José Tavares de Araújo Neto

Quando o presidente João Pessoa anunciou que o movimento sedicioso de Princesa seria debelado em questão de dias, o discurso oficial soava como demonstração de autoridade e confiança. O conflito, contudo, arrastava-se havia mais de dois meses, expondo as fragilidades militares do governo paraibano diante de uma resistência sertaneja bem articulada, conhecedora do terreno e sustentada por alianças regionais sólidas.

As colunas policiais, espalhadas entre Barra (atual Juru), Alagoa Nova (atual Manaíra), Tavares, Várzea da Cruz e São José, avançavam lentamente e sofriam reveses constantes, enquanto Princesa permanecia protegida por uma barreira praticamente intransponível. O cerco, mais retórico que efetivo, revelava a incapacidade do Estado em impor uma vitória rápida no terreno.

Nesse quadro de frustração militar e desgaste político, ganharam força rumores destinados a explicar a inesperada eficácia defensiva dos revoltosos. A imprensa oficial passou a noticiar, com tintas sensacionalistas, a suposta presença de um oficial alemão instruindo as tropas do coronel  José Pereira. O jornal A União divulgou que o tenente José Guedes da Silva teria chegado à capital trazendo uma dragona pertencente a esse suposto oficial, identificado como Von Schliefen, que teria servido ao marechal Erich Ludendorff e combatido na frente oriental dos exércitos alemães.

A versão, logo desmentida, revelou menos sobre a realidade do conflito e mais sobre a necessidade simbólica de atribuir ao inimigo uma competência “estrangeira”, capaz de justificar os insucessos governamentais. A guerra de Princesa já não se travava apenas nas trincheiras, mas também no campo da propaganda.

Foi nesse ambiente que amadureceu a ideia de recorrer à aviação como instrumento decisivo. O uso de aeronaves representava, simultaneamente, modernidade, intimidação psicológica e promessa de solução rápida. Alagoa do Monteiro foi escolhida como base das operações aéreas, tanto por sua posição estratégica quanto pelo controle político exercido pelo governo estadual. Campos de pouso improvisados surgiram em diversos pontos do Estado, enquanto os jornais anunciavam, em tom alarmista, o iminente bombardeio de Princesa.

Até então, o emprego de aeronaves com finalidade bélica no Brasil havia ocorrido apenas em duas ocasiões. A primeira, em 1914, durante a Guerra do Contestado, quando aviões foram usados de modo ainda experimental, sobretudo para reconhecimento e intimidação. A segunda, em 1924, na Revolta Paulista, já com bombardeios efetivos sobre áreas urbanas.

A chegada de José Américo de Almeida para comandar pessoalmente o Batalhão da Polícia Militar acantonado em Piancó, em 17 de maio de 1930, marcou uma inflexão na condução da campanha. Nomeado secretário de Segurança, encontrou tropas desmotivadas, mal treinadas e sustentadas por uma retórica que classificava os revoltosos como “cangaceiros”, numa tentativa de legitimar moralmente a repressão. A realidade do front, contudo, era de estagnação. Avanços difíceis, emboscadas frequentes e vitórias pontuais que logo se convertiam em novos cercos, como ocorrera em Tavares.

Ataque aéreo como aposta milagrosa

A aposta no poder aéreo passou a ser vista como saída quase milagrosa. O primeiro avião adquirido pelo governo, batizado de Tabajara, tornou-se símbolo precoce do improviso que marcaria toda a iniciativa. Transportado por terra para escapar à fiscalização federal, montado em condições precárias e operado por técnicos estrangeiros cedidos às pressas, o aparelho jamais cumpriu sua função. Um acidente ainda na tentativa de decolagem, seguido da morte do mecânico Fossati, selou o fracasso da aeronave. O avião que deveria aterrorizar Princesa não chegou sequer a levantar voo.

O insucesso do Tabajara não arrefeceu o ímpeto governamental. Diante da dificuldade em obter peças e técnicos especializados, buscou-se outra aeronave em Pernambuco. Assim entrou em cena o Garoto, pertencente ao aviador Reynaldo Gonçalves. A negociação foi cercada de sigilo, temendo-se interferências do governo pernambucano, politicamente hostil à administração de João Pessoa. O avião foi adquirido por intermediários ligados ao presidente e apresentado como arma decisiva para o ataque final.

A transferência da aeronave transformou-se numa verdadeira aventura. Retido no campo de aviação do Ibura, no Recife, por ordem policial, o Garoto foi retirado clandestinamente pelo próprio piloto, numa fuga espetacular rumo à Paraíba. O episódio ganhou repercussão nacional, alimentando manchetes que anunciavam, com indignação ou sarcasmo, que João Pessoa bombardearia uma cidade do próprio Estado. Ficavam expostas as tensões federativas da Primeira República e a fragilidade das garantias constitucionais em tempos de crise.

Quando finalmente chegou a Piancó, o Garoto cumpriu menos um papel militar do que simbólico. Sobrevoou Princesa lançando panfletos ameaçadores, numa operação de guerra psicológica de efeito limitado. Temendo ser atingido, o piloto manteve altitude; ainda assim, o avião recebeu rajadas dos atiradores rebeldes, insuficientes para derrubá-lo, mas reveladoras de que a cidade não se curvava à intimidação aérea.

O bombardeio não ocorreu. Problemas técnicos, a falta de pessoal qualificado, o risco político de atacar uma cidade aberta e a enorme repercussão negativa nacional reduziram a aviação a instrumento retórico.

O desfecho foi irônico. O aviador Reynaldo Gonçalves acabou preso em Pernambuco, acusado de irregularidades administrativas, e o avião tornou-se objeto de disputa jurídica e política entre governos estaduais. A máquina concebida para decidir a guerra revelou-se tão vulnerável quanto as tropas em terra.

No fim das contas, a campanha de Princesa não foi decidida pelos ares. O avião não rompeu trincheiras nem quebrou a resistência sertaneja. Serviu, antes, como metáfora de um Estado que apostou na aparência da força e esbarrou na realidade de suas próprias fragilidades.

O homem planejou, mas, como registraram os jornais da época, Deus dispôs. E o Garoto, feito para voar como instrumento de terror, acabou pousando na história como símbolo de um poder que prometeu mais do que pôde cumprir.

# José Tavares é escritor e pesquisador da Revolta de Princesa

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *