José Tavares de Araújo Neto
Publicado em 1936, em pleno governo de Getúlio Vargas, Fretana, de Carlos Dias Fernandes, constitui o primeiro livro a tratar do movimento armado de Princesa sob a ótica dos vencidos. A obra apresenta caráter biográfico e memorialístico, mas assume também clara dimensão política ao revisitar acontecimentos ainda recentes e sensíveis.
O autor, Carlos Augusto Furtado de Mendonça Dias Fernandes, era natural da cidade, assim como Castro Pinto, Álvaro de Carvalho e João Duarte Dantas, futuro autor do atentado que vitimaria João Pessoa Esse dado não é meramente geográfico. Mamanguape funciona como núcleo formador. É ali que se estruturam as primeiras experiências do narrador, suas referências culturais e seu contato inicial com as disputas políticas locais.
Embora trate de fatos concretos e personagens facilmente identificáveis, o autor optou pelo uso de nomes fictícios para representar os protagonistas reais. Ele próprio surge como Frederico Pestana, conhecido por Fretana, expediente literário que lhe permitiu narrar os episódios sob certa proteção formal.
Apesar do disfarce nominal, a correspondência entre personagens e figuras históricas era amplamente reconhecível. A recepção do livro foi marcada por resistência. A obra sofreu um boicote silencioso, sendo retirada das vitrines ou relegada aos fundos das livrarias. O resultado foi circulação restrita e encalhe editorial, circunstância que contribuiu para que, com o passar do tempo, Fretana se tornasse obra rara da historiografia paraibana.
No Capítulo XX, Carlos Dias Fernandes constrói sua narrativa dos acontecimentos de 1928 a 1930 a partir de um ponto decisivo: a posse de João Pessoa no governo da Paraíba. A mudança administrativa representa, no livro, não apenas a substituição de um chefe político, mas a reconfiguração profunda do equilíbrio de forças no Estado.
O autor relembra que, anos antes, durante o governo de Camilo de Holanda (1916–1920), quando exercia a direção de A União, envolveu-se em desentendimento público com o cônego Walfredo Leal e seus sobrinhos, José Américo de Almeida e o padre Mathias Freire. O episódio teve origem em matéria de teor agressivo publicada no Diário da Paraíba, órgão vinculado ao grupo oposicionista. Sentindo-se pessoalmente atingido, Carlos Dias procurou o chefe político para exigir satisfação formal.
Desafiado para duelo, Walfredo Leal recusou-se a bater-se. Declarou não escrever no jornal e atribuiu a autoria dos textos a seus sobrinhos, responsáveis pelo editorial do periódico. Após a recusa, Carlos Dias respondeu pela imprensa com o artigo satírico Três Furúnculos, no qual atingia o cônego e seus dois sobrinhos, utilizando a metáfora como instrumento de ataque público.
A ascensão de João Pessoa ao governo traz consigo o fortalecimento de José Américo de Almeida, figura que, segundo a memória do autor, passaria a exercer papel decisivo na orientação política da nova administração. Antigo integrante do grupo liderado por seu tio, o cônego Walfredo Leal, e desafeto histórico dos epitacistas, José Américo surge na narrativa como articulador influente da nova fase administrativa.
Carlos Dias registra que, nos primeiros dias do novo governo, as decisões assumem ritmo acelerado. Substituições em cargos estratégicos, redefinições administrativas e mudança de postura política consolidam rapidamente um novo núcleo dirigente. A exoneração do próprio autor da direção de A União, formalizada sob a fórmula burocrática de “a pedido”, insere-se nesse movimento de reorganização. A iniciativa do afastamento aparece menos como expressão de vontade pessoal do demissionário e mais como resultado da nova orientação política, associada à influência decisiva de José Américo de Almeida, seu histórico antagonista.
Em Fretana, a atuação de José Américo associa-se à linha de firmeza adotada pelo governo João Pessoa. Ele figura como conselheiro político e formulador do discurso público, participando da definição das respostas às críticas e da condução do embate com adversários internos.
É nesse contexto que se intensifica o conflito com setores das oligarquias do interior, sobretudo com o coronel José Pereira Lima, chefe político de Princesa. O rompimento não se apresenta como fato isolado, mas como consequência de medidas que atingem diretamente o poder regional. A centralização administrativa e o controle mais rigoroso das práticas políticas no interior provocam reação.
José Pereira Lima é definido como chefe político regional cuja atuação se insere no centro do conflito armado. O autor o apresenta como liderança sertaneja consolidada, detentora de autoridade construída ao longo do tempo, sustentada por vínculos pessoais, familiares e políticos no sertão da Paraíba.
No encadeamento dos acontecimentos, José Pereira surge como polo de resistência às decisões do governo estadual após a posse de João Pessoa. Carlos Dias descreve o rompimento como consequência direta da nova orientação política do Estado, marcada por centralização administrativa, intervenções no interior e enfrentamento aberto às lideranças regionais. Sua reação é apresentada como resposta a esse processo, não como iniciativa gratuita de rebeldia.
O autor atribui a José Pereira a responsabilidade pela organização militar do movimento de Princesa. Ele aparece como comandante político e prático da resistência armada, responsável por reunir homens, estruturar posições defensivas e sustentar o confronto com as forças estaduais. Sua atuação situa-se no plano territorial e militar, distinta da ação de figuras que operavam nos bastidores da política e do discurso público.
José Pereira não é descrito como articulador do assassinato de João Pessoa nem como mentor de conspiração nacional. Sua figura permanece vinculada ao conflito regional. Carlos Dias o apresenta como líder que, diante do cerco político e administrativo, opta pelo enfrentamento armado como forma extrema de afirmação do poder local.
Enquanto o conflito armado se desenvolve no sertão, o ambiente político estadual torna-se cada vez mais tenso. A imprensa amplia as divergências. A publicação de correspondência íntima de João Duarte Dantas intensifica o clima de animosidade.
Em 26 de julho de 1930, no Recife, João Duarte Dantas dispara contra João Pessoa, provocando sua morte. O atentado encerra um ciclo de tensões acumuladas ao longo de meses de confrontos políticos e militares.
João Duarte Dantas é apresentado como autor material do crime, mas produzido por ambiente político e moral previamente degradado. A narrativa não o descreve como conspirador frio nem como instrumento direto de comando político formal. Ele surge como sujeito movido por ressentimento profundo, humilhação pública e sentimento de honra ferida.
Segundo o autor, a motivação imediata do crime encontra-se na exposição de sua vida íntima, especialmente na divulgação de correspondência pessoal que o lançou ao descrédito público. Esse episódio aparece como fator decisivo para a ruptura psicológica que antecede o atentado.
Ao mesmo tempo, Fretana amplia o enquadramento do crime. O assassinato de João Pessoa é descrito como ato individual inserido em contexto político radicalizado, marcado por perseguições, violência simbólica e ausência de mediação. João Dantas não é absolvido da responsabilidade, mas tampouco é tratado como causa única do desfecho.
Na construção narrativa de Carlos Dias Fernandes, os acontecimentos encadeiam-se de forma progressiva: a posse de João Pessoa, a consolidação da influência de José Américo, o rompimento com José Pereira, a organização do movimento armado em Princesa e, por fim, o assassinato.
O autor distribui formalmente as responsabilidades: João Pessoa como chefe do Executivo, José Pereira como líder da resistência armada e João Duarte Dantas como autor material do atentado. Contudo, a presença constante de José Américo ao longo do processo — desde a reorganização administrativa até a sustentação da linha política que agrava os conflitos — confere-lhe posição central na engrenagem narrativa.
Assim, em Fretana, a tragédia de 1930 surge como resultado de ambiente político moldado por decisões sucessivas, rupturas regionais e radicalização progressiva, no qual a figura de José Américo ocupa papel determinante na memória construída pelo autor.
# José Tavares é escritor e pesquisador
