José Tavares de Araújo Neto
Até 1908, o bacharel Augusto de Santa Cruz Oliveira e o coronel Pedro Bezerra da Silveira Leal atuavam lado a lado na chefia política da extensa região de Alagoa do Monteiro, no Cariri paraibano, nos limites com o Pajeú pernambucano. Ambos representavam interesses das oligarquias locais e mantinham relação de cooperação na condução da política regional.
Naquele período, a política municipal no interior nordestino era fortemente marcada pelo sistema de chefias locais, no qual coronéis e bacharéis exerciam grande influência sobre a vida administrativa, eleitoral e policial das vilas e povoados.
Essa aliança começou a ruir quando surgiu um desentendimento entre o promotor Dr. Augusto Santa Cruz e o fazendeiro José Pereira de Gouveia, então subdelegado do povoado de São Tomé. A divergência teve origem na atuação policial de Gouveia, que, segundo Santa Cruz, fazia uso das forças públicas para invadir, saquear e incendiar propriedades pertencentes a seus familiares e aliados políticos. O subdelegado, por sua vez, alegava que suas ações tinham como objetivo perseguir cangaceiros e criminosos que estariam escondidos em tais propriedades.
A disputa pessoal rapidamente assumiu dimensão política. O coronel Pedro Bezerra posicionou-se ao lado de José Pereira de Gouveia, enquanto o presidente do Estado da Paraíba, João Machado, optou por manter Pedro Bezerra na chefia política da Vila do Monteiro, onde acumulava os cargos de prefeito e deputado estadual. Esse posicionamento do governo estadual agravou a crise local, pois consolidava a derrota política momentânea de Santa Cruz dentro da estrutura de poder regional.
Em 23 de maio de 1910, o juiz comissionado Dr. Luna Pedrosa, designado pelo governo estadual para apurar os acontecimentos ocorridos em São Tomé, decretou durante audiência as prisões preventivas do bacharel Augusto Santa Cruz e de seu primo e cunhado Hugo Santa Cruz. Ambos haviam apresentado habeas corpus preventivo, mas o magistrado considerou que o documento apenas impediria prisões arbitrárias e violentas, não podendo anular mandados judiciais fundamentados em provas legais.
Segundo as investigações, ficou comprovado que Augusto Santa Cruz teria comandado pessoalmente um grupo de cerca de quarenta homens que atacou o povoado de São Tomé. Também lhe foi atribuído envolvimento em emboscadas destinadas a assassinar o subdelegado José de Gouveia e seu irmão Manoel de Gouveia. Três dias antes, o mesmo juiz já havia decretado a prisão de José Firmino da Silva, conhecido como Peba, acusado de participação nos mesmos crimes.
Conduzidos à capital do Estado, Augusto e Hugo Santa Cruz permaneceram presos por pouco mais de dois meses. Em 27 de julho de 1911 foram libertados por força de habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal. Peba, entretanto, permaneceu encarcerado.
A manutenção da prisão de Peba representava importante vitória política para os adversários de Santa Cruz. Homem de confiança do bacharel, Peba exercia papel relevante na organização de sua segurança pessoal e na articulação de suas ações armadas. Sua ausência levou Augusto Santa Cruz a buscar um substituto com as mesmas qualidades de liderança, coragem e lealdade. Destacou-se no episódio a participação de Vicente Ferreira, o temido Negro Vicente, figura já conhecida nas paragens do Cariri e do Pajeú pela participação em diversos episódios de violência e pela ligação com bandos armados que transitavam entre a Paraíba e Pernambuco.
O julgamento de Peba havia sido adiado três vezes e acabou sendo novamente marcado para o dia 5 de maio de 1911. Os adversários de Santa Cruz buscavam retardar o processo ao máximo, pois sabiam que submeter o acusado a júri popular representava risco de absolvição, dada a influência política do ex-promotor sobre parte dos jurados e da população local.
Na data marcada, o promotor público Dr. José Inojosa Varejão solicitou novo adiamento sob o argumento de que testemunhas importantes não haviam comparecido à sessão. O juiz acatou o pedido, o que provocou intensa indignação em Augusto Santa Cruz. Durante acalorada discussão com o magistrado e o promotor, o bacharel afirmou que sua paciência havia se esgotado e que tomaria providências que já deveriam ter sido adotadas há muito tempo.
Na manhã seguinte, sábado, 6 de maio, dia de feira semanal na vila, Augusto Santa Cruz enviou um mensageiro às autoridades locais com uma pauta de exigências. Entre elas estavam a renúncia do prefeito Pedro Bezerra, a destituição do promotor Inojosa Varejão e a imediata libertação de Peba. Caso não fosse atendido, ameaçava invadir a vila.
O ultimato provocou uma reunião emergencial entre as autoridades. Participaram o prefeito, o promotor, o juiz, o delegado, o agente dos Correios e outras lideranças locais. O juiz Dr. Manoel Pereira Gomes tentou intermediar um acordo e chegou a ir duas vezes ao encontro de Augusto Santa Cruz, que se encontrava nos arredores da vila. As negociações fracassaram.
Decisão pela resistência armada
O delegado, sargento Manoel Balbino, colocou à disposição o efetivo policial disponível, composto por ele próprio, o cabo Severiano e vinte e dois soldados, todos bem armados e municiados, pois reforços haviam sido solicitados para garantir a segurança durante o júri que acabara sendo adiado.
Mesmo sabendo que a vila estava cercada, as autoridades organizaram pontos de defesa. Foram escolhidos o quartel, a cadeia pública, a mesa de rendas, o sobrado do capitão Antônio Basílio e a casa do juiz.
No quartel permaneceram o alferes Pedro Mendonça e quatro soldados. Na cadeia ficaram um cabo e sete soldados. Na mesa de rendas posicionaram-se três soldados. No sobrado do capitão Antônio Basílio permaneceram o promotor Inojosa Varejão, o major José Basílio, o capitão Antônio Basílio e um soldado. Na casa do juiz encontravam-se o próprio magistrado, o prefeito coronel Pedro Monteiro, o pároco padre João Gomes Maranhão, seu auxiliar padre João Onofre de Miranda e cinco soldados. No adro da igreja posicionaram-se o sargento Manoel Balbino e dois soldados.
Desde as cinco horas da manhã, Augusto Santa Cruz já havia cercado a vila com um contingente estimado em mais de duzentos homens. Tratava-se de um verdadeiro exército particular, composto por jagunços, cangaceiros e agregados provenientes de diferentes localidades do Cariri e do Pajeú. Entre eles estavam conhecidos bandoleiros da região, como Negro Vicente, Mané Chiquinha, Eutherio de Santana, Pedro Zolhudo, Zé Matuto, Biluca, Fuão Pelado, Lino, Antônio Jorge, os irmãos Antônio e Manoel Garcez, João Batista, João Grande, Antônio Sabiá, Manoel Cobra, João Cobra, Manoel Theobaldo do Nascimento e André Moleque.
Relatos sobre o cangaceiro Antônio Godê
Há relatos, ainda sem confirmação documental definitiva, de que naquela ocasião teria se incorporado ao grupo o cangaceiro Antônio Godê, também conhecido como Antão Godê, antigo integrante do bando de Antônio Silvino, que naquele período já desfrutava de grande notoriedade no Nordeste.
Às 13 horas e 30 minutos, Augusto Santa Cruz autorizou o início do ataque.
A entrada dos cangaceiros na vila foi brusca e tumultuada. Parte do grupo enfrentou diretamente a resistência armada, enquanto outros se dedicaram ao saque de casas comerciais e residências. Em meio ao intenso tiroteio, moradores e feirantes fugiam em desespero, muitos carregando crianças e idosos na tentativa de alcançar algum refúgio seguro nas matas próximas.
A cadeia pública foi a primeira posição conquistada. A parede foi arrombada a golpes de picareta. Os presos foram libertados e imediatamente armados com as armas tomadas dos soldados, sendo incorporados ao grupo invasor.
Outro grupo dirigiu-se à residência do capitão Albino Manoel da Silva.
Naquele momento encontrava-se na casa o fazendeiro Antônio Zeferino, proprietário do Sítio Santana e morador do povoado de Umbuzeiro, atual município de São Sebastião do Umbuzeiro. Ele havia ido à vila para participar da feira e estava hospedado na residência do amigo Albino.
Albino já havia sido informado de que um jovem, filho do finado Cipriano, havia se unido ao grupo de Santa Cruz com o objetivo de vingar a morte do pai, assassinado anteriormente no povoado de Boi Velho, atual Ouro Velho, crime no qual Albino teria participação.
Pressentindo o perigo, Albino conseguiu fugir no meio do tiroteio. Antônio Zeferino permaneceu na casa.
Pouco depois, um grupo de cangaceiros arrombou violentamente as portas da residência. Os invasores destruíram móveis e objetos enquanto disparavam tiros. Zeferino foi atingido por disparos, derrubado e arrastado para fora da casa. Em seguida foi brutalmente esfaqueado e teve os olhos perfurados, num ato de extrema crueldade que marcou profundamente a memória do episódio.
Enquanto isso, outros grupos avançavam sobre os pontos de resistência.
A mesa de rendas foi tomada quando os soldados que a defendiam ficaram sem munição. Dois se renderam e um conseguiu fugir em direção à casa do juiz.
Em seguida os atacantes concentraram-se no principal foco de resistência.
Quando os cangaceiros se aproximaram, foram recebidos a tiros pelo sargento Manoel Balbino e dois soldados posicionados no adro da igreja. Houve intensa troca de tiros. Um dos soldados foi ferido.
Em determinado momento, Negro Vicente pediu que os defensores se rendessem. Como resposta, o sargento Balbino disparou um tiro em sua direção que por pouco não o atingiu, arrancando-lhe o chapéu.
Uma imediata rajada de balas
A reação foi imediata. Uma rajada de tiros atingiu o sargento, que tombou morto.
Com a resistência enfraquecida, os cangaceiros cercaram a casa do juiz. O portão foi arrombado, mas a defesa no interior ainda resistia. Diante da ameaça de incendiarem o prédio com querosene, e já com a munição escassa, os defensores decidiram se render.
Após cerca de quatro horas de combate, por volta das 17 horas, a vila estava completamente dominada.
Os soldados foram levados à cadeia e encarcerados. As principais autoridades locais tornaram-se prisioneiras. Entre elas estavam o prefeito coronel Pedro Monteiro, o promotor Dr. Inojosa Varejão, o major José Basílio, o capitão Antônio Basílio e o agente dos Correios Victor Antunes de Oliveira.
Algumas pessoas foram libertadas posteriormente, entre elas o juiz Manoel Pereira Gomes, o juiz aposentado José Neves, Elyziário de Oliveira e o major Antônio Henrique, administrador da mesa de rendas.
A casa paroquial foi transformada em quartel-general do grupo invasor. Ali se instalaram Augusto Santa Cruz, Hugo Santa Cruz, Júlio Salgado, Santino, Senhorzinho e o ex-sargento Germano Barros.
O combate deixou um saldo trágico. Morreram o fazendeiro Antônio Zeferino e o sargento Manoel Balbino. Ficaram feridos dois soldados e Júlio Salgado, parente de Augusto Santa Cruz.
Durante a noite, os reféns foram exibidos pelas ruas da vila sob vigilância armada. Santa Cruz ameaçava executar os prisioneiros e incendiar a localidade caso qualquer força militar tentasse romper o cerco.
Ao amanhecer do dia seguinte, consolidado o domínio sobre a vila, Augusto Santa Cruz ordenou que os prisioneiros fossem reunidos e colocados sob forte escolta. Em seguida, todos foram conduzidos para a Fazenda Areial, propriedade do próprio Santa Cruz, situada nas proximidades da vila e que naquele momento passou a funcionar como base de operações do movimento.
A retirada dos reféns marcou o encerramento da dramática jornada iniciada com o assalto à vila de Alagoa do Monteiro. O episódio, contudo, estava longe de representar o fim das hostilidades. Ao contrário, a audaciosa invasão e a captura das principais autoridades locais repercutiram intensamente em toda a região, provocando reação imediata do governo estadual e mobilizando forças políticas e militares.
Aqueles acontecimentos de maio de 1911, protagonizados por Augusto Santa Cruz e seus seguidores, inauguravam uma fase de conflitos armados que logo ganharia repercussão nacional.
# José Tavares é escritor e pesquisador do Cangaço.
