José Tavares de Araújo Neto

Por solicitação do interventor de Pernambuco, Carlos de Lima Cavalcanti, o juiz de Direito da comarca de Princesa, José de Farias, determinou o levantamento das referências constantes nos autos acerca da participação de autoridades, políticos e particulares pernambucanos no movimento armado ocorrido em Princesa.

A certidão foi lavrada pelo escrivão Antonio Rodrigues Lima Amaral, em 12 de março de 1931, e posteriormente divulgada pela imprensa, relacionando indivíduos qualificados como responsáveis ou corresponsáveis pela sustentação política, financeira, logística e administrativa do levante.

O inquérito aponta como dirigente central do movimento o deputado estadual e chefe político local José Pereira Lima, cuja decisão de romper com o governo da Paraíba foi precedida por articulações políticas mantidas entre Paraíba e Pernambuco, especialmente nas cidades de Princesa, Triunfo e Flores.

O juiz destaca a reunião realizada em Flores como momento decisivo desse processo. O encontro, ocorrido na residência do chefe político local Antônio Medeiros, contou com a presença dos irmãos João, Francisco e Epitácio Pessoa de Queiroz, além de José Maria Bello, com o objetivo de concertar os meios e as condições do rompimento.

Segundo o relatório, no curso desses entendimentos foram mencionadas promessas de compensação política futura, apresentadas como incentivo à manutenção do rompimento e ao apoio à ação armada. Teria sido aventada a possibilidade de inserção política de José Pereira em Pernambuco, mediante mandato eletivo, bem como a perspectiva de um mandato federal para João Suassuna.

Essas promessas são registradas como expectativas formuladas no interior das articulações, destinadas a mitigar os riscos políticos do rompimento. Ainda em Flores, José Pereira expediu telegrama ao presidente João Pessoa, formalizando a ruptura.

No plano financeiro, os autos registram a obtenção de recursos em Pernambuco, com referências a intermediações políticas de âmbito nacional, inclusive menções a Washington Luís e Júlio Prestes.

O transporte dos valores teria sido realizado por Renato Freitas, em automóvel de José Alves, trazendo sessenta contos de réis, parte dos quais permaneceu sob a custódia do coronel Antônio Japiassu, residente em Rio Branco, antes do envio a Princesa.

Quanto ao armamento, a apuração descreve o trânsito de carregamentos provenientes do Recife, com passagem por Flores e pela região de Carnaíba, especialmente pelo local denominado Baixa do Juá.

Os depoimentos indicam que os caminhões portavam autorizações atribuídas a Ramos de Freitas, sob o argumento de serviço policial.

Menciona-se a atuação de Alcides Malaquias, auxiliar dos Pessoa de Queiroz, bem como o episódio envolvendo o tenente Bernardino Maia, comandante do destacamento em Flores, cujas tentativas de restrição teriam sido apenas formais, resultando em sua posterior transferência, sob a administração do governador Estácio Coimbra.

No que se refere às chefias políticas regionais e aos colaboradores locais, os autos apontam, entre outros, Pedro Pires, Severino Pires e Augusto Guerras, em Afogados da Ingazeira; Manuel Pereira Lins, conhecido como Né da Carnaúba, primo de Luiz do Triângulo, além de José Olavo de Andrade e Paulino José do Nascimento, conhecido como Paulino do Saco da Roça, todos vinculados ao então município de Vila Bela, atual Serra Talhada; Severino Rêgo, em Umburanas; José Gomes de Sá, Antônio Medeiros e Zuca Carlos, em Flores; José Dantas, em Carnaíba, pai de Zé Dantas; e o advogado Geminiano Jurema Filho, no Recife, compondo uma rede política e logística de apoio ao movimento armado.

Flores destaca-se como polo articulador, concentrando encontros decisórios, circulação de recursos e trânsito de armamentos, enquanto Afogados da Ingazeira, Vila Bela, Umburanas, Carnaíba, Rio Branco e Recife aparecem como pontos complementares dessa estrutura.

Por fim, o inquérito registra que o levante armado de Princesa resultou de uma combinação política envolvendo mais de vinte agentes, incluindo referência a Eurico de Souza Leão, sem detalhamento da forma concreta de atuação, num contexto que, após a consolidação do novo regime, deu lugar a processos de responsabilização política e constrangimentos aos antigos aliados de José Pereira Lima.

# José Tavares é historiador e pesquisador

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