O dramaturgo, ator e escritor paraibano, Tarcísio Pereira, está em conversação com a editora do Jornal A União, a publicação do seu livro (premiado) sobre Teodósio de Oliveira Lêdo, judeu brasileiro mas de ascendência portuguesa, desbravador da Paraíba e fundador de vários municípios paraibanos, inclusive Pombal.

A publicação do novo livro de Pereira está prevista para pós-Carnaval. O escritor agora resgata a trajetória de um dos fundadores da Paraíba com uma visão de romancista, mas agitando o ambiente dos historiadores, deixando claro que, Teodósio de Oliveira, Cristão Novo, ao fundar Pombal, estaria cumprindo “desígnios de Deus”, um lema da propaganda da Coroa Portuguesa.

Membro da Academia Paraibana de Letras, Tarcísio Pereira é escritor, teatrólogo, jornalista e publicitário. Paraibano, o autor nasceu em 1965, na cidade de Pombal-PB, e tem uma intensa produção literária, além de criações e atuação no teatro, cinema e TV. É autor de vários livros e já recebeu diversos prêmios literários e dramatúrgicos em concursos nacionais de literatura e festivais de teatro. Com vários livros publicados, sua maior produção literária concentra-se em romances e dramaturgia. É também roteirista, ator, diretor de teatro e gestor cultural, reporta o site da APL.

Os desígnios de Deus e a Coroa Portuguesa

Um trecho do romance inédito TEODÓSIO, sobre a expedição de Teodósio de Oliveira Lêdo para desbravar o sertão paraibano no ano 1698, depois de matar e subjugar várias aldeias indígenas da região:

“Tinha pressa, para que Lisboa ficasse logo sabendo que já estavam instalados, depois de escrever a El-Rei Dom Pedro narrando toda a conquista. Ordenou que fizessem casas e currais, o fortim e a capela, então os homens se lançaram à lida de quinze horas por dia, cavaram a terra e arrancaram pedras, barro, tocos soterrados, trouxeram areia do rio e também tapuias que eram capturados e convertidos à fé. As bigornas martelavam em rochas e emitiam sons que chegavam longe. Estacas e troncos formando cercas, bois tangidos e guardados ali, pastando perto dos córregos. O barro pisado, mãos calejadas se movendo com urgência desenfreada. A pequena povoação, com ares de improvisada, ganhava a forma de um lugarejo a partir do rancho que havia sido fundado por Padre Celso e a cabocla, quando ali chegaram há cerca de dois anos. A vegetação tão agreste, antes ressequida, era assolada pelo alvoroço das obras e o chão se tornava plano, e os homens o escavavam sem pedir licença à terra primitiva. Desmancharam a capelinha de palha e levantaram as paredes para outra, no mesmo local, agora um pouco maior. No início, tanto Guta como Padre Celso tentaram impedir: que a capela fosse construída num outro lugar, mas preservassem a primeira. Teodósio riu e justificou o ditame:

– Isto não passa de uma choça torta e não aguenta uma chuva.

Festa do Negros do Rosário de Pombal

Magoado, o padre fez questão de lembrar a ele que dois invernos já haviam passado, desde que chegaram ali. Teodósio respondeu sério e com alguma arrogância:

– Porque não era inverno de verdade. Inverno mesmo, com chuvas grandes e pesadas, só haverá de descer aqui depois que a terra for batizada pela Coroa, porque são estes os desígnios de Deus.

Padre Celso se afastou e Guta também. De nada adiantava discutir com ele, o capitão tinha a palavra de um chumbo e encontrava respostas para tudo, sempre amparado pelas cartas régias e pela patente, na missão e na fé de um Cristo cuja coroa já não era de espinhos, mas de pérolas e pingentes de ouro.”

Imagem de Capra: Tarcísio Pereira é ator, dramaturgo e romancista. Membro APL

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