Eu sou Clementino Quelé e preciso ser ouvido
Por José Tavares
(Voz, memória e verdade de um homem do sertão)
Eu sou Clementino José Furtado.
Fui chamado de sargento Quelé.
E volto agora, não para me defender nem para acusar, mas para contar.
Durante muito tempo falaram por mim. Uns me reduziram a caricatura, outros me transformaram em sombra. Houve quem me usasse como peça de discurso, quem me citasse sem me ouvir.
Minha história ficou espalhada em relatórios, boatos, memórias truncadas e silêncios convenientes. O que não coube nesses registros permaneceu suspenso no ar, esperando quem tivesse coragem de escutar.
Este livro que agora se escreve é o meu retorno. Não no corpo, mas na palavra. Não apenas pela mão dos vivos, mas pela fresta que a memória abre quando alguém decide não mentir para a história. Se chamam de psicografia, aceito. Se dizem que é biografia autorizada, confirmo. Autorizada por mim, sem cortes, sem retoques, sem absolvições fáceis e sem condenações preguiçosas.
Não peço piedade. Peço verdade.
Antes de tudo o que veio depois, fui homem da lei em silêncio. Exerci a função de subdelegado da povoação de Santa Cruz, no município de Triunfo, onde aprendi, no trato diário com o povo simples e seus conflitos, o peso e a responsabilidade da autoridade.
Mantive a ordem, a segurança e a tranquilidade da população como quem cumpre um dever íntimo, sem alarde e sem desvios, acreditando que a lei, quando justa, ainda podia proteger.
Entrei no cangaço não por vocação, mas por falta de escolha, empurrado por perseguições e rótulos que estreitaram meu caminho. Convivi com Lampião, conheci sua liderança e seus excessos, mas rompi quando percebi que já não havia ali limite possível entre mando e crueldade.

Afastei-me e retornei à legalidade, ingressando nas forças volantes pernambucanas. Mais tarde, a convite do coronel José Pereira, passei a integrar as forças paraibanas, carregando comigo as marcas dessa travessia entre o cangaço e o Estado.
Em 1926, persegui os revoltosos da Coluna Prestes por entender que ali se rompia a ordem que eu jurara defender.
Em 1930, estive também no encalço dos rebeldes de Princesa, enfrentando homens armados, tensões políticas e interesses cruzados, sempre do lado que, naquele momento, representava o Estado e a legalidade constituída, ainda que essa legalidade já começasse a me parecer frágil e contraditória.
Mesmo assim, muitos fazem prevalecer minha breve passagem pelo cangaço, ocorrida quando me insurgi contra uma perseguição injusta, movida por interesses políticos e vinganças pessoais, para tentar me empurrar para o mesmo rótulo daqueles que passei a vida combatendo.
Transformaram resistência em banditismo, divergência em crime, honra ferida em rebeldia sem causa.
Essa leitura ignora, de propósito, toda a minha trajetória legalista. Nunca troquei a farda pela vida errante. Nunca fiz do saque meu sustento nem da violência um fim. Se me chamaram de cangaceiro, foi porque precisavam apagar minha coerência, não porque ela inexistisse.
Minha vida não foi a de um fora da lei. Foi a de um homem dentro dela, até o instante em que a própria lei se desviou de seus fundamentos e passou a servir a projetos menores. Dizem que não fui homem de equilíbrio constante. Confesso que fui, sim, um homem de excessos. Excessos de convicção, de dureza e de ímpeto, forjados num sertão que não ensinava a hesitar.
Em muitos momentos, confundi firmeza com intransigência e paguei por isso, acumulando conflitos, inimigos e decisões levadas além do necessário.
Meus excessos não nasceram da vocação para o crime, mas da crença, muitas vezes inflexível, de que ceder era fraqueza. Permaneci dentro da lei enquanto ela ainda se sustentava; quando resisti, resisti inteiro, sem cálculo e sem meias-medidas.
Quando resisti, não foi por vocação ao cangaço, mas por recusa a ser instrumento de injustiça. Não me rebelei contra o Estado; insurgi-me contra o uso torcido do poder.
Carrego culpas que não cabem em relatórios. Carrego também gestos que nunca entraram nas narrativas oficiais. A história prefere heróis limpos e vilões completos. Eu não fui nenhum dos dois. Fui um homem atravessado por forças maiores do que ele, tentando me manter inteiro num mundo que exigia fraturas.
Este livro não me salva. Nem me condena. Ele me devolve.
Aqui não há omissões deliberadas. O que dói aparece. O que envergonha também. O que me sustenta permanece. Cada página é uma escuta. Cada linha, uma tentativa de ajuste entre o que vivi e o que ficou dito.
Volto porque a história não terminou quando meu nome saiu dos jornais ou quando meu corpo deixou a cena.
Volto porque ainda há perguntas sem resposta e julgamentos mal feitos. Volto porque alguém decidiu que o silêncio não é destino.
Eu sou Clementino Quelé.
E esta é a minha voz, agora inteira.
#José Tavares é historiador e pesquisador do Cangaço
