José Tavares de Araújo Neto

A indicação de João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque para a presidência do Estado da Paraíba, em 1928, por iniciativa direta de seu tio, o ex-presidente da República Epitácio Pessoa, representou o primeiro grande ponto de ruptura.

A escolha rompeu acordos tácitos no interior da elite epitacista e contrariou expectativas alimentadas por outro ramo da mesma família, os Pessoa de Queiroz, politicamente influentes e economicamente poderosos, sobretudo em Pernambuco.

Para os Pessoa de Queiroz, a nomeação de João Pessoa significou não apenas uma derrota política, mas uma quebra de equilíbrio familiar, já que a autoridade de Epitácio funcionava até então como elemento moderador entre os diferentes ramos. A sucessão estadual expôs fissuras latentes e transformou divergências internas em antagonismos políticos progressivamente irreconciliáveis.

Reforma tributária como catalisador do conflito

O conflito ganhou densidade concreta com a reforma tributária implementada pelo novo governo estadual em 1929. Apresentadas como medidas de reorganização fiscal e fortalecimento da autonomia econômica da Paraíba, as novas taxas atingiam diretamente o comércio interestadual, onerando especialmente empresas sediadas fora do Estado. Entre as mais afetadas encontrava-se a firma J. Pessoa de Queiroz & Cia., símbolo do poder econômico do grupo familiar dissidente.

A diferenciação de alíquotas conforme a origem das mercadorias e a incidência de tributos sobre o trânsito terrestre foram percebidas pelos Pessoa de Queiroz como práticas discriminatórias e politicamente dirigidas.

A reação veio por meio da imprensa: o Jornal do Comércio do Recife, dirigido por Francisco Pessoa de Queiroz, passou a liderar uma campanha sistemática contra o governo paraibano, denunciando a política fiscal como abusiva e inconstitucional.

O embate entre o Jornal do Comércio e o órgão oficial A União ultrapassou rapidamente o plano técnico e assumiu contornos pessoais e familiares. A disputa tributária converteu-se, assim, em guerra simbólica e política, expondo publicamente o cisma entre dois ramos da família Pessoa.

As correspondências privadas entre Epitácio Pessoa e seus sobrinhos revelam o esgotamento das tentativas de conciliação. Embora o ex-presidente criticasse os excessos da campanha jornalística, também censurava a dureza e a personalização das respostas do governo estadual. Sua posição intermediária, contudo, mostrou-se ineficaz diante da radicalização das partes.

As cartas evidenciam que o conflito já não se limitava a impostos ou sucessão administrativa, mas envolvia honra, prestígio e a disputa pelo legado político do epitacismo. A autoridade simbólica de Epitácio, outrora suficiente para conter dissensões, já não conseguia recompor a unidade familiar.

É nesse contexto de ruptura que se insere a relação entre os Pessoa de Queiroz e José Pereira, chefe político de Princesa. Os vínculos entre eles eram antigos, remontando às lutas políticas de 1915, e baseavam-se em compromissos de honra, lealdades pessoais e alianças sertanejas.

À medida que o governo João Pessoa intensificava ações repressivas no interior, José Pereira passou a ser visto como alvo direto da política estadual.

As correspondências demonstram que os Pessoa de Queiroz não apenas manifestaram solidariedade moral, mas ofereceram apoio efetivo a José Pereira, justificando-o como dever pessoal e político. Para eles, abandonar o chefe sertanejo significaria romper compromissos históricos assumidos no próprio processo de ascensão do grupo epitacista ao poder.

Assim, a Revolta de Princesa tornou-se o ponto de convergência entre três dimensões do conflito: a crise da sucessão estadual, a disputa econômica provocada pela reforma tributária e o colapso das mediações familiares. O sertão transformou-se no espaço onde uma querela iniciada nos salões do poder e nas páginas dos jornais foi resolvida pelas armas.

O envolvimento da família Pessoa de Queiroz na Revolta de Princesa não pode ser reduzido a mera conspiração ou reação episódica. Ele resultou de um processo histórico marcado pela sobreposição entre família, política e economia na Primeira República. A sucessão de 1928 abriu a fratura; a reforma tributária deu-lhe materialidade; e a amizade com José Pereira forneceu o elo final que conduziu à insurreição armada.

Nesse sentido, a Revolta de Princesa expressa não apenas uma rebelião sertaneja, mas o desfecho violento de um conflito gestado no interior da própria elite dirigente paraibana, quando as instâncias tradicionais de conciliação já haviam se esgotado.

# José Tavares é escritor e pesquisador da Revolta de Princesa.

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