José Tavares de Araújo Neto
Quem chega à minha cidade provavelmente enxergue apenas um casario antigo, em grande parte reformado, entremeado por construções mais recentes; as igrejas, as praças, a Coluna da Hora, o Coreto do Centenário, a velha cadeia que tantas vezes abrigou personagens célebres do banditismo sertanejo, as ruas do centro e o movimento tranquilo de uma velha cidade do sertão.Poucos imaginam que, por essas mesmas terras, um dia também passaram os trilhos da estrada de ferro. O apito dos trens silenciou há muito tempo. Restaram alguns vestígios, quase sempre ignorados por quem passa apressado. Com a memória acontece algo parecido. Ela também deixa marcas que só se revelam a quem decide parar e olhar com atenção.
Não sei exatamente quando Pombal deixou de ser apenas a cidade onde nasci para se tornar a principal companhia de minhas& inquietações.
Talvez tudo tenha começado nas conversas com meu pai, que despertaram minha curiosidade sobre pessoas e acontecimentos que pareciam esquecidos. Ou talvez tenha sido quando, aos quinze anos, deixei Pombal para continuar os estudos. Primeiro vieram Bananeiras; depois, Areia. Eu imaginava que estava apenas seguindo o caminho que a vida me oferecia. Não sabia que, ao partir, levaria comigo uma cidade inteira.
A distância mudou meu olhar. Quanto mais tempo passava longe, maior era o desejo de compreender a terra onde nascera. Vieram as fotografias sem identificação, as notícias perdidas em jornais centenários e os documentos encontrados quando eu já não esperava por eles. Sem perceber, comecei a refazer o caminho de volta.
Foi assim que comecei a descobrir Pombal.
Talvez por isso eu tenha aprendido a gostar dos arquivos. Neles, a história nunca chega pronta. Cada documento faz uma pergunta antes de oferecer uma resposta. Muitas vezes, um papel amarelado derruba uma certeza repetida durante décadas. Em outras, confirma aquilo que a tradição conseguiu preservar. É um trabalho paciente, que exige desconfiança, mas também encantamento.
Com o passar dos anos, percebi que minhas pesquisas nunca foram apenas sobre o passado. O que eu buscava era entender por que Pombal se tornou o que é. Como uma povoação surgida no sertão alcançou tamanha importância na formação de tantas outras cidades. Como uma comunidade com 328 anos conseguiu atravessar tantas mudanças e continuar reconhecendo a si mesma.
Mas também descobri suas contradições. Ao longo de sua história, Pombal preservou parte de seu patrimônio, mas assistiu, muitas vezes de forma passiva, à destruição de outra parte de sua memória. Casarões vieram abaixo, referências desapareceram e documentos se perderam, como se o passado pudesse ser substituído sem consequências.
Sempre me incomodou essa falta de compromisso com a preservação, porque uma cidade que abre mão de sua memória acaba renunciando a uma parte de sua própria identidade.
Talvez essa inquietação explique por que continuo voltando aos arquivos. Cada documento recuperado, cada fotografia identificada e cada história reconstituída representam, para mim, uma pequena vitória contra o esquecimento.
Nunca enxerguei a pesquisa como uma coleção de datas ou de nomes. Sempre a vi como uma forma de gratidão. Escrever sobre Pombal é agradecer à cidade que me viu nascer e que, mesmo à distância, nunca deixou de caminhar ao meu lado.
Sempre que escuto Trilhos Urbanos, de Caetano Veloso, lembro que ele cantava sua Santo Amaro da Purificação. Eu escuto a canção pensando em outra cidade, também antiga, também capaz de permanecer dentro de quem precisou partir.
Quando chegam os versos
“Vão passando os anos
E eu não te perdi_
Meu trabalho é te traduzir.”
tenho a impressão de que embarquei no mesmo trem de Caetano. Apenas seguimos em direções diferentes: ele rumo a Santo Amaro; eu, de volta a Pombal.
Traduzir Pombal não significa transformá-la em lenda nem esconder suas contradições. Significa compreendê-la, confrontar versões, recuperar memórias e impedir que o tempo apague aquilo que ainda pode ser preservado.
Sei que jamais concluirei essa tarefa. Ainda bem. Nenhuma cidade termina de contar sua história. Eu passarei. Pombal ficará. Outros virão. Abrirão os mesmos livros, descobrirão novos documentos, farão perguntas diferentes, oferecerão novas interpretações e encontrarão as respostas que eu não encontrei.
# José Tavares é escritor e historiador.
