa ausência tornou-se o ponto de partida para conjecturas de natureza sentimental.

A joia, portanto, converteu-se em objeto simbólico, a partir do qual se estruturaram narrativas alternativas à versão oficial. Diversas versões foram elaboradas ao longo das décadas.

A primeira, amplamente divulgada por Hélio Silva, afirmava que João Pessoa teria ido ao Recife encontrar uma cantora procedente do Rio de Janeiro, cujo navio teria atrasado, explicando sua permanência na cidade. Posteriormente, identificou-se essa cantora como Cristina Maristany, hipótese contestada por pesquisadores como Wellington Aguiar, que apontaram inconsistências cronológicas e ausência de comprovação documental.

Outra versão menciona Ruth Lamoff, pianista e enteada do empresário dinamarquês Einar Svendsen. Registros memorialísticos indicam que João Pessoa frequentava a residência da família, onde a jovem executava peças ao piano. Não há, entretanto, documentação que confirme vínculo amoroso.

Há ainda a narrativa envolvendo a professora Adamantina Neves, que teria confidenciado ser a destinatária da “lembrancinha”. Trata-se de relato indireto, transmitido por memória oral.

Em 2004, o historiador João de Brito de Athayde Moura declarou que a amante seria Débora Gandorra, estudante da Escola Normal, afirmando que cartas teriam sido posteriormente destruídas. A versão foi contestada na imprensa por Wellington Aguiar.

O livro A Guerra de Princesa, do princesense Tião Lucena, registra essas hipóteses, contextualizando-as no ambiente político conflagrado da época. A obra não confirma nenhuma delas de forma categórica, mas demonstra como o tema das supostas amantes passou a integrar a disputa simbólica em torno da figura do presidente.

A análise comparada das fontes permite distinguir dois planos distintos: o documental e o memorialístico.

No plano documental, a viagem foi oficialmente anunciada e justificada como visita ao juiz Cunha Mello. Não há registro contemporâneo que aponte finalidade diversa.

No plano memorialístico, construíram-se narrativas que exploraram aspectos da vida íntima do presidente, muitas vezes alimentadas por disputas políticas e ressentimentos pessoais.

A joia encontrada no bolso do paletó tornou-se o eixo simbólico dessas interpretações. Contudo, até o presente, não existe prova documental conclusiva que determine seu destinatário ou que permita afirmar, com segurança histórica, que a viagem tenha sido motivada por encontro amoroso.

Entre documento e memória, entre política e paixão, permanece a controvérsia — reflexo das tensões de 1930 e da complexa construção histórica da figura de João Pessoa.

# José Tavares é escritor pombalense

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