José Tavares de Araújo Neto
Antônio Xavier de Oliveira desenvolveu uma produção intelectual marcada pela observação direta do interior nordestino e pela reflexão crítica sobre o Brasil republicano.
Sua obra mais conhecida, Beatos e cangaceiros, tornou-se referência para o estudo da religiosidade popular, do cangaço e das tensões sociais do Nordeste.
Completam esse núcleo interpretativo O Exército e o sertão, voltado à presença do Estado armado no interior, e Espiritismo e loucura, ligado à sua formação psiquiátrica.
No campo político, destacam-se Na Assembleia Constituinte e O problema imigratório na América Latina, compondo um conjunto que articula ciência, política e experiência sertaneja.
A partir desse acúmulo de reflexões e vivências, ganha especial relevo o depoimento publicado por Xavier de Oliveira no Jornal do Brasil, em março de 1930.
Diferentemente de seus estudos de caráter mais sistemático, esse texto nasce do deslocamento em curso e da observação imediata, assumindo a forma de relato de viagem e testemunho escrito, no qual o autor registra, em primeira pessoa, o ambiente de tensão, incerteza e expectativa que marcava o interior da Paraíba no momento em que se iniciavam as articulações do movimento armado que ficaria conhecido como a Revolta de Princesa.
O depoimento tem início em Juazeiro do Norte, então centro espiritual e simbólico do Nordeste interior. Ali, Xavier consigna a circulação intensa de boatos sobre a crise política paraibana e a iminência da guerra. Esses rumores não são tratados como simples fantasias populares, mas como elementos constitutivos do imaginário político regional e da forma como o poder estadual era percebido no interior.
As perguntas que se repetem ao longo do caminho — “E a guerra?” e “E o Padre Cícero?” — revelam que o conflito era sentido menos como disputa ideológica e mais como ameaça concreta à vida cotidiana.
No depoimento, o autor registra o boato segundo o qual João Pessoa teria atravessado o Ceará disfarçado de romeiro, montado num jumento, para encontrar-se secretamente com Padre Cícero Romão Batista. Xavier nega a veracidade factual do episódio, mas ressalta sua força simbólica. Para ele, a plausibilidade do rumor revela que, no imaginário sertanejo, João Pessoa não dispunha de autoridade moral suficiente para pacificar o interior sem recorrer, ainda que de forma clandestina, à mediação do sacerdote.
Outros rumores também são consignados no depoimento, como o de que o governador teria deixado oficiais de sua milícia em Cajazeiras antes de ingressar em território cearense. Em contraponto aos boatos, Xavier registra o que considera factual: estiveram em Juazeiro o prefeito de Princesa, genro do coronel Pedro Silvino, e o cangaceiro José Terto, além de ter chegado ao sacerdote um telegrama de Epitácio Pessoa solicitando que não interviesse no conflito.
Esses elementos, no entendimento do autor, reforçam indiretamente o conteúdo simbólico dos rumores, ao evidenciar o temor do poder institucional diante da palavra de Padre Cícero.
Nessa conjuntura, Xavier registra, como testemunho direto, a declaração de Padre Cícero Romão Batista de que não interviria na luta armada. O silêncio do sacerdote é interpretado, no próprio depoimento, como gesto deliberado de prudência e responsabilidade moral diante de uma região interiorana à beira do fratricídio.
Prosseguindo em sua viagem, Xavier relata ter seguido de trem em direção à Paraíba, ingressando no estado por Sousa. No depoimento, descreve a presença de destacamentos policiais, o semblante apreensivo dos passageiros e o silêncio cauteloso dos moradores, que reiteram as mesmas indagações sobre a guerra iminente.
Sousa aparece, assim, como o primeiro marco concreto do conflito percebido de perto.
A partir de Sousa, o depoimento registra a continuidade da viagem em automóvel pelo interior do estado, realizada praticamente em uma só etapa. É nesse percurso que Xavier consigna sua passagem por Pombal, cidade vizinha e igualmente inserida na zona sertaneja, apresentada como corredor estratégico de tropas, caminhões e rumores.
Em Pombal, o autor testemunha como a paisagem agrícola tradicional é atravessada pela lógica militar, dissolvendo as fronteiras entre vida civil e guerra.
O depoimento prossegue com a passagem por Patos, ainda no interior, onde a presença de forças armadas se intensifica, confirmando que o conflito se expandia por toda a região. Somente após esse longo percurso Xavier registra a chegada à Serra da Borborema, marco geográfico que assinala a transição para outras paisagens sociais.
Ultrapassado o núcleo mais árido do interior, o depoimento registra a chegada a Campina Grande, cidade do agreste paraibano, assentada no Planalto da Borborema, espaço de transição econômica e social. O autor observa que a crise ultrapassava o interior profundo e alcançava centros regionais de maior peso econômico.
Por fim, consigna a passagem por Mogeiro, já fora do espaço sertanejo, marcando a etapa final da travessia paraibana antes da descida rumo à zona da mata e ao litoral.
Ao longo de todo o depoimento, Xavier desenvolve uma leitura crítica do conflito paraibano. Ele desmonta a narrativa oficial que opõe soldados legais a cangaceiros criminosos, afirmando que a diferença entre uns e outros reside apenas na indumentária. Ambos são homens pobres do interior, arrancados da lavoura, pagos da mesma forma e lançados à morte por decisões tomadas acima deles. O conflito aparece, assim, como embate fratricida entre iguais, produto de disputas entre elites políticas.
Xavier também rejeita explicações morais ou ideológicas simplistas. Em seu depoimento, a Revolta de Princesa surge como resultado da ruptura de alianças pessoais e políticas no interior do próprio sistema oligárquico. O chefe rebelado não poderia ser tratado como bandido, pois até pouco tempo antes integrava o mesmo arranjo político que agora o combatia. João Pessoa aparece, nesse quadro, como figura central de uma crise que não conseguiu mediar, símbolo das limitações do Estado republicano diante do interior.
O depoimento culmina em um apelo de paz. Ao atravessar o interior paraibano, Xavier afirma ter percebido o anseio profundo do povo pelo fim da violência. Sua escrita, ancorada na viagem, no testemunho e na escuta, ultrapassa o registro jornalístico e se consolida como interpretação histórica de grande densidade.
Nessa narrativa testemunhal, cruzam-se fato e rumor, fé e política, silêncio e violência. Antônio Xavier de Oliveira transforma a experiência vivida em documento histórico duradouro, capaz de iluminar as fragilidades estruturais do Brasil republicano em um de seus momentos mais críticos.
# José Tavares é escritor e pesquisador
