Por Jose Tavares de Araujo Neto
A passagem da Coluna Miguel Costa–Prestes pela Paraíba, em fevereiro de 1926, representa um dos episódios mais dramáticos da história política e militar do sertão nordestino durante a Primeira República. O confronto colocou frente a frente uma força revolucionária altamente móvel e experiente na guerra irregular e um Estado de recursos limitados, governado por João Suassuna, que mobilizou todos os meios disponíveis para preservar a ordem interna.
Nestas condições, os acontecimentos de Pombal, o sequestro do major Nô Queiroga e a captura do tenente Manuel Benício constituíram momentos decisivos para o desfecho trágico em Piancó.
Contexto político-militar da incursão – A Coluna Miguel Costa–Prestes, após sucessivos combates no Sul e no Sudeste, deslocou-se para o Nordeste buscando romper o cerco das forças legais e manter viva a insurreição tenentista. Em fins de janeiro de 1926, o movimento avançava pelo Rio Grande do Norte e pelo Ceará, sendo previsível sua entrada na Paraíba, ponto estratégico entre o sertão cearense e o interior pernambucano.
Ciente dessa possibilidade, o presidente João Suassuna passou a tratar a defesa do território como prioridade absoluta de governo. A Paraíba dispunha de uma Força Pública reduzida, com cerca de 1.200 homens espalhados por todo o Estado, o que obrigou o Executivo a adotar uma estratégia defensiva baseada menos na concentração de tropas e mais na guerra de flancos, nas emboscadas e na mobilização de civis armados sob liderança política local.
Plano defensivo – Em articulação com o comandante da Força Pública, Elísio Sobreira, o governo estadual estruturou um plano em três eixos: reforço das cidades estratégicas do Alto Sertão, uso sistemático de guerrilhas nos boqueirões e mobilização de contingentes civis.
Nesse dispositivo, a cidade de Pombal assumiu papel central. Situada como elo entre o vale do Rio do Peixe e o acesso ao vale do Piancó, Pombal foi transformada em núcleo de organização civil-militar.
A defesa local foi organizada pelo chefe político dr. José Queiroga, com apoio do coronel José Pereira Lima, reunindo cerca de uma centena de civis armados, além de contingentes da Força Pública. Esses grupos atuavam em coordenação com guerrilhas posicionadas nos boqueirões e caminhos sertanejos, cuja missão era retardar a marcha rebelde e infligir desgaste contínuo
As chamadas “trincheiras de Pombal”, erguidas com participação direta da população, tornaram-se símbolo da resistência paraibana e base para a organização de emboscadas contra o avanço rebelde.
Entrada da Coluna na Paraíba
No início de fevereiro de 1926, a Coluna ingressou na Paraíba desviando-se de Belém do Arrojado (atual Uiraúna), diante da presença da tropa legalista comandada pelo capitão Manuel Viégas. Em 8 de fevereiro, os revoltosos dividiram-se em dois corpos: um flanco, sob o comando de João Alberto, que ameaçou Pombal, Malta e Patos; e o grosso da tropa, conduzindo Luís Carlos Prestes e Miguel Costa, que seguiu em direção ao Boqueirão do Curema (atual Coremas) e ao vale do Piancó.
A defesa de Patos, organizada pelo capitão Irineu Rangel, frustrou a tentativa de saque e impediu que a cidade se tornasse base logística da Coluna.
Captura do tenente Manuel Benício – Entre os episódios mais relevantes ocorridos no entorno de Pombal, destaca-se a captura do tenente Manuel Benício, oficial do 2º Batalhão da Força Pública. Em 9 de fevereiro de 1926, Benício deslocava-se de Patos para Pombal transportando armamento e munição destinados à defesa da cidade. O caminhão conduzia 40 fuzis e cerca de 3.600 cartuchos.
À altura da fazenda Alagoa de Dentro, entre Pombal e Malta, a escolta foi surpreendida por tropas do flanco rebelde comandado por João Alberto. Após breve tiroteio, o caminhão foi incendiado, o material bélico apreendido e o tenente Manuel Benício feito prisioneiro. O episódio teve grande repercussão entre as forças legalistas, levando o capitão Irineu Rangel a desencadear contra-ataque em Santa Gertrudes, forçando o recuo dos rebeldes em direção a o povoado de Catingueira.
A captura de Manuel Benício agravou a situação defensiva, privando Pombal de armas essenciais e evidenciando a eficácia da guerra de movimento da Coluna. O oficial seria libertado no dia seguinte, quando os rebeldes iniciaram a retirada rumo a Pernambuco.
Sequestro do fazendeiro Nô Queiroga
Paralelamente, a Coluna sequestrou Manuel (Nô) Queiroga, fazendeiro e irmão de José Queiroga, na Fazenda Olho D’água. O sequestro teve efeito devastador sobre a estratégia defensiva. Temendo pela vida do refém, João Suassuna determinou a suspensão das emboscadas organizadas a partir de Pombal e Coremas.
Esse recuo forçado devolveu momentaneamente a iniciativa aos rebeldes, permitindo-lhes avançar com maior coesão em direção a Piancó e montar emboscadas sucessivas contra a tropa legalista que os perseguia.
Tragédia de Piancó – A vila de Piancó encontrava-se exatamente na rota do grosso da Coluna. Seu destacamento policial era reduzido e fora reforçado às pressas, contando com poucos soldados e civis armados sob a liderança dos tenentes Manuel Marinho e Antônio Benício, além do apoio político do Padre Aristides Ferreira.
Em 9 de fevereiro de 1926, após horas de combate intenso, a Coluna tomou a vila. A morte do capitão rebelde Luiz Farias logo no início da ação contribuiu para a radicalização do conflito. Superada a resistência, seguiu-se a tragédia: 23 civis e 2 praças da Força Pública foram mortos, a maioria após prisão, em execuções sumárias realizadas junto a um barreiro nos arredores da cidade.
A captura do tenente Manuel Benício e o sequestro de Manuel Queiroga, ambos ocorridos no eixo de Pombal, foram episódios-chave para a compreensão do desfecho em Piancó. Eles revelam a eficácia da guerra psicológica e de movimento empregada pela Coluna e, ao mesmo tempo, os limites estruturais da defesa estadual.
Do ponto de vista historiográfico, a passagem da Coluna Prestes pela Paraíba evidencia a tensão entre estratégia militar, liderança política local e impacto sobre a população civil. Pombal surge como centro nervoso da resistência; Piancó, como o ponto-limite onde a guerra irregular rompeu definitivamente os limites do combate armado, deixando marcas profundas e duradouras na memória sertaneja.
Pesquisador Luiz Ferraz reporta emboscada em Pernambuco
Em vídeo publicado em grupos de WhatsApp formados por historiadores e pesquisadores, o historiador Luiz Ferraz Filho (de Serra Talhada) explica como Policiais pernambucanos foram emboscados e mortos pela Coluna Prestes, em 14 de fevereiro de 1926, em Custódia, PE.
