José Tavares de Araújo Neto

O chamado “pobre de direita” é frequentemente apresentado como um fenômeno contemporâneo, tema recorrente nas análises de Jessé Souza. No entanto, a experiência histórica brasileira revela que esse comportamento não é uma novidade. Ao contrário, acompanha-nos desde a formação colonial como parte de um mecanismo social profundo: indivíduos explorados que, por razões psicológicas, simbólicas ou culturais, aderem à ideologia dos próprios exploradores.

A metáfora da Síndrome de Estocolmo, nesse contexto, surge como uma chave poderosa para compreender essa lealdade paradoxal entre dominados e dominadores.

Desde o período colonial, esse padrão manifesta-se de forma evidente. Os capitães do mato, muitas vezes negros alforriados ou homens pobres, assumiam a função de perseguir escravizados fugitivos, defendendo com zelo o sistema que os marginalizava.

Os capitães do mato  imaginavam ocupar uma posição superior quando, na verdade, permaneciam presos à mesma lógica de opressão que sustentavam. Era o primeiro sinal de um mecanismo que se repetiria ao longo dos séculos: a ilusão de pertencimento ao “lado forte” (ainda que à custa da própria dignidade).

Essa lógica permaneceu ativa em toda a história brasileira.

Durante a ditadura militar, por exemplo, presenciei esse fenômeno nos movimentos estudantis da década de 1970. Enquanto muitos colegas lutavam pela democracia, pela liberdade e contra a repressão, outros jovens de origem pobre defendiam abertamente o regime autoritário, acreditando estar alinhados com uma ordem moral superior.

Assim como seus antepassados coloniais, ofereciam lealdade a um poder que os limitava e os vigiava. A história parecia repetir sua velha lição: o oprimido, em certas circunstâncias, abraça o discurso do opressor como forma de autoproteção ou de pretensa distinção social.

É justamente aqui que a metáfora da Síndrome de Estocolmo se torna esclarecedora. Na psicologia, ela descreve a dinâmica na qual a vítima, submetida à violência ou dependência prolongada, passa a nutrir sentimentos de fidelidade e identificação com seu agressor.

Na política, o processo é análogo. O pobre, exposto por toda a vida à ideologia difundida pelas elites (seja por meio da mídia, da religião, da escola ou da moralidade conservadora), internaliza valores que reforçam a própria subordinação. Cria-se um vínculo simbólico no qual o explorado passa a acreditar que compartilha interesses com aqueles que o exploram.

A narrativa do mérito, por exemplo, convence muitos de que a desigualdade é fruto do esforço individual e não de estruturas históricas profundamente desiguais. A ideia de “pobre honesto” contra “pobre perigoso” fabrica hierarquias ilusórias, pelas quais trabalhadores de baixa renda se sentem moralmente superiores a grupos ainda mais vulneráveis, reforçando divisões que beneficiam apenas o topo da pirâmide social.

Ao defenderem políticas que reduzem direitos, enfraquecem serviços públicos e aprofundam a desigualdade, esses indivíduos realizam algo semelhante às vítimas da Síndrome de Estocolmo: protegem e justificam quem os mantém aprisionados.

É nesse contexto que os sistemas de cotas se revelam fundamentais. Longe de serem privilégios, representam políticas públicas capazes de enfrentar séculos de desigualdade e romper o ciclo de subordinação que sustenta o fenômeno do pobre de direita.

Cotas sociais e raciais: acesso ao ensino superior

As cotas sociais e raciais democratizam o acesso ao ensino superior e a espaços profissionais antes monopolizados pelas elites, abrindo portas para grupos historicamente excluídos.

Paradoxalmente, muitos que seriam beneficiados resistem a essas políticas, presos às narrativas elitistas que exaltam a meritocracia abstrata e negam as desigualdades concretas. Essa oposição, vinda de setores populares, é mais um reflexo da Síndrome de Estocolmo social, pois o explorado, convencido pelos discursos da elite, rejeita os instrumentos que poderiam fortalecê-lo.

As cotas, nesse sentido, são uma das poucas ferramentas efetivas para romper o grilhão ideológico e permitir que o pobre se reconheça como sujeito de direitos.

Compreender esse processo é fundamental não para condenar pessoas, mas para desvendar os mecanismos sociais que moldam comportamentos coletivos. Romper esse ciclo exige educação crítica, acesso a informações plurais e políticas públicas que fortaleçam a autonomia material e simbólica dos indivíduos.

Enquanto o pobre continuar identificado com seu próprio opressor, permaneceremos presos às velhas distorções da história e às novas faces da Síndrome de Estocolmo social, que apenas perpetuam a desigualdade que marcou (e ainda marca) a sociedade brasileira.

# José Tavares é escritor e pesquisador do Cangaço

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