Por Jose Tavares de Araújo Neto
O rompimento político entre o coronel José Pereira Lima, deputado estadual e chefe político do município de Princesa, e João Pessoa, presidente do Estado da Paraíba, teve como ponto de partida a definição da chapa governista para as eleições federais de 1930. A divergência, inicialmente circunscrita ao plano partidário, evoluiu para o conflito armado que fico conhecido como A Revolta de Princesa, episódio inserido no quadro mais amplo de instabilidade política nacional qque culminou na Revolução de 1930.
As versões aqui apresentadas baseiam-se nas entrevistas concedidas por José Pereira ao Correio da Manhã (Rio de Janeiro), em abril de 1930, e por João Pessoa ao Diário da Manhã (Recife), em março de 1930.
Segundo José Pereira, até fevereiro de 1930 sua relação com o governo estadual era de absoluta lealdade partidária. Deputado estadual, membro da Comissão Executiva do Partido e chefe político de forte influência no sertão, ele se apresenta como participante ativo do movimento político que, em 1915, entregara a chefia do Estado ao senador Epitácio Pessoa.
Diz que recebeu João Pessoa em sua residência, em Princesa, nos dias 19 e 20 de fevereiro de 1930, quando o presidente esteve acompanhado de seu ajudante de ordens, o tenente-coronel Elysio Sobreira, além de outros auxiliares (José Américo de Almeida e Antenor Navarro). Durante a estada, segundo Pereira, o presidente foi tratado como hóspede e amigo, tendo recebido homenagens públicas e privadas, sem que, contudo, tivesse tratado de questões eleitorais ou partidárias.
Após a partida de João Pessoa, José Pereira afirma que o mesmo tenente-coronel Elysio Sobreira lhe apresentou a lista dos candidatos do Partido à Câmara dos Deputados e ao terço do Senado. A chapa, segundo ele, excluía nomes tradicionais do situacionismo paraibano, como o senador Antônio Massa, o deputado Oscar Soares, o deputado Daniel Carneiro, então em campanha em Alagoas pela Aliança Liberal, e o ex-presidente do Estado João Suassuna, a quem Pereira atribui a própria ascensão política de João Pessoa.
Ao questionar os critérios adotados, José Pereira relata que lhe foi invocado o princípio do rotativismo, argumento que considerou incoerente diante da permanência do deputado Carlos Pessoa, primo-irmão do presidente. A retirada do ajudante de ordens, sem solução para as objeções levantadas, marcou, em sua versão, o esgotamento do diálogo interno.
Em 22 de fevereiro, José Pereira enviou telegrama a João Pessoa comunicando que, juntamente com seus aliados, considerava a chapa um ato de desprestígio à Comissão Executiva e uma violação ao programa do Partido. Informou que daria liberdade de voto aos correligionários e que assumiria o compromisso de defendê-los contra quaisquer atos de violência do governo estadual.
Em resposta, o presidente determinou a retirada do delegado de polícia de Princesa, o tenente Manoel Arruda, a quem identifica como inimigo pessoal, ordenando também a remoção dos presos da cadeia local. Tal medida teria sido impedida pelo juiz de Direito da comarca, Clímaco Xavier, que assumiu a responsabilidade pela permanência dos detentos.
José Pereira afirma que, após a retirada formal da força policial, parte dos soldados regressou espontaneamente a Princesa e passou a guarnecer a cadeia sob sua orientação. Relata ainda que o governo estadual determinou o fechamento da mesa de rendas e do grupo escolar, ordenou a saída das autoridades estaduais e aconselhou famílias a abandonarem o município. Em seguida, forças policiais foram mobilizadas contra municípios como Teixeira, Piancó e Imaculada.
No ataque a Teixeira, ocorrido em 28 de fevereiro, José Pereira menciona a prisão de duas senhoras da família Duarte Dantas, aparentada de João Suassuna. Em reação, afirma ter enviado tropas para enfrentar a polícia, comandada pelo tenente Ascendino, obtendo a libertação das prisioneiras. Nos episódios posteriores, descreve confrontos nos povoados de Tavares, Santana dos Garrotes, Alagoa Nova, Imaculada e Patos.
No episódio de Patos, José Pereira acusa uma força policial comandada pelo tenente Raimundo Nonato e pelo sargento Clementino Quelé de prender sua sobrinha, sua cunhada e outras senhoras após incendiar casas do povoado. Afirma que entregou o comando de uma tropa ao seu cunhado Marcolino Diniz, determinando a libertação das reféns, o que teria ocorrido após intenso combate, com dispersão das forças policiais em direção a Triunfo, em Pernambuco.
João Pessoa, por sua vez, apresenta versão substancialmente diversa. Afirma que a divergência surgiu no seio da Comissão Executiva do Partido durante a escolha dos candidatos à representação federal, em um contexto nacional marcado pela luta da Aliança Liberal. Sustenta que sua intervenção se deu no exercício legítimo da chefia partidária, após esgotadas as tentativas de conciliação, com o objetivo de preservar a unidade política da Paraíba. Reitera o critério do rotativismo e critica a pretensão de perpetuação de mandatos por parte de políticos como Antônio Massa, João Suassuna e Oscar Soares.
No tocante a José Pereira, João Pessoa afirma que foi recebido com festas e homenagens em Princesa, tendo sido saudado publicamente pelo anfitrião. Relata que, à noite, conversou pessoalmente com ele, explicando as decisões da Comissão Executiva, sem perceber qualquer reação negativa. Narra ainda o episódio em que a porta de seu quarto teria sido trancada por fora, fato que descreve como estranho, mas sem consequências imediatas.
O presidente afirma que o rompimento só se formalizou após receber telegramas considerados descorteses, baseados em informações falsas, possivelmente transmitidas por aliados de João Suassuna. Considera que a dissidência se consolidou quando José Pereira passou a integrar uma chapa oposicionista alinhada ao perrepismo.
Quanto às ações policiais, João Pessoa nega represálias e sustenta que as operações tiveram como finalidade conter supostos grupos armados e garantir a segurança do processo eleitoral, assegurando que as forças receberam ordens para respeitar os direitos individuais.
As versões, quando justapostas, revelam um conflito em que uma decisão partidária concreta evolui para ruptura política e confronto armado, envolvendo uma ampla rede de personagens civis, militares e judiciais.
A exposição conjunta dos relatos evidencia não apenas um desacordo sobre candidaturas, mas concepções antagônicas sobre autoridade, legalidade e exercício do poder no sertão paraibano às vésperas da Revolução de 1930.
# José Tavares é escritor e pesquisador da Revolta de Princesa
