José Tavares de Araújo Neto
Hoje, ao concluir a leitura e a revisão de A Marcha da Coluna Prestes pelo Estado da Paraíba: Combates, Documentos e Narrativas, sinto que cheguei ao ponto em que precisava chegar.
Foram quase três décadas de muitas leituras e releituras. Tudo começou em 1996, quando descobri que a Coluna Prestes havia passado por Pombal e que o comando-geral da marcha havia pernoitado na cidade. A partir daquele momento, comecei a ler tudo o que encontrava sobre a passagem dos revolucionários pela Paraíba.
Li muitos jornais de 1926, os telegramas, as mensagens do governo, os relatórios militares, as correspondências, os livros de memórias, os depoimentos e os estudos produzidos posteriormente. Com o passar dos anos, novas fontes foram surgindo, sobretudo com a digitalização de acervos. Algumas permitiram confirmar informações; outras trouxeram novos dados e, em determinados casos, colocaram em dúvida versões que eu já conhecia.
Foi esse trabalho de ler, comparar e confrontar fontes que orientou a construção deste livro.
Não quis simplesmente repetir aquilo que já havia sido escrito sobre a Coluna Prestes. Procurei acompanhar sua passagem pela Paraíba em ordem cronológica, percorrendo os lugares por onde passou, identificando os personagens envolvidos e recuperando documentos e testemunhos que ajudam a compreender os acontecimentos.
Formação da Coluna Miguel Costa-Prestes
Comecei pela formação da Coluna Miguel Costa-Prestes e pelo movimento tenentista, porque entendi que não seria possível compreender sua chegada à Paraíba sem conhecer o processo político e militar que a antecedeu. A partir daí, acompanhei a entrada da Coluna no Estado e sua marcha pelo sertão.
Pombal ocupa naturalmente um espaço especial neste trabalho. Foi aqui que nasceu minha inquietação sobre o tema e foi também aqui que encontrei documentos e episódios que me fizeram perceber que a passagem da Coluna pelo sertão paraibano merecia uma investigação própria.
A partir de Pombal, a pesquisa ganhou novos caminhos. Passei a acompanhar os deslocamentos dos diferentes destacamentos, as providências tomadas pelas autoridades e os episódios ocorridos nas localidades alcançadas pela marcha.
O livro acompanha a passagem da Coluna por São João do Rio do Peixe, Sousa, Pombal e Curema, até chegar a Piancó. Em cada etapa, procurei olhar não apenas para os movimentos dos revolucionários, mas também para as forças legalistas e para a população que viveu aqueles acontecimentos.
A documentação oficial mostra que o governo paraibano acompanhava com apreensão o avanço da Coluna. Telegramas e correspondências registram o deslocamento das tropas, a organização da defesa e as dificuldades encontradas para enfrentar uma força militar experiente e em constante movimento.
Em Pombal, essa movimentação adquiriu características próprias. A Coluna dividiu-se em diferentes eixos para contornar a resistência organizada na cidade. O destacamento comandado por João Alberto tomou uma direção distinta do grosso da tropa, passando pela região de Malta e Patos. Essa estratégia permitiu preservar a mobilidade da Coluna e evitar uma concentração diante das posições defensivas pombalenses.
Um dos episódios que mais chamaram minha atenção foi a prisão do fazendeiro Manuel Queiroga. Capturado pelos revolucionários, ele passou a acompanhar a marcha como refém. Sua prisão interferiu diretamente na estratégia das forças legalistas, que ficaram limitadas pelo receio de que uma ofensiva pudesse colocar sua vida em risco. O próprio João Suassuna atribuiu posteriormente à captura um papel importante no fracasso da estratégia de hostilização da Coluna.
Curema me permitiu olhar a marcha por outro ângulo.
Ali, procurei reconstruir a história de Esaú Rodrigues dos Santos, de sua esposa Emília, prima de minha avó, e dos filhos que estavam com a família quando a vanguarda da Coluna chegou ao povoado, em 8 de fevereiro de 1926.
A narrativa familiar me permitiu olhar para aquele episódio por uma perspectiva mais próxima, mostrando a dimensão humana de uma campanha que muitas vezes aparece na historiografia concentrada nos comandantes, nos deslocamentos militares e nos combates.
A história de Curema também me levou a um encontro entre memória e documentação. Décadas depois dos acontecimentos, Agú Rodrigues dos Santos entrevistou Luís Carlos Prestes e procurou confrontar as lembranças preservadas pela família com o depoimento de um dos principais comandantes da Coluna. Esse encontro acrescentou outra perspectiva à reconstrução do episódio.
Piancó é, naturalmente, o ponto de maior concentração da narrativa.
Antes de chegar ao combate, procurei reconstruir o ambiente político da cidade e a trajetória do padre Aristides Ferreira da Cruz. A resistência organizada em fevereiro de 1926 não surgiu de maneira repentina. Piancó vivia um ambiente de forte polarização política, construído ao longo de anos de disputas locais.
Depois, reconstruí o combate de 9 de fevereiro, a organização da resistência, a chegada da Coluna, o confronto, a derrota dos defensores e os acontecimentos posteriores à ocupação da vila.
Os documentos utilizados registram também os prejuízos materiais provocados pela passagem da Coluna. Em Piancó, estabelecimentos comerciais foram saqueados, prédios públicos foram incendiados e diversas residências sofreram danos. As perdas humanas foram ainda mais profundas.
Mas, ao estudar Piancó, percebi que o combate de 1926 era apenas uma parte da história.
A outra parte estava naquilo que aconteceu depois: a construção das narrativas sobre a tragédia.
A publicação de Os Mártires de Piancó (1955), de Padre Manuel Otaviano de Moura Lima, abriu uma nova etapa na historiografia do episódio. A obra reuniu documentos e testemunhos e tornou-se uma referência para os estudos posteriores sobre a tragédia.
A partir daí, antigos participantes e testemunhas passaram a responder às versões apresentadas. Manuel Arruda, João Cândido Câncio, militares, jornalistas e outros personagens entraram no debate.
Foi assim que uma nova batalha começou, desta vez no campo da memória e da interpretação.
No capítulo dedicado às diferentes narrativas da Tragédia de Piancó, procurei colocar lado a lado os relatos de Tavares Cavalcanti, João Suassuna, Padre Manuel Otaviano, Manuel Arruda, Luís Carlos Prestes, João Alberto, Lourenço Moreira Lima, Cordeiro de Farias e do historiador Evandro da Nóbrega.
Esse talvez seja o ponto em que mais procurei exercer o papel de pesquisador, e não simplesmente de narrador.
Não me parece correto escolher uma versão apenas porque ela coincide com aquilo que já pensamos sobre determinado personagem ou acontecimento. As fontes precisam ser confrontadas.
Um depoimento pode preservar uma informação importante e, ao mesmo tempo, carregar a interpretação de quem o produziu. Um relatório oficial pode trazer dados fundamentais e, simultaneamente, refletir a posição política de quem o escreveu.
É o caso da documentação produzida pelo governo de João Suassuna. Sua Mensagem à Assembleia Legislativa, de 1º de outubro de 1926, contém informações detalhadas sobre a organização da defesa, os deslocamentos da Coluna, os combates e os prejuízos registrados pelo governo.
Esses documentos são fundamentais, mas precisam ser lidos dentro do contexto em que foram produzidos.
Foi justamente essa preocupação que procurei manter durante toda a pesquisa: não transformar automaticamente memória em prova, nem documento oficial em verdade absoluta.
Também procurei recuperar personagens que ficaram em segundo plano nas narrativas tradicionais. Entre eles estão as mulheres que acompanharam a Coluna. O livro registra a presença das vivandeiras e de outras mulheres que participaram do cotidiano da marcha, algumas delas chegando a portar armas e a enfrentar os mesmos riscos dos combatentes.
Procurei ainda observar os efeitos da marcha sobre a população sertaneja.
Os documentos do governo registram requisições de animais, alimentos, armas e outros recursos, além da destruição de lavouras, cercas e currais. Também registram saques, incêndios, mortes, ferimentos, prisões e deslocamentos de moradores.
Esses registros não devem ser lidos sem crítica, mas são importantes para compreender que a passagem da Coluna não foi apenas uma movimentação militar. Ela interferiu diretamente na vida das pessoas que viviam nas regiões atravessadas pela marcha.
Ao terminar o livro, percebo que ele acabou sendo mais amplo do que imaginei quando comecei essa pesquisa.
É uma história da Coluna Prestes, mas é também uma história da Paraíba de 1926.
É uma história de militares e revolucionários, mas também de políticos, policiais, fazendeiros, comerciantes, mulheres, crianças e famílias sertanejas.
É uma história de combates, mas também de documentos.
E é, sobretudo, uma história de versões.
Hoje, depois de tantos anos de pesquisa, leitura, comparação e revisão, dou-me por satisfeito com o resultado.
Tenho a sensação de que consegui colocar no papel tudo aquilo que encontrei e que considerei relevante para compreender a passagem da Coluna Prestes pelo Estado da Paraíba.
Não significa que a história esteja encerrada. Nenhum trabalho histórico consegue estabelecer a última palavra sobre um acontecimento. Novos documentos podem aparecer, novas pesquisas podem ser realizadas e outras interpretações podem surgir.
Mas isso pertence ao futuro.
Quanto a este livro, considero que a pesquisa chegou ao seu ponto final. Não vejo, neste momento, mais nada a acrescentar ao trabalho. Ele está pronto.
Depois de quase três décadas, chegou a hora de deixar a pesquisa sair das minhas mãos.
Estou aguardando apenas os meus convidados, o apresentador e o responsável pelo prefácio, para concluir essa etapa e encaminhar o material à editora.
A partir daí, o livro estará pronto para ser disponibilizado aos leitores.
Durante muitos anos, A Marcha da Coluna Prestes pelo Estado da Paraíba: Combates, Documentos e Narrativas foi uma pesquisa que carreguei comigo. Agora, finalmente, ela poderá seguir seu próprio caminho.
Espero que o livro contribua para ampliar o conhecimento sobre aqueles dias de fevereiro de 1926 e, principalmente, que estimule novas pesquisas.
Porque, depois de quase trinta anos procurando documentos sobre a passagem da Coluna Prestes pela Paraíba, aprendi uma coisa que talvez seja própria de todo pesquisador de história: quanto mais fontes encontramos, mais percebemos o quanto ainda existe para investigar.
Mas, desta vez, a pesquisa pode esperar.
O livro está pronto para ir ao prelo.
# José Tavares é escritor.
