José Tavares de Araújo Neto
O presente texto constitui uma releitura do depoimento prestado pelo tenente-coronel Manoel Arruda de Assis em 28 de novembro de 1979, no âmbito do projeto História política da Paraíba: constituição de acervo, desenvolvido em convênio com a Universidade Federal da Paraíba. O foco recai sobre as referências feitas pelo entrevistado ao coronel José Pereira, figura central da política sertaneja paraibana e de quem Manoel Arruda de Assis declara ter sido inimigo.
De caráter testemunhal e retrospectivo, o relato registra a atuação do entrevistado como oficial da Polícia paraibana e delegado em municípios do sertão, abordando acontecimentos ocorridos antes e durante o ano de 1930, em meio às tensões políticas e armadas que antecederam a Revolta de Princesa.
Ao longo da entrevista, José Pereira é citado como chefe político com atuação no município de Princesa e em áreas vizinhas. Manoel Arruda de Assis refere-se à influência exercida por ele na região, associada a vínculos familiares, controle territorial e à presença de homens armados sob sua órbita de poder.

No que se refere ao cangaço, registra que José Pereira não mantinha ligação pessoal direta com Lampião. Segundo o entrevistado, Lampião e seus homens circulavam pela cidade de Princesa, frequentando ruas, cabarés e estabelecimentos públicos, sem repressão policial. Registra ainda que cangaceiros chegavam a cumprimentar o próprio Manoel Arruda de Assis quando passavam pela cidade. A relação prática com cangaceiros ocorria por intermédio de Marcolino Diniz, cunhado de José Pereira, definido como perigoso e mais bandido que Lampião.
Arruda relata o episódio em que Lampião foi ferido durante confronto armado com forças policiais nas proximidades da Serra do Catolé. Segundo o depoimento, foi atingido no calcanhar, ficando impossibilitado de se deslocar. Após o ferimento, foi retirado do local por homens ligados a Marcolino Diniz e transportado em redes. Em seguida, foi conduzido para a residência de Luiz Leão, situada na região serrana entre Princesa e Triunfo, onde permaneceu por período prolongado, recebendo tratamento médico.
Registra que Lampião foi tratado pelos médicos dr. Severiano Diniz e o dr. João Lúcio: “Luiz Leão morava no sopé da serra de Triunfo. Casa grande, caiada, mas vivia em Princesa. Então tratava de Lampião o dr. Severiano Diniz e o João Lúcio, médicos de Triunfo. Toda manhã o Sabino saía com uma bolsa de ferramenta, num burro e o Severiano num cavalo preto, “Estrela”, e iam lá fazer os curativos em Lampião”.
Manoel Arruda de Assis menciona um crime ocorrido no município de Piancó, em 1924, pouco depois do assalto à cidade de Sousa. Segundo a narrativa, Luiz Leão, acompanhado de Febrônio e de cerca de vinte homens ligados ao bando de Lampião, participou de um assalto no qual foi morto o fazendeiro João Clementino, que veio a óbito em decorrência de traumatismo. “O João Clementino era amigo do padre. O padre passou um telegrama desaforado para José Pereira”.
Diante da repercussão do caso, José Pereira determinou a prisão de Luiz Leão e de outros envolvidos. Febrônio conseguiu fugir e refugiou-se na Serra das Cabras, nas imediações de São José de Piranhas.
De Princesa, Luiz Leão foi conduzido à cadeia de Piancó. Ainda no governo de João Suassuna, duas escoltas foram enviadas para retirar os presos, sob o pretexto de transferi-los para a capital. Uma das escoltas era comandada pelo tenente Elias Vicente; a outra, por Ascendino Feitosa. Para despistar, os presos foram divididos. Uma parte seguiu pela rota de Coremas; outra foi conduzida pela estrada de Catingueira. Segundo Manoel Arruda de Assis, Luiz Leão, Pedro Felício e Pedro Tiburtino foram levados até o rio Jenipapo, onde foram fuzilados e enterrados na areia do riacho. O episódio gerou novo conflito por via telegráfica entre os deputados, padre Aristides e José Pereira, com repercussão na Assembleia Legislativa.
A respeito da inimizade com o coronel José Pereira, Manoel Arruda afirmou que ela remonta aos seus primeiros contatos com Princesa, quando comandava forças volantes em trânsito entre Conceição, Belmonte e Triunfo. Com o tempo, essa animosidade tornou-se aberta. Em 1930, foi nomeado delegado de Princesa diretamente pelo presidente do Estado, João Pessoa. Segundo o depoimento, a escolha foi deliberada, uma vez que era o único oficial da Polícia que não tolerava José Pereira.
Manoel Arruda de Assis Relata que a família do chefe político deixou de cumprimentá-lo e ter tomado conhecimento de uma articulação para assassiná-lo. Essa informação lhe foi transmitida por Bertolino Lima, seu amigo pessoal e frequentador da casa de José Pereira, que lhe relatou a insistência de Manoel Carlos Pereira junto a Antônio Pereira para que o irmão José Pereira autorizasse sua morte. Acrescenta que a execução não se concretizou em razão do temor de represálias por parte do então presidente do Estado, João Pessoa.
Anterior a concretização do rompimento de José Pereira com o governo estadual, Manoel Arruda menciona a circulação de boatos sobre a reunião de homens armados em propriedades do chefe político, especialmente no sítio Baixios. Segundo o relato, os boatos diziam respeito ao número de homens reunidos. Arruda requisitou reforço do sargento Joaquim Valões, vindo de Conceição, mas a diligência foi desaconselhada por Luiz do Triângulo, diante do risco de confronto sem efetivo suficiente.
Manoel Arruda de Assis registra o único encontro direto mantido com o coronel José Pereira após o rompimento político. O chefe político compareceu pessoalmente à delegacia e solicitou conversar reservadamente. Declarou haver rompido com o presidente do Estado, João Pessoa, e afirmou estar reunindo aliados para defender o município. Reconheceu a conduta administrativa do delegado e sugeriu que este permanecesse no policiamento local, proposta que foi recusada, com a reafirmação de fidelidade ao governo estadual.
Na mesma conversa, José Pereira afirmou contar com o apoio do presidente da República, de diversos governadores, do Padre Cícero, de Zé da Contenda e de alguns oficiais da Polícia. Citou nominalmente Manoel Benício e o sargento Quelé, acrescentando que não contava com o oficial José Guedes. Ainda nesse encontro, solicitou que não fossem realizadas transmissões pela estação de rádio local. O delegado informou que já havia comunicado oficialmente os acontecimentos ao Chefe de Polícia, ao que José Pereira respondeu que também havia enviado telegrama.
Pouco depois, por ordem transmitida por radiograma assinado por Elísio Sobreira, “de ordem do Presidente”, Manoel Arruda de Assis retirou-se de Princesa com parte do destacamento e a estação de rádio, antes do início dos combates, encerrando sua atuação no município.
# José Tavares é escritor e pesquisador da Revolta de Princesa.
